quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Pobres meninos ricos

Ana Paula Henkel

Esta semana, aqui nos EUA, o Partido Republicano anunciou o plano para uma reforma tributária profunda com significativas reduções de impostos para alguns setores. A ideia é estimular o crescimento econômico deixando mais dinheiro na mão da sociedade. Um grupo de quatrocentos milionários ligados ao Partido Democrata (não confundir com a própria imprensa) reagiu dizendo que eles não querem deduções tributárias. Sim, você leu direito: ricos que querem pagar mais impostos. Humm. Como não querer apertar as bochechas de quem está comprando a ideia de que algumas das maiores fortunas americanas querem mais impostos para elas próprias? Vendo as matérias na TV, confesso que fico com uma ponta de inveja de tanta inocência engajada.

Algumas raposas felpudas do jornalismo caíram, meio “sem querer, querendo”, na fábula do rico com consciência social, do banqueiro com coração, do bilionário altruísta que está cansado de tanto dinheiro e agora quer que os companheiros do governo intervenham ainda mais na economia e confisquem o que eles ganharam em tempos de liberdade. Sei.

Essa gente que ficou estupidamente rica na iniciativa privada agora quer a estatização da solidariedade? O PSOL nasce para todos, até em terras ianques. Para alguns correspondentes que vivem na bolha democrata por aqui, a Síndrome de Estocolmo venceu a ganância e um outro mundo é possível. O velho discurso marxista de botequim ganhou os palácios da elite branca, culpada e cansada de guerra. Que homens!

A verdade inconveniente é que, não contem para os valorosos militantes do jornalismo engajado, o milagre do capitalismo está na geração de riqueza. A visão jacobina de que a emancipação da classe trabalhadora e do povo virá da pilhagem do dinheiro dos ricos é um dos mitos mais antigos que existe, mas que, até hoje, só enriqueceu burocratas do governo, intelectuais e, curiosamente, bilionários com coração. Quando a geração de riqueza desacelera, a mobilidade social também pisa no freio e os ricos continuam ricos, assim como pobres continuam pobres. Não precisa ser economista para saber isso.

A riqueza criada do país que adotei foi fruto direto do trabalho de empreendedores incomparáveis durante a segunda metade do séc. XIX e a primeira do séc. XX.  A terra dos livres e lar dos bravos deu certo, e o mundo sabe disso, muito pelo grande estímulo ao empreendedorismo. Os números da imigração não mentem, inclusive de intelectuais que ficam por aqui fazendo biquinho para o país enquanto choram pelos 100 anos da revolução russa (que vergonha alheia, Deus pai).

Se os inimigos da América antigamente usavam martelo e foice, hoje aparecem de terno e gravata em salões refrigerados pedindo a importação de regimes que nunca funcionaram em qualquer lugar, especialmente se comparados aos resultados incomparáveis daqui. Não faz sentido, mas ideólogos e revolucionários de butique não precisam fazer sentido, uma bobagem burguesa.

O Partido Republicano quer agora repetir Reagan, outro direitista (tirem as crianças da sala!) que aposta no, perdoem o palavrão, liberalismo. O caubói de filmes B, tão ridicularizado pela imprensa engajada na época quanto o presidente atual, pegou um país com inflação de dois dígitos, recessão, desemprego e cabisbaixo. Depois de oito anos de gestão, iniciados em 1981 com um discurso histórico que disse “governo não é a solução, o governo é o problema”, Reagan mostrou ao mundo que com menos impostos temos mais investimentos, mais empregos, mais inovação e mais riqueza para todos, iniciando um período de 25 anos ininterruptos de crescimento e desenvolvimento. Nada mal para um caubói de filme B, o que ainda irrita intelectuais e jornalistas engajados e com consciência social.

Um pouco de racionalidade e honestidade intelectual no debate reconheceria que riqueza na mão da sociedade, como a história americana prova, é sempre preferível à pilhagem governamental. Quando um bilionário, que entende mais de dinheiro que nós todos juntos, quer o governo com poderes de saquear parte do patrimônio da sociedade coercitivamente, desconfie. Ninguém, até a última vez que eu chequei, está impedido de dar voluntariamente parte ou todo seu dinheiro para a filantropia ou para o próprio governo.

Os milionários travestidos de bastiões da bondade que apoiam o Partido Democrata demandam que o Partido Republicano não passe a reforma tributária alegando uma falsa bondade dos ricos a favor dos pobres. Não sou economista, mas não é tão difícil entender que uma economia engessada e regulada, que estrangula a classe média, os empreendedores, a pequena e média empresa, que tira os recursos dos investidores e criadores de empregos enquanto joga migalhas para o povo, é o sonho de qualquer senhor feudal desde sempre.

A oposição democrata ao pacote é puramente ideológica, já que cortar impostos de investidores e empreendedores é o combustível do crescimento e da livre concorrência, algo que dá calafrios e pesadelos em bilionários com consciência social. A nobreza, desde o feudalismo, prefere a economia controlada pela coroa para que nenhum servo ouse se tornar o próximo duque, garantindo as capitanias hereditárias e todo tipo de concessão estatal para que a família continue controlando oligopólios. As esmolas assistencialistas são um preço muito pequeno a pagar perto do lucro gerado pela proteção dos seus mercados. O falso assistencialismo ainda é o melhor e mais rentável balcão de negócios para os justiceiros sociais.

A elite branca do partido de Hillary Clinton quer tantos impostos e regulações quanto possíveis para impedir que o próximo Steve Jobs crie a nova Apple numa garagem. John Kennedy, um democrata que hoje estaria no Tea Party, também cortou impostos radicalmente para anabolizar a economia. Hoje seria chamado de nazista.

Lá em Minas, a gente desconfiaria se alguém dissesse que quer abrir a porta do próprio cofre para o ladrão, mas os tempos são outros. A estatização da caridade nunca deu tão certo (e tanto lucro!) e todo mundo sabe disso, mas nada impede de a mentira ser repetida mil vezes até virar verdade. Dinheiro na mão da sociedade é investimento, mesmo quando depositado no banco, página um de economia básica, essa coisa da extrema-direita. Deus nos salve da caridade do socialismo de butique. 
Título e Texto: Ana Paula Henkel, Estado de S. Paulo, 16-11-2017

Um comentário:

  1. O Los Angeles Times enlouquecido:
    http://www.latimes.com/politics/la-pol-ca-gop-tax-bill-undecided-20171116-htmlstory.html

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