terça-feira, 31 de julho de 2018

[Aparecido rasga o verbo] O impacto que não se vende

Aparecido Raimundo de Souza

MARIA BIZORRA, TODA sexta-feira levava a sua cadelinha Fininha para o pet shop perto de sua casa. De tanto ir e vir, Fininha sabia de cor e salteado o caminho. Se Maria Bizorra deixasse, ela certamente faria o percurso de pouco mais de dois quarteirões de olhos fechados. Do condomínio onde residia à loja, podia se caminhar a pé. Percurso que não se gastava mais que meia hora, ainda que a passos lentos.

Bento Perrota, o porteiro do prédio (antigo no cargo, contava mais de dez anos de serviços prestados), morava sozinho no último andar, numa espécie de quitinete mantida pela zeladoria. Vinha seguido da Silvinha (uma jovem que fazia a faxina dos corredores, recolhendo o lixo dos cinco andares e seus vinte moradores). Silvinha, ao contrario de Bento Perrota, não morava no prédio. Chegava por volta das seis da manhã e saia às cinco.

O cidadão Bento Perrota, por residir no local de ocupação, sabia dos costumes e manias de todos os meeiros. Nesse contexto, tinha na ponta dos sentidos, a hora exata e precisa em que a Maria Bizorra descia para as necessidades fisiológicas do pequeno animalzinho. Nesse tom, quando enquadrava a moça pela câmera do elevador de serviço, corria pressuroso, a abrir a porta para as duas. Havia também um acontecimento invulgar que deixava Bento Perrota alegre e saltitante.

Tanto pela manhã, quando descia com a cachorrinha como nos finais de tarde, ao se dirigir à padaria ou ao supermercado, Maria Bizorra trazia um café reforçado. Em razão disso, o rapaz se desmanchava em mesuras e gentilezas, não só pelo oferecimento dos lanches, como pela beleza estonteante de Maria Bizorra e, num momento mais secreto, um azado que não revelava a ninguém. O carinho imensurável que nutria pela fofa cadelinha e se lhe pendurassem de cabeça para baixo, com fogo nos dedos dos pés, em igual teor, pela dona. Maria Bizorra, incontestavelmente se tornava, a cada dia, um pedaço pecaminoso de mulher.

No edifício havia mais animais de estimação. O doutor Moacir Bilal, ocupante da unidade 301, tinha um gato. O gato pouco aparecia. Como ao dono, se mostrava antipático e metido a rico. Nas raras vezes em que se fazia acompanhado de seu dono, doutor Moacir Bilal não permitia qualquer tipo de aproximação. Cortava o barato de Bento Perrota, quando ele tentava puxar conversa ou endereçar gracinhas ao peludo. O bichano filmava tudo, no final concordava com seu dono. Com a mesma pose que descia, subia de volta, sem dar uma palavra.

O Beto Cabeludo do 503, dividia seu cantinho com um papagaio que atendia pelo nome de Chitão.  Beto Cabeludo descia pela manhã, por volta das dez com o bicho pendurado no ombro. Meio a meio, nem macho nem fêmea. Beto Cabeludo desmunhecava feio quando via o Bento Perrota. O sujeito tinha outra questiúncula. Além de dar em cima de Bento, falava por todos os buracos do corpo com a ave, como se o coitado fosse um ser humano. Chitão, todavia, pouco abria o bico e quando taramelava, repetia incessantemente forçosos “curros pacos papacos...”. Nessas palreadas duplicações, por sinal indigestas enchia a porra do saco como um disco de vinil acometido de um petulante arranhado em sua base. 

Dona Lurdes Beiradinha ocupante do loft 202, sem dúvida alguma, se constituía na arrendadora mais esquisita. Mantinha um rato branco que ela fazia questão de dizer que não era um roedor comum, porém, um legítimo Hamster. Inteligente e vistoso, como o Senhor Jingles do filme “À Espera de Um Milagre”. Um camundongo, segundo ela, em cujas veias fluía o primoroso ‘sangue de um pedigree legítimo’. O bicho atendia pelo nome de Xicó. A velhota saía cedo, antes das sete e voltava às vinte e duas. E o rato ia e voltava com ela, chovesse ou fizesse sol. 

