terça-feira, 8 de junho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] O inesperado entre parâmetros

Aparecido Raimundo de Souza 

O CINCINATO PANTURRILHA estava prestes a passar da pacata vida de solteiro, para a linhagem dos homens sérios. O cara iria se casar com a Viviane Quebra Coração, uma jovem bonita, inteligente, recém chegada na casa dos vinte. Apesar da idade, ninguém lhe dava mais que dezoito. Tudo nela resplandecia, desde os cabelos compridos até a ponta dos dedões dos pés. A beldade lembrava uma princesa das histórias clássicas de amor incondicional, sem contar que, em paralelo, deixava a galera em polvorosa e à beira de um ataque de nervos. 

Pois bem. A dois dias do enlace matrimonial (que aconteceria no domingo, logo às primeiras horas), Cincinato Panturrilha reuniu seus amigos no bar do Olho de Gato. Na sexta-feira, chegou do trabalho e, ao invés de ir em casa de seus pais trocar as roupas, passou, primeiro pelo ‘ponto de encontro’. Desta feita, por conta da troca de alianças, se viu recebido na porta, com todas as honras pelo próprio Olho de Gato que lhe encheu de abraços e felicitações. Ao ganhar o espaço do amplo salão, percebeu que a turma dos puxa-sacos se fazia presente. 

Tomado por uma euforia contagiante, no momento de ‘ir para a galera’, gritou do hall, a plenos pulmões, que a primeira rodada de cerveja daquela noite auspiciosa, seria paga por ele, juntamente com os acessórios para as degustações e os engraçamentos dos bigodes dos companheiros, não só os que trabalhavam com ele, na fábrica de móveis, como os demais colegas da rua, os vizinhos, os pernetas (iguais em relação ao seu pouco conhecimento de uma verdadeira partida de futebol) que batiam uma peladinha nas folgas do serviço, bate bola que corria, à solta, no campo abandonado do antigo aeroporto. 

A estupenda leva de tira-gostos ficaria por conta da inoxidável Sarita Camundonga, a fiel escudeira e adorável esposa de Olho de Gato. Ninguém melhor que ela sabia como preparar um caldo de mocotó para deixar a rapaziada feliz da vida. Um somente dos convivas, que provasse do seu prato, por mais especialista que fosse em culinária, não teria do que reclamar a depois. Nesta alacridade desenfreada, bebidas às mesas, porções de batatinhas, salaminhos e linguiças servidas aqui e acolá, regadas, por sua vez, ao afamado caldinho de mocotó, usque às trocas das mais contagiantes efusividades, entre elas, abraços e mais abraços, tapinhas nas costas, agarros e beliscões, etc. etc e tal, o Cristóvão Sola Furada, dono da ‘Sapataria Buraco Nunca Mais’, resolveu tirar uma dúvida, ou melhor, desanuviar uma certa confusão que o deixava com a pulga atrás da orelha direita, levando em conta que a orelha esquerda havia perdido em decorrência de uma bala perdida. 

Chamou o Cincinato Panturrilha num canto. 
— Cincinato, se eu lhe fizer uma pergunta, jura que me responderá sem pestanejar? 
— Claro que sim, meu querido Cristóvão Sola Furada. Manda vê. 
— É impressão minha ou o prezado está meio nervoso, apesar que, daqui a poucas horas, se ajoelhará diante do padre Fibusgardo Rabanete? Aliás, por falar no diabo, o santo homem acabou de chegar... 
— Por que acha que estou nervoso? 
— Porque desde que você entrou aqui, trazido pelo Olho de Gato, não para de piscar, de dois em dois minutos, bota a língua para fora e treme as mãos desordenadamente... Algum problema? Está arrependido? Pensa em desistir da empreitada? 

