segunda-feira, 29 de maio de 2017

Poema ao rio amado

Carlos Lira

Vamos, prossigamos a vida vivendo,
Não chores o teu passado revendo,
não chores...

A infância está perdida nas brumas da memória,
virou história, lágrima inglória esta tua de agora,
em boa hora te digo: tua mocidade perdida está,
mas a vida viva está, rediviva não se perdeu.

Tudo é passado: o primeiro amor amado,
o segundo amor sonhado,
o terceiro desejado...

Só não passou o rio da minha infância,
da minha querência, do meu porvir...
Ipojuca é seu nome, codinome pântano,
Quando de tempos em tempos fica secado,
Esquecido, nem lembrado pela gente a seu redor...


Ibupiara não perdoa, se revolta, se contorce,
maldizente abre as comportas e de muita água o rio banha,
verdadeira façanha de um deus revoltado...

Iraci resiste toda aquela trama, em alta proclama,
em voz firme aplaina aquele ódio de um deus vingativo,
muita água, muito medo, ribeirinho retirante,
se ficar morre, se correr tudo  perde,
até o Ipê não mais floresce neste tempo de perdição,
Iúna nem mais resiste, perde a força e Iriri nem aparece,
Ipojuca, rio da contradição...


Quando Iraci voeja e Irecê ostenta peixinhos e piabas,
a calma se assenta, o deus oferece fartura,
frutos, flora, flores, verdura, o milharal floresce...
Ipojuca, o rio de minha lembrança,
vida que segue, meu coração continua,
saudade perpetua o rio do meu viver...

Em muitas partes da vida sofremos perdas:
melhor amigo morreu, nenhuma viagem aconteceu,
nada de casa, terra, dinheiro e nem companheiro.

Algumas palavras duras escutaste,
dores que não cicatrizam, injustiça insolúvel.

A sombra de um mundo cruel, tentaste um protesto,
e muitos outros virão...

Tudo somado, consumado num desvario insano,
do Ipojuca a lembrança, precipitar-se de vez, nas águas revoltas,
nu na areia ou na lama, na chuva, no vento,
em pensamento, junto ao rio consigo estar...

Descansa em santa paz meu Ipojuca amado...
São José teu sono vela...

Carlos Lira, 29-5-2017

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