sexta-feira, 25 de junho de 2021

Por que as grandes empresas se renderam às pautas progressistas

Murilo Basso

No início de 2021, o mundo foi surpreendido por uma atitude até então inédita tomada por empresas de tecnologia: o chefe de Estado de uma das mais importantes nações do mundo foi banido das principais redes sociais — Facebook, Twitter e Instagram. Já plataformas como App Store, PlayStore e Amazon Web Services removeram o mensageiro utilizado por seus apoiadores – no caso, o Parler.


O episódio envolvendo Donald Trump, presidente dos Estados Unidos à época, foi só a ponta do iceberg de um movimento que tem se infiltrado cada vez mais no meio empresarial, chamado de woke capitalism (algo como “capitalismo militante”). Há pelo menos um século que se vê no Ocidente, em especial nos Estados Unidos, um engajamento para deslocar a cultura para a esquerda, diz o escritor Stephen R. Soukup. Só mais recentemente, contudo, corporações e empresários também foram capturados por esse fenômeno.

Soukup é autor do livro “The Dictatorship of Woke Capital: How Political Correctness Captured Big Business” (“A Ditadura do Woke Capital: Como o Politicamente Correto Se Apropriou das Grandes Corporações”, em tradução livre), ainda sem edição no Brasil. Na publicação, Soukup busca demonstrar como nas últimas décadas a esquerda e suas pautas têm marchado rumo àquela que parecia ser a última instituição não progressista remanescente: os grandes negócios norte-americanos.

“Essas corporações fazem parte de um movimento que vem ocorrendo no Ocidente e neste país [EUA] em particular nos últimos 100 anos, aproximadamente, para mover a cultura de forma muito consistente e agressiva para a esquerda, a fim de preparar, mais ou menos, o caminho para a revolução. Só que os empresários que se envolveram nisso se esqueceram de que o objetivo final é a revolução. Mesmo assim, engajaram-se fortemente nesse movimento cultural de esquerda”, afirma o escritor.

O woke capitalism se trata de um movimento de cima para baixo, antidemocrático e que parte de alguns dos maiores e mais importantes nomes dos negócios norte-americanos para mudar a forma como o mercado funciona, alterar a própria definição de “capitalismo” e modificar a relação entre cidadãos e Estado de forma permanente.

“Muitos executivos do alto escalão sentem que têm pouca escolha. Eles estão sendo pressionados pelos consumidores e cada vez mais por funcionários jovens e progressistas para que as empresas falem publicamente sobre questões que estão nos holofotes. E na era das mídias sociais, permanecer caladas pode trazer mais problemas para as companhias do que se posicionar”, escrevem os jornalistas Ben Casselman e Jim Tankersley, do New York Times, em artigo sobre o tema.

A ditadura ESG

Stephen R. Soukup cita como exemplo a onda do ESG, sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa, que ele julga ser a tendência de investimentos mais “quente” do mundo na atualidade, ao menos no Ocidente, e se trata da sucessora do que antes se chamava de investimento socialmente responsável.

Antes, qualquer um que estivesse preocupado em alinhar investimentos a valores pessoais poderia fazê-lo, pois bastava conversar com consultores ou examinar, por iniciativa própria, as ações disponíveis para compra. Segundo o autor, “era um processo totalmente voluntário, totalmente bipartidário e não abertamente político”.

Na última década, entretanto, o ESG tomou, de forma agressiva, o lugar do movimento original de investimentos socialmente responsável não para filtrar, simplesmente, as empresas em portfólios de ativos, mas alterar as companhias, seus conselhos de administração, sua gestão e estatutos, forçando essas organizações a adotar e cumprir determinadas convicções políticas. 

“O ESG, portanto, se tornou uma força motriz muito perniciosa nos negócios americanos, que está levando as empresas a adotar valores políticos em detrimento dos valores tradicionais de negócios”, pontua o escritor.

Agora, uma empresa é considerada mais atrativa para investimentos se possui um planejamento e ações voltados à sustentabilidade e privilegia a diversidade nos seus quadros de gestão, para citar alguns exemplos, do que se dá um retorno constante e seguro aos seus acionistas.

“A ironia, claro, é que esse movimento, o movimento ESG ou o movimento do capitalismo shareholder [das partes interessadas], orgulha-se de ser muito mais receptivo às causas das outras partes interessadas do que dos acionistas e funcionários. Esse movimento, portanto, que orgulhosamente proclama que é muito mais favorável aos colaboradores está, na verdade, punindo funcionários por violarem a ortodoxia política. Este é um exemplo bastante claro da hipocrisia absoluta que estamos testemunhando, particularmente entre algumas das maiores empresas de tecnologia dos EUA”, explica Soukup.

