sábado, 20 de maio de 2017

O americano intranquilo

João Pereira Coutinho

Aterrei nos Estados Unidos, pela primeira vez, há uns anos. Fiquei pasmado com fato inesperado: a simpatia dos americanos. À época, ainda não tinha lido Tocqueville e não podia concordar com o sábio francês que, já em 1831, notara como uma sociedade civil forte promovia virtudes sociais fortes. Afabilidade. Simpatia. Cortesia. Eu chegava da Europa. E, na Europa, acreditem, ninguém é simpático com ninguém. Deve ser o velho rapport feudal que impede qualquer empregado de café ser prestável para qualquer cliente de café. ‘Servir’ é verbo indigno. ‘Agredir’, não. Na Europa, e sobretudo em Paris, o leitor senta-se numa tasca e é tratado ao pontapé. É o velho charme europeu, que os americanos não partilham.

Em Chicago, havia sempre um sorriso e um cumprimento matinal. E a pergunta, obviamente retórica, de saber se a vida rolava, Confesso: tanta alegria, às vezes, deprime. E o excesso de energia cansa. Mas, quando se aterra nos Estados Unidos, a primeira coisa que se enterra é o clichê do americano arrogante.

Infelizmente, o mundo não concorda. Sobretudo o mundo que nunca foi aos Estados Unidos, mas gosta sempre de dissertar sobre as qualidades dos indígenas. Aliás, não apenas o mundo: o próprio governo americano está seriamente preocupado com a imagem dos seus cidadãos no estrangeiro e resolveu editar um pequeno livro com dezesseis conselhos essenciais para civilizar os selvagens. O americano pede o passaporte e recebe o sermão grátis para não horrorizar o europeu.


De acordo com Washington, o americano no estrangeiro deve: falar baixo; ouvir muito; não ‘moralizar’ em excesso; mostrar interesse pela cultura local; andar devagar, comer devagar e, presumo, pensar devagar; não discutir religião; não discutir política; não discutir desporto; não discutir e ponto; não usar bermudas; não usar boné de basebol; aprender o dialeto local. No fundo, fazer uma lobotomia prévia e cruzar o Atlântico na condição de débil mental.

Não me oponho a este circo. Mas, no meu estatuto de europeu ‘refinado’, talvez não seja má ideia avisar: a imagem que a Europa tem dos americanos não é real. É política. E não se altera com livro de boas maneiras para ler no avião.

Começa por ser uma imagem política no sentido mais lato e histórico do termo: desde a fundação dos Estados Unidos que a Europa insiste e persiste em alimentar uma sobranceria patética em relação à antiga colônia. O Novo Mundo, aos olhos do Velho, era um espaço de degenerescência física e moral, sem os múltiplos refinamentos de um concerto em Salzburgo ou de um salão em Paris. Nietzsche e seus seguidores gostavam de repetir a tese: o gosto americano pelo mais reles materialismo era repulsivo aos olhos do europeu cultivado. A Europa produzia cultura; os americanos, coitados, tinham a mentalidade própria dos filistinos: adoradores do metal e escravos dele, incapazes de apreciar a beleza intangível da vida intelectual. Curiosamente, Nietzsche não sobreviveu para assistir aos prodígios que a ‘vida intelectual’ acabaria por oferecer à Europa no século XX.

Mas a imagem é também política no sentido mais estrito e imediato: talvez Washington não goste da palavra. Mas ser um ‘império’ não é uma questão de gramática. É uma questão de poder militar, econômico e cultural. O ‘espírito do tempo’, para usar a linguagem de outro alemão célebre, mora do outro lado do oceano. E, enquanto o ‘espírito’ estiver em Washington, e não em Bruxelas, os americanos serão sempre arrogantes, ou vulgares, ou rudes, ou incultos, ou antipáticos, ou imorais, ou monstruosos. É o velho síndroma do caseiro invejoso que namora as pratas do senhor enquanto o insulta pelas costas.

Que a Europa acredite nas suas fantasias, eis um fato que não incomoda uma única pessoa lúcida. Mas que o próprio governo americano esteja disposto a marchar na paranoia, eis a confirmação de que a loucura é leve e voa depressa como o vento.
Título e Texto: João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 19-4-2006, in ‘Avenida Paulista’, Edições Quasi, maio de 2008, páginas 117, 118 e 119.
Digitação: JP

Um comentário:

  1. A Madonna anda por Lisboa... parece que vai matricular um dos filhos no Lycée Français Charles Lepierre ;)

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