sexta-feira, 25 de junho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Anões

Aparecido Raimundo de Souza 

BAGDELO PINTO DO REGO
estava numa festa de aniversário, onde fora levar a sua filha, quando dona Ruth Cabeleira, que se excedera um pouco na bebida e mal se sustentando em pé, viera ficar entre ele e o marido Alpheu. Meio da conversa, a mulher resolveu, do nada, indagar do amigo de seu esposo, qual a definição que ele tinha para os seres humanos considerados anões. Um tanto perplexo, com a pergunta, que ele achou imprópria e intempestiva, Bagdelo Pinto do Rego olhou primeiro para o Alpheu e, em seguida, para a consorte dele, dona Ruth Cabeleira.

— Não entendi, dona Ruth. A senhora poderia ser mais explícita?
— Mais do que fui? Impossível! Perguntei ao senhor, doutor Bagdelo Pinto no Rego, qual a sua definição —, ou para ser mais precisa —, a sua explicação ‘medicinalmente’ falando, para os seres considerados entre nós, como anões, grosso modo, goleiros de futebol de botões, ou porteiros de gaiolas. Levando em conta que o senhor é um médico renomado, como meu marido...
Bagdelo Pinto do Rego deu um sorriso meio sem graça e de forma a não melindrar a esposa de seu colega de profissão, fez uma deferência à pronúncia errônea de seu patronímico, antes de efetivamente responder a indagação trazida à baila.

— Desculpe, dona Ruth. Com todo respeito ao meu amigo Alpheu, aqui ao meu lado e a senhora. Gostaria de esclarecer e chamar a atenção para a forma correta de meu nome. Me chamo Bagdelo Pinto do Rego.
Dona Ruth Cabeleira fez uma cara de repugnante zanga e antipatia.
— E como eu disse?
— A senhora falou Bagdelo Pinto no Rego.
— E como eu deveria ter dito?
— Veja bem, dona Ruth. A senhora me chamou de Bagdelo Pinto no Rego. O certo seria Bagdelo Pinto do Rego.

Dona Ruth Cabeleira fingiu não entender bulhufas. Se fez de sonsa.
— Que diferença faz eu ter dito Bagdelo Pinto no Rego ao invés de Bagdelo Pinto do Rego?
— Muita, dona Ruth. A diferença está na forma como a senhora colocou a pronúncia, trocando o ‘do’ pelo ‘no’.
— Doutor Bagdelo, sinceramente, não me lembro...
— Dona Ruth, a senhora me chamou de Bagdelo Pinto no Rego. Deu para perceber a falta de igualdade? É quase invisível, entretanto, leva a uma conotação bastante acentuada. Eu diria até esdrúxula.

A mulher se abriu numa carranca engraçada e soltou uma gargalhada irritante. Parecia ter bebido além da conta. Aliás, bebera mesmo. O bafo da criatura estava insuportável.
— E como seria mesmo?
— Pinto do Rego.
— E que mal há nisto?
— Dona Ruth, ao me chamar de Bagdelo Pinto no Rego, a senhora ofendeu a minha pessoa. Lado outro, denegriu meu nome de médico e pior, manchou o bom nome da minha estirpe.

— Sua o quê?
— Estirpe...
— Que diabo venha ser esta droga?!
— Estirpe, dona Ruth é o mesmo que tronco familiar.
— Meu Deus, que loucura!
— A senhora usou, repetindo, ao invés de Pinto do Rego, Pinto no Rego. Percebeu? Pinto ‘do’, para Pinto ‘no?’ A isto se poderia chamar de uma forma jocosa, grotesca e zombeteira, tipo assim, como se a sua pessoa estivesse tirando um sarro da minha figura pública e, de roldão, dos meus consanguíneos. Desculpa.

Alpheu, até então mudo e calado, resolveu entrar na conversa e acalmar os ânimos. Pressentia, no ar, que logo seu melhor amigo estaria entrando em sério atrito com a sua mulher. Falou:
— Bagdelo, por favor, mil perdões em nome da minha pobre Ruth. Ela se excedeu um pouco no vinho, conforme dá para perceber e, em decorrência, não está dizendo coisa com coisa. Pela nossa amizade, e pela falta cometida pela minha patroa, lhe imploro, mil perdões.

Dona Ruth, todavia, antes que Bagdelo dissesse algo, mandou que o marido calasse a boca e partiu para cima.
— Larga de ser besta, Alpheu. O doutor está querendo distorcer as minhas palavras. Tudo por conta de uma simples pronúncia de seu nome. Quer arranjar confusão somente por causa de um ‘no’ que coloquei no lugar do ‘do’ de forma errada.
Alpheu tentou explicar o inexplicável.
— Querida, você indiretamente está ofendendo nosso convidado que gentilmente trouxa a filha dele para o aniversário de nossa princesinha.
— Ofendendo? Eu?