— Bobagem, Cristovão Sola Furada. É uma coceira braba que peguei naquele lugar, que está me deixando pê da vida. 
— Naquele lugar? Que lugar? 
— Aquele... 
—... Sim, mas temos vários ‘aqueles...’. Acaso a cafubira se alojou justamente no instrumento de trabalho?! 
— Não, Cristóvão Sola Furada. Nos fundilhos. Está comichando demais. Ando a ponto de deixar a bunda com o cu e tudo, em algum lugar para ver se me aquieto. 
— Coisa boba, Cincinato. Aproveita a 'deixa' da pandemia e passa álcool em gel. Logo sossegará.

— Passei até dizer chega... 
— Esta coceira começou hoje ou perdura algum tempo? 
— Está firme e forte desde segunda-feira... 
— E o que você acha que é?
— Estou quase a lhe segredar que é coisa da minha noiva, a Viviane Quebra Coração. Ela é bem capaz de ter feito alguma mandinga, ou colocado algo estranho na minha cueca, quando pegou pra lavar...
— Credo, meu amigo!
— Mas, se aquiete. Deixa estar, Cristovão Sola Furada. Vou dar o troco na hora da cerimônia, quando todo mundo estiver dentro da igreja. O que é dela está guardado. Espera e verá.

— O que está pretendendo? Não me diga que pensa em abandonar aquele mulherão no altar? Seria um desperdício... Imagine os gaviões de plantão...
— Qual o quê! Já imaginei. O buraco é mais embaixo. Fiquei sabendo, por fontes fidedignas, que ela desconfia que eu tenho uma amante. E vai aprontar alguma comigo na frente dos nossos amigos e parentes. Contudo, não se preocupe. Antes que ela mostre a carta que tem escondida na manga, eu darei o troco numa boa...

— E posso saber qual é a ideia?
— Aparecerei diante dos convivas vestido de morte. Da cabeça às meias, estarei de preto, com máscara cobrindo o rosto e o mais importante: segurando, na mão esquerda, aquela foice tenebrosa...’amedrontante’. Ela odeia falar em coisas ligadas ao além...
— Cincinato, pelo amor de Deus. Ficou maluco? Que ideia mais infeliz esta sua? Qual seu objetivo, afinal de contas?

— Meu objetivo? Simples, meu queridíssimo Cristovão Sola Furada. Idealizei colocar em pratos limpos e me certificar, de uma vez por todas, que a minha futura consorte, a senhora que pretendo, fique comigo, até o final de meus dias, seja realmente uma garota honesta e pura, ou via outra, uma mentirosa e enganadora... Desde que nos conhecemos, há três anos, vem me dizendo que é virgem. Nunca se deitou comigo, e pior, jura, por tudo quanto é santo, que jamais conheceu um homem intimamente. Tiro por mim. Ate agora, não progredi além dos beijos e abraços. Sexo, que é bom, ela me proibiu terminantemente de balançar os ossos até o dia do sim. Para seu governo, estou na seca, chupando o dedo, desde que a conheci. Cama, só depois de tudo sacramentado...

— Cincinato Panturrilha, desenhe. Juro que estou voando...
— Nada a desenhar, meu caro. Raciocine comigo: se ela, ao me ver no altar, vestido de Morte, com uma baita de uma foice apontada para seu lindo pescocinho... se nesta hora, a infeliz começar a gritar, espernear... fraquejar, ou chegar a desmaiar nos braços do pai, ou sei lá mais o quê, nunca se sabe, enfim, o que suceder neste espaço entre o pórtico da igreja, até à subida ao púlpito, será a prova robusta e cabal da qual estarei precisando para acabar com a farsa.
— Que farsa, Cincinato? Viviane Quebra Coração é uma boa moça. Além de extremamente temente à Deus, literalmente educada, prendada, os cambaus...
— Cristovão Sola Furada, se ela mostrar um tantinho assim de medo, que seja, ou fugir em desabalada carreira, ao se deparar com a figura ceifadora de vidas, bem ali, na sua fuça, eu terei a plena convicção de que a desgranhenta já se deitou com outros homens antes de mim...

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 8-6-2021

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