domingo, 16 de julho de 2017

Armando Pereira é bom demais para o país que o viu nascer

Mário Amorim Lopes


Escreve o Público que Armando Pereira [foto], «produtor de cabos de fibra óptica», não sossega o Governo, pois «parece não ter o perfil para dirigir uma empresa como a Altice». Armando Pereira é de facto insólito. Ao contrário de outras sumidades, Armando Pereira foi para um qualquer bairro de lata em França aos 14 anos, e aos 11 já era feirante — e não consta que o fosse por carolice.

Não foi para um luxuoso apartamento em Paris pago por um amigo, frequentar um mestrado na Sorbonne, com uma dissertação escrita por um obscuro professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Não, foi mesmo trabalhar, imagine-se o despautério. Entretanto percebeu que havia ali uma oportunidade, numa época em que a rede por cabo estava em expansão.

Sem o élan de um verdadeiro gestor, daqueles que ganham prémios internacionais e depois levam à falência a respectiva empresa, pede uns oitenta mil euros a um banco para constituir a sua empresa. Registe-se a saloiice do mendicante, que ao invés de pedir cem mil euros à Caixa Geral de Depósitos para comprar um Mercedes Classe S, pede-os para fazer efetivamente algo. Fá-lo, e, inusitadamente, chega mesmo a pagar o empréstimo de volta. Constrói um império — sem subsídios, sem o préstimo do Estado, sem favores de políticos.

Conclui-se, portanto, que Armando Pereira é um péssimo gestor, pelo menos quando medido pela bitola dos cânones portugueses que regem a boa gestão e a negociata dos indígenas. Compreende-se, assim, que o pobretanas feito milionário, que não janta no Tavares (quando o quiser fazer, Armando Pereira compra o Tavares), não frequenta a Rua do Grémio Lusitano, não vai caçar ao Alentejo ou recebe prêmios de gestão, seja alvo da ira dos pelintras depenados que pululam por Lisboa e brunem os Oxford dos grandes empresários portugueses, dos que sabem negociar com políticos de igual estirpe.

Estes, cujo maior feito de gestão terá sido ir à Staples comprar arquivos para o seu gabinete, arrogam-se do direito de criticar as competências de gestão de terceiros. Os mesmos que compactuaram com Zeinal Bava, Ricardo Salgado, entre outros portentos da gestão, glorificados vezes a fio pelo jornalismo indígena, são quem apontam as alabardas a Armando Pereira. Bem vistas as coisas, Armando Pereira não merece mesmo este país. Azar o dele que nele nasceu.
Título, Imagem e Texto: Mário Amorim Lopes, O Insurgente, 15-7-2017

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Um comentário:

  1. «Marcelo recebeu Altice, Prisa, Media Capital e grupo Impresa»
    Só numa cultura política terceiro-mundista, a venda/aquisição de um canal de televisão é assunto a ser tratado pelo Presidente da República como se de assunto de Estado fosse.
    Gabriel Silva, Blasfémias

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