segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A primeira e a última vez que escrevo sobre a Catalunha

Alberto Gonçalves

O problema – se a palavra não é excessiva – é que os argumentos da independência são ridículos, dado pressuporem uma pureza étnica, uma vontade geral e uma tirania de Madrid que só alucinados detectam

Segundo a lenda familiar, estreei-me em Espanha com quinze dias de idade. Desde então, voltei lá com tanta frequência que nem reparo quando isso acontece. Por facilidade geográfica, vou a Espanha dezenas de vezes por ano, jantar, encher o depósito do carro, comprar calças, assistir a um concerto, cumprir a escala de um voo, etc. A “minha” Espanha é sobretudo Castela, com raras incursões pela Galiza e Estremadura e raríssimos desvios pelo País Basco, Andaluzia e Canárias. Acresce que a “minha” Espanha tem limites. Ou um limite: a Catalunha. É do conhecimento de sete leitores desta coluna que nunca visitei a Catalunha e, principalmente, nunca me ocorreu visitar a Catalunha. Porque fica à desamão. Porque não aprecio os gatafunhos do Miró. Porque, ao invés de quase toda a gente, em viagem sou um turista e não desejo receber o tratamento que os catalães dedicam aos turistas. Porque tendo a antipatizar com o tipo de indivíduos que se entusiasmam com as “ramblas” de Barcelona ou lá o que é. Porque os indígenas falam um dialeto similar ao do dr. Costa. Porque me apetece torturar barbaramente os jornalistas que, a fim de exibir familiaridade “local”, repetem “mossos de esquadra” frase sim, frase não. Porque não.

Sucede que, nas últimas semanas, o destino resolveu pôr à prova o meu desinteresse pela Catalunha. Era como se a enxurrada de notícias sobre a região pretendesse exclusivamente atrair-me para a dita. Nas entrelinhas das incontáveis “reportagens” e “análises” a propósito, o universo parecia sussurrar-me: “Vês o quanto a Catalunha é fascinante?” Se apostou que eu corrigiria a atitude, o universo perdeu. No máximo, conseguiu fazer com que a Catalunha descesse uns degraus no meu “ranking” privativo de paragens a evitar, situando-se hoje entre Islamabad, as colónias de leprosos na Índia e Oliveira do Hospital durante o acampamento do BE.

O problema não é a questão da independência, já que para mim a Catalunha poderia decretar a secessão face à península, ao continente e ao próprio planeta. O problema – se a palavra não é excessiva – é que os argumentos da independência são ridículos, dado pressuporem uma pureza “étnica”, uma vontade geral e uma tirania de Madrid que só alucinados detectam. O problema é que as consequências da independência seriam uma calamidade, quer ao abrir escusadíssimas feridas, quer ao afugentar do território a exata riqueza que os heroicos catalães recusam partilhar. O problema é que o cabeça (ou o penteado) da independência é material de anedotas, um valente que ao primeiro percalço se retira estrategicamente para dirigir a resistência a partir de Bruxelas. O problema é que os partidos que apoiam a independência são abrigo de evidentes demagogos, que se promovem à custa da crendice dos simples. O problema é que as criaturas que por cá defendem a independência constituem uma amostra representativa da demência humana, campeões da autodeterminação dos povos contanto que os povos se determinem de acordo com os apetites deles. Além disso, a História lembra que as emancipações perante Espanha costumam correr impecavelmente: para meninos mimados a fingir maioridade, chegou-nos, e sobrou-nos, D. Afonso. Em seguida foi sempre a descer até chegar aos penosos dias presentes, cujo expoente talvez sejam as homilias do franciscano Louçã na televisão, nos jornais, na rádio e na cassete pirata.

Contas feitas, a conversa da independência da Catalunha serve de uma única coisa: exemplo. Veja-se o meu. Enquanto cidadão português, sinto-me vítima de:
a) opressão (o fisco confisca-me boa parte dos rendimentos para financiar delírios sortidos);
b) colonialismo (sou forçado a renunciar a remotas tradições, leia-se não sustentar parasitas, em prol de hábitos esquisitos, importados de Moscovo, do Largo do Rato ou do Chapitô);
c) discriminação (as forças ocupantes privilegiam colaboracionistas na hora de repartir o saque) e 
d) etc.

É hora de dizer basta (está dito). É também hora de me declarar independente de Portugal, ou pelo menos da parcela de Portugal que apanha com as Irmãs Mortágua em cima e, em lugar de mudar apavorada de canal, comenta: “O pensamento destas raparigas denota considerável razoabilidade…”. À semelhança do circo catalão, este é um exercício unilateral. Mas, ao contrário dos “mossos”, os de esquadra e os que deviam dormir nela, eu sozinho sou uma população culturalmente coesa, parlamentarmente unânime, socialmente pacífica, racialmente harmoniosa, religiosamente pura, ideologicamente digna e, salvo violência extrema, estruturalmente indivisível. A propósito de autodeterminação dos povos, tudo em mim se encontra bastante determinado a viver à revelia do jugo lusitano, incluindo, ou especialmente, dos respectivos políticos, legisladores, senadores, aduladores, impostores e arredores. De brinde, fiquem (por favor) com o hino e a bandeira: em cinco minutos arranjo melhor.

Caso, conforme é previsível, os defensores de certas independências não se conformem com a minha, sigo para o exílio. Depois, se me apetecer discursar às massas, revelo o endereço. Mas, enfim livre ou ainda reprimido, há um sítio onde escusam de procurar. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 4-11-2017

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