Hipocrisia

A adesão de grandes empresas ao woke capitalism gera situações, para não dizer bizarras, hipócritas. Em “The Dictatorship of Woke Capital: How Political Correctness Captured Big Business”, um exemplo de destaque é o da Apple e seu CEO, Tim Cook, os quais Soukup considera os queridinhos da onda ESG que vem ditando os rumos do mundo dos negócios. Cook, se não for o mais, é um dos CEOs que mais se posiciona quando o assunto são temas ambientais ou relacionados à pauta da justiça social.

“Nenhuma questão de justiça social ocorre neste país [EUA] sem que Tim Cook sinta que precisa se envolver, escrever um artigo, fazer uma declaração ou usar parte do dinheiro da empresa [Apple] para tentar chamar atenção para o problema”, comenta o escritor.

Ao mesmo tempo, nos últimos 20 anos, a Apple tem investido pesadamente na República Popular da China, cujo desrespeito às liberdades individuais, aos direitos humanos, é notório. Pequim considera, inclusive, Cook um aliado. A Apple, por outro lado, precisa da China para a sobrevivência dos seus negócios — ao menos nos moldes atuais.

Em outubro de 2019, por exemplo, um dia após sofrer duras críticas da imprensa estatal chinesa, a empresa removeu da App Store um aplicativo que manifestantes em Hong Kong usavam para rastrear a polícia, que reagia com truculência a protestos que ocorriam na ilha na época.

“Deixar no ar um software venenoso é uma traição aos sentimentos do povo chinês”, pontuou  artigo publicado no People’s Daily, principal jornal do Partido Comunista Chinês. Depois disso, o app sumiu da loja da Apple. Para justificar a atitude, a companhia alegou que os manifestantes estavam usando o app para atacar as forças policiais, o que seria contrário tanto a políticas da empresa quanto à legislação local.

“É importante notar (...) como a disposição de Tim Cook em bancar o guerreiro da justiça social quando o alvo são alguns restaurantes aleatórios de Indiana que podem não querer autorizar festas hipotéticas em celebração a casamentos homoafetivos não se estende a reconsiderar o relacionamento da Apple com muitos países ao redor do mundo onde os direitos humanos são mais ameaçados do que no Meio-Oeste norte-americano”, escreveu o analista político Ross Douthat.

A Disney, que tem adotado pautas cada vez mais progressistas e aplicado exaustivos treinamentos sobre “racismo sistêmico”, “privilégio branco” e “fragilidade branca” aos funcionários e criado “grupos de afinidade” racialmente segregados na sede da empresa, também é um exemplo. Por outro lado, a produtora não abre mão do mercado chinês, que representa gorda fatia de seus lucros.

Já a The North Face, que produz roupas, calçados, equipamentos e acessórios para atividades ao ar livre, passou por uma situação, no mínimo, desconfortável recentemente. Em dezembro de 2020, o CEO da empresa de petróleo Innovex Downhole Solutions, Adam Anderson, encomendou à The North Face 400 casacos para presentear seus colaboradores no Natal. As peças deveriam ser bordadas com o logotipo da petrolífera, pedido que a marca negou, porque não queria ter seu nome associado ao setor de combustíveis fósseis. 

O que se viu nos meses seguintes foi uma enxurrada de críticas irônicas à The North Face, vez que materiais comumente usados na fabricação de roupas, como poliéster, poliuretano e náilon, vêm de combustíveis fósseis. O CEO da Liberty Oilfield Services, companhia de petróleo localizada em Denver, no Colorado, chegou a lançar uma campanha batizada de “Thank you, North Face”, que inclui conteúdo na Internet e até outdoors, para expor as incongruências da companhia ao se posicionar contra o setor.

Há saída?

Para Soukup, a saída para os consumidores conservadores não é boicotar as empresas que se renderam ao woke capitalism, mas procurar envolver-se com elas. Isso porque se chegou à situação atual porque os progressistas começaram a pressionar as empresas há dez, 15, 20 anos para que elas se engajassem nesse movimento.

“O que precisamos fazer é manobrar a engenharia reversa disso e nos tornarmos estridentes. Se nos separarmos, se boicotarmos, se abandonarmos o barco, os progressistas o tomarão sem qualquer oposição. Acredito que seja um erro sair de cena, o melhor é nos envolvermos. E você pode presumir, como eu, que os Serviços de Atendimento ao Cliente [SACs] odeiam receber reclamações de consumidores irados e que os departamentos de relações com investidores detestam receber reclamações de acionistas indignados. Se você for um acionista, essa atitude pode ser ainda mais eficaz”, acredita o escritor.

O que Soukup gostaria é de ver as companhias retornarem à sua função principal e atuarem, efetivamente, como empresas. Para ele, porém, hoje estamos diante de organizações que atuam como verdadeiros braços políticos a favor de ideologias progressistas.

Título e Texto: Murilo Basso, Gazeta do Povo, 21-6-2021, 19h51

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