sexta-feira, 4 de junho de 2021

[Aparecido rasga o verbo] O dia em que a minha tristeza precisou de um choro convulso para aliviar a intensidade do desgosto de você estar indo embora daqui

Aparecido Raimundo de Souza 

AINDA NÃO CAIU A FICHA. É sério! Não estou acreditando (apesar de ver você saindo de mala e cuia e entrando no carro), que está, realmente, indo embora. De vez, para sempre. Sem volta. Desde agora, sei que ficará por aqui um buraco imenso, uma saudade desgastante, atrelada a momentos inesquecíveis que vivemos juntos. Não foi uma vida normal de um casal exemplar, é bem verdade, mas, pense comigo: entre tapas e beijos, pontapés e arranhões, discussões e pedidos de desculpas, íamos seguindo. 

Neste tom, aos trancos e barrancos, por mais que você tente negar, amanhã ou depois (ou arriscar a se convencer que não aconteceram), no fundo, bem lá dentro do seu âmago você e seus pedacinhos que restaram inteiros saberão que tivemos momentos marcantes. Instantes de altos e baixos que ficarão para sempre, num lugar secreto da nossa memória. Por aqui fecharei todas as portas e janelas. Tentarei reter o melhor de você nas minhas mãos em conchas e, depois esconder o que ficou de tudo dentro do meu ‘eu’ em frangalhos. 

Pretendo, ainda que as lembranças de nós dois não fiquem só trancafiadas num lugarzinho especial dentro de mim. Almejo, de peito aberto, que o que me restar de você (a partir de agora), não se esvaia como nuvens fugidias no firmamento que, desde este instante (apesar do dia bonito) se faz escuro e perverso acima da minha cabeça. Percebo, enquanto nos despedimos, palavras intrusas fustigando meus tímpanos. O seu adeus feriu. O seu ‘nunca mais’ maltratou, machucou. Jamais imaginei que seria assim, tão doloroso e catastrófico. 

Como se uma fada amiga quisesse deixar marcado na minha consciência, os nossos melhores segredos resguardados de uma dor que aos poucos se fará grandessíssima demais, tentarei seguir em frente. Vou me lembrar por esquinas à fora, das nossas correrias ao supermercado, do segurança que alegremente nos vinha cumprimentar... das nossas idas ao banco onde você recebia seu dinheirinho, do Bradesco nojento e da máquina que recusava as minhas notas... Acredite, manterei viva e pulsante as nossas caminhadas, quando eu ia embora (tardão da noite) e você me levava até a portaria do meu prédio com o ‘gato’ à tira colo. E na despedida me segredava: ‘Me liga pra dizer que chegou bem...’. 

Não vou me esquecer dos seus assovios, dos seus telefonemas, das suas mensagens no Zap, das nossas conversas no silêncio das noites. Vão ficar para sempre, tenha certeza, a chama viva das nossas noites no barzinho da Verônica e da Micaela, a mesa na calçada, os churrasquinhos de ‘boi gordo’ e as Petras que você tomava e, eu, de cara amarrada, insistindo que você não bebesse e ficasse só nos copos de refrigerantes. Quando você bebia, você simplesmente ficava à deriva, como uma barquinha perdida em um mar proceloso cheia de ondas temerosas. 

Vou me lembrar, igualmente, das fumaças dos seus cigarros, do seu rostinho triste, dos seus trejeitos com a boca (pela presença dos anos), manterei em ascendência as suas intenções de carinhos que me dava, como mesmo sentido, guardarei, a sete chaves, as tentativas frustradas das ‘pegadas de mãos’ que evitei, quando saíamos à rua, das mentiras que lhe contei e, sobretudo, me lembrarei das idas que você se dispunha a fazer, para me acompanhar até o ponto de ônibus. 

De alguma forma tentarei retomar o fio da meada colorindo a minha caminhada vindoura entrelaçando a sua ausência em pontos e nós para que não se desatem. Quero guardar você bem guardadinha, numa caixinha de sonhos, não permitindo que coisa alguma surgida de importunações descabidas do passado intransigente e malvado, libere, aos quatro cantos, os anseios que você sonhou realizar comigo e eu pisoteei não entendendo e, pior, não enxergando que a felicidade plena estava bem aqui ao meu lado e só eu, não consegui vislumbrar. 