— Sim, amor. Veja a dessemelhança gritante do Pinto no Rego, para Pinto do Rego.
— Não vejo distinção nenhuma do Pinto no Rego, para Pinto do Rego. Tudo é rego, tudo é pinto. O ‘do’ ou o ‘no’, sinceramente, não fede nem cheira. Seu amigo doutor Bagdelo não passa de um criador de caso.
— Querida, pelo amor de Deus. Olha o vexame, olha o vexame...
— Se o seu amigo não gosta do pinto no rego, ou o rego do pinto no pinto do rego, que contrate um advogado e proceda a mudança dentro da lei. Ai, meu marido, ninguém mais o perturbará com o Pinto no Rego, ou fora dele...

E concluiu, eufórica.
— Meu amor, eu só queria saber o que ele acha, clinicamente falando, dando à ‘mim’, uma explicação científica para os anões, esses raquíticos e mirrados terem nascidos nanicos e abaixo da estatura normal.
Bagdelo achou melhor não dar trela à senhora. E caiu fora, antes que um simples papo informal virasse algo que redundasse em vias de fato. Procurou pela filha e, mesmo não esperando pela cantada dos parabéns e da cortada do bolo, tratou de sair de cena. Envergonhado o amigo Alpheu foi leva-lo até o carro.

Antes de dar a partida, Bagdelo se virou para o amigo e desabafou com um sorriso forçado.
— Sem ressentimentos, amigo Alpheu. Quando a sua esposa, dona Ruth estiver mais calma, diga a ela que um anão é um ser humano como todos os demais. Eles choram, têm emoções, se casam, geram filhos, sofrem barreiras e descriminações. Enfim, em nada diferem de nós. Eles apenas perderam a robustez do tamanho. Contudo, deixe esmiudado à dona Ruth, que no fundo, com suas ações e bravuras, eles, os anões, nos superam, em muito no ‘quesito altura’. O miudismo não faz o homem inferior... ao contrário, eleva o seu caráter e determinação à patamares que muitas das vezes transcendem o sublime com supimpa e incontestável excelência.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 25-6-2021

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6 comentários:

  1. Realmente um simples 'no' colocado em lugar errado, pode fazer toda a diferença. Certo o doutor Bagdelo em chamar a atenção.
    Carina
    Ca
    Vila Velha ES

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  2. Lembro que você fica furiosa quando alguém lhe chama de Carina Bratte. Afinal você bratte muito? Em quem?
    Aparecido
    Vila Velha ES.

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  3. Esse povo que estudou nas escolas brasileiras depois de Paulo Freira criou muita discórdia linguística.
    Alguém acusou um médico por causa da palavra "DURO".
    Um certo Vinícius de Moraes criou a frase:
    "QUE SEJA ETERNO ENQUANTO DURE..." para amor.
    Engraçado que "DURE" PODE SIGNIFICAR DUREZA OU RIJEZA OU "DURO", TENAZ E ETC...
    AMOR TEM QUE SER ETERNO ENQUANTO VIVO.
    Tivessem aprendido nas escolas saberiam a fenda interglútea é o espaço entre as nádegas que vai até o sacro, não confundir com saco o escroto.
    REGO são as marcas deixadas pelo arado.
    Vi muitos pintos no rego a caçar minhocas.
    Vi muitos arados abrindo regos para a lavoura.
    As anedotas antigas criaram analogias de cunho sexual durante décadas sem causar constrangimento.
    Houve uma valsa de Francisco Petrônio, "O BAILE DA SAUDADE" que foi proibida de tocar em Portugal por causa da palavra RETRETA.
    No Brasil é apresentação de uma banda de música, RETRETE é uma louça que recebe dejetos.
    Como são infantis os miados ou uivos da nova geração.
    O AMOR SERÁ ETERNO ENQUANTO DURO...
    A mulher faz sexo a vida toda, o homem até a ficar BROCHA, nome que fui chamado por vários sem nunca incomodar-me.
    PINTO NO REGO é uma piada que todos com esse sobrenome deveriam aceitar.
    Gostaria de colocá-los todos no meu "REGAÇO", espero que não confundam com "REGO GRANDE".
    FUI...

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  4. Só como informação:
    '«Favor informar os reclamantes constantes (= que constam, mencionados) no "ou do processo" processo n.º 99/999».
    Não é erro empregar-se a preposição de.'
    Então "PINTO DO REGO OU PINTO NO REGO" É A MESMA COISA.
    As preposições constantes são equivalentes, nas mentes deturpadas podem significar diferenças.
    O a com crase é diferente de em + a.
    Pinto não é pênis e rego não é bunda, são piadas metafóricas.


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  5. Imaginem!
    Jacinto Pinto Aquino Rego
    Gerente de embucetamento na Marci Rosenberg PC
    Tocantins, Brasil
    Está no LINKEDIN
    Há diferenças entre BOCETA E BUCETA...
    "Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho"
    Machado de Assis, Contos de Escola.
    BUCETA CORRUPTELA DE LINGUAJAR CHULO DE ÓRGÃO GENITAL FEMININO.
    ACORDEI EMBOCETADO HOJE....


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  6. Amei todos os comentários. É em razão deles que continuo escrevendo.
    Aparecido Vila Velha ES.

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