Para destravar a língua, parava na recepção unicamente para perguntar a Bento Perrota se havia chegado correspondências. Dona Lurdes Beiradinha recebia, em média, umas vinte a trinta cartas por dia. Suas detidas no hall do prédio se davam somente para resgatar essas missivas que procediam das capitais mais distantes do país. O engraçado, na história. A setentona nunca deixava de confabular com o rato. O coitadinho, a bem da verdade, parecia estar, de fato, à espera de um milagre.     

Sobrava, pois, a Maria Bizorra que permutava gentilezas o tempo todo, além de ser legal e boa de coração, carinhosa, amiga e companheira. Bento Perrota albergava por ela uma afabilidade especial. No fundo do baú, uma paixão ardente, um chamego recolhido, um amor platônico que não podia jamais ser trazido à tona. Afinal de contas, ela era uma deusa e ele, um pobre porteiro assalariado. Envolto em seu desditoso silêncio, Bento Perrota sofria calado enquanto seu coração se espedaçava em sonhos despropositados e irracionais. “Maria Bizorra, minha cadelinha, minha doce cachorra”.

Adorava ficar tomando conta da Fininha, quando a belezoca descia com a sua dona, por volta das três tiracolando à cadelinha e pedia, com uma vozinha angelical, para ele “dar uma espiadinha”, enquanto ela acorria à padaria (logo na esquina), para a compra dos pães que saiam do forno quentinho e soltando fumaça ou se estendia até o supermercado para a reposição de algumas coisas faltosas em sua dispensa. Bento Perrota sabia que seu lanche, por conta desses pequenos mimos jamais deixaria de chegar às suas mãos.     
                                                  ***    
Belo dia, uma bomba explodiu. E além do buuuuuummmmmm produzido, repercutiu feio na boca de todos os vinte radicados.  Fininha apareceu grávida. Maria Bizorra virou um monstro em figura de gente. “Como? - A cadelinha saía somente com ela!”. Nenhum contato com outros parentescos de sua linhagem! Embrabeceu, alucinou, encolerizou. Aturdida, fora de si tomada pela raiva, pediu opinião e ajuda ao Bento Perrota.

- Senhorita Maria, só pode ser por obra do pessoal do pet shop.

Maria Bizorra estalou os dedos, como se tivesse acertado um “descobri” Arquimediado na mosca:
- Eureka, eureka. Com toda certeza, Bento Perrota! Que burrice, a minha...

De fato, a linda não esperou a coisa esfriar. Partiu a mil por hora a tirar satisfações. Nessa pendenga, brigou com os donos do pet shop, chamou a polícia, registrou BO na delegacia do bairro. Inquérito aberto imediatamente pelo delegado para apurar os fatos, a fuzarca foi em frente. Para completar a sua fúria incontida, recorreu num segundo momento, ao PROCON. Fez queixa. Os proprietários do pet shop foram intimados a responder à lide.

Maria Bizorra, nessa atiração estabanada para todos os lados, queria uma indenização em face da prenhez malquistada da sua virtuosa e recatada Fininha. Sem acordo no pet shop, e no PROCON, ingressou na justiça de pequenas causas. Mês seguinte saiu vencedora ganhando uma boa e polpuda compensação pelo incidente com sua pobre cadelinha.

Outro rebuliço barafundado e sem precedentes, veio à baila logo depois. Maria Bizorra nem havia gasto ainda a grana recebida. Pois bem. No exato momento em que a Fininha deu cria. Seus cinco filhotinhos espantaram a todos. Principalmente os enraizados do prédio. O doutor Moacir Bilal, do 301, falou por todos os poros do corpo. Dona Lurdes Beiradinha, do 202, nem se comenta. O Beto Cabeludo, do 503, taxativou a coisa e aconselhou Maria Bizorra a botar, de novo, a polícia na história. Resumindo a balbúrdia: os pequeninos animaizinhos (sem tirar nem por) nasceram com a cara esculpida e escarrada de Bento Perrota, o porteiro do prédio.    
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Aeroporto de Vitória, no Espírito Santo. 31-7-2018

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