domingo, 25 de abril de 2010

Contos moucos dos loucos (VII)


Não escutara as doze badaladas no carrilhão da sala.
Por isso, comemorou o novo ano quinze minutos depois.

Procurara durante todo o dia.
A noite já ia alta. Não achara.
Resolvera esquecê-la.


Eram três amigos: Rui, Carlos e Nelo. Rui e Carlos eram irmãos, filhos do Sr. Zé alfaiate. Nelo era filho único. Eram vizinhos na Rua José Anchieta, na Vila Clotilde. Era a época da calça "taille basse" (saint-tropez). Levantavam o máximo a cintura atrás e baixavam o máximo na frente. Ficava mais ou menos assim / ou \, dependendo do ângulo de visão. Maria