Quero me lembrar de você, assim: menina arteira, o vestidinho amarelo, descolorido, bastante usado, cobrindo a sua barriguinha protuberante e suas quimeras perseguindo o futuro como se tivesse os pés descalços em busca de um abrigo que nunca consegui lhe dar de presente. Você me amou, eu sei, de corpo e alma, ao passo que eu, sequer tive a coragem de declarar os meus verdadeiros sentimentos. Que bobo fui. Que tolo sou! Em que espécie de burro me transformei... 

Comigo, por conta deste estrago, ficará o seu coração, ao passo que você, de mim, não levará nada de alegre para quando pensar em nós (se chegar a fazê-lo), acreditar que, se tivesse tentado mais um pouquinho, me dado uma nova chance, me faria, me transformaria no grande amor da sua vida. 

Pelas minhas burrices, pelos meus desapegos, pelas minhas friezas, pelas minhas maneiras tortas de ser, de lhe tratar, de gritar com você por nada, de berrar impropérios, de nunca ter dito ‘EU TE AMO’, de levar você para passear no Convento (seu sonho de consumo), logo você virará água jorrando cristalina despencando leito de rio corrente buscando vias novas, e talvez, nesta caminhada em direção a um novo oceano de ilusões, se depare com aquele amor tantos anos desejado. Por certo, e merecido, um ‘cobertor de orelha’ que lhe fará verdadeiramente feliz. 

Quem sabe, antes de desembocar em outros portos, e de se entregar inteira e sem amarras, em busca de outra paixão, se lembre, ainda que muito vagamente, que eu existi em sua vida, não de uma forma plena, real, transparente... todavia, como um sujeito inconsequente, pedante, vazio, louco varrido, mentiroso, que não soube lhe dar o merecido valor, o respeito, a atenção e a dedicação merecidas. 

Você está realmente indo embora. É fato. É real. Quadro irreversível. Eu ficarei aqui com meus livros, meus textos, meu apê, minhas mentiras, minhas verdades e loucuras, meus quadros, meus personagens inexistentes, meus sonhos bobos, meus fantasmas... minhas herpes, meus vidros de extratos de própolis... eu permanecerei aqui, estático, sentindo a cama vazia, o quarto sem seu cheiro, os nossos caminhos dispersos, as nossas desavenças, os nossos desencontros, os gritos, seu choro. Da sua voz e das tristezas dos seus olhos, a partir de agora, somente restarão lembranças, lembranças. Lembranças... 

Para despistar meus efeitos colaterais, evitarei passar em frente a sua antiga janela, para não despertar dores mais fortes. Na minha idade, careço fugir de emoções que só me trarão consequências irreparáveis. Evitarei, lado outro, percorrer os mesmos caminhos, rever as pessoas que fizeram parte do nosso cotidiano. Nosso dia a dia acaba aqui, a saudade que ficará de você, entretanto, começa agora, no já do ‘Até Nunca Mais’ que falaremos um para o outro. 

A amargura que chegou vinda de longe, deu sinais de que não pretende largar dos meus calcanhares. O seu afastamento, cada vez mais distanciado, berra em meus ouvidos mensagens junto com um vento que, de igual forma, insiste soprar intransigente: ‘NÃO POSSO MAIS FICAR. É DEFINITIVAMENTE O ADEUS QUE ENTRA EM CENA’. Me perdoa pelas mágoas, pelas desilusões, pelas humilhações... meu choro tentará fazer com que 'meu todo interior' se abra em pranto... e sofra a ausência, da dor, da saudade, do isolamento que ficou, que restou... que, enfim, ficou de tudo... de tudo o que deixei que se perdesse nos ralos da minha desditosa e infamante estupidez.

Título, Imagens e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 4-6-2021

Colunas anteriores: 
No fim das contas, não era o que eu queria escrever 
Um breve pulo no passado recente 
Aparências 
Chute no saco 
Direto ao ponto 

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