segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Domitila dos olhos negros

A mais famosa amante de D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, feita por este marquesa de Santos, continua a preencher uma larga fatia do imaginário dos dois lados do Atlântico.
Luís Almeida Martins
Quando, em 1821, D. João VI deixou o Brasil (onde chegara 13 anos antes fugindo à Primeira Invasão Napoleónica) e regressou a Portugal chamado por urgentes assuntos de Estado, deixou no Rio de Janeiro como regente o seu filho D. Pedro, futuro imperador da grande nação sul-americana. Este, também futuro rei de Portugal com o nome de D. Pedro IV, não era apenas um paladino da liberdade dos povos e do liberalismo político. Era também um conquistador impenitente – não de terras aos mouros como o seu remoto antecessor Afonso Henriques, mas de corações femininos.

Retrato de Domitila de Castro Canto e Melo, Marquesa de Santos, óleo sobre tela, de Francisco Pedro do Amaral, Museu Histórico Nacional
Depois de o pai ter partido, Pedro, então com 22 anos, conheceu em São Paulo a mulher de um militar que detestava o marido e ansiava por ver-se livre dele e dos maus tratos que parece que lhe infligia. Chamava-se Domitila de Castro Canto e Melo, tinha os olhos negros e a pele aveludada e era uns dez meses mais velha do que ele. Domitila intercedeu junto do regente para que seu almejado divórcio fosse acelerado e D. Pedro mexeu de facto os cordelinhos nesse sentido. Tiveram a primeira noite de amor, a segunda e a terceira, e, quando o regente regressou ao Rio, levava já consigo Domitila, um feto no ventre desta e toda a sua família – pai, irmãos, cunhados, gente tão ambiciosa como a beldade de pele morena.

O Brasil tornou-se entretanto independente e D. Pedro proclamou-se imperador. Na corte, a desditosa imperatriz Leopoldina, austríaca de nascimento, entregava-se cada vez mais à bebida para tentar esquecer as infidelidades do marido. Mas este parecia indiferente ao sofrimento da mulher, chegando a nomear a amante sua aia. D. Pedro conferiu a Domitila de Castro o título de marquesa de Santos e encheu-a de joias e de outras prendas suntuosas. Instalou-a num palácio em frente do seu e quando não estavam juntos observava-a por um óculo, exigindo que ela vestisse as peças de lingerie que ele decidia. A linguagem das cartas que trocavam era tórrida.

Solar da Marquesa dos Santos, atualmente Museu do Primeiro Reinado, São Cristóvão, Rio de Janeiro
Esta história de amor com todos os ingredientes para ser perfeita terminaria bruscamente em 1829, quando o imperador, já viúvo de Leopoldina, começou a preparar o segundo casamento com uma mulher de sangue real. As cortes europeias, porém, viam com horror os moldes do relacionamento com Leopoldina daquele imperador “bárbaro” de um país novo de um continente “selvagem”. Diz-se que Domitila disparou contra a própria irmã ao ter tido conhecimento de um caso entre esta e D. Pedro. O certo é que tudo terminou entre gritos e recriminações, como a maioria dos sonhos cor de rosa.

D. Pedro reconheceu a filha que teve com Domitila, Isabel Maria de Alcântara Brasileira, e exigiu que fosse educada na companhia dos seus descendentes legítimos, nomeadamente Pedro e Maria da Glória, futuros imperador do Brasil (D. Pedro II) e rainha de Portugal (D. Maria II).
Título e Texto: Luís Almeida Martins, in “365 DIAS com histórias da HISTÓRIA de PORTUGAL”, páginas 412/413.
Digitação: JP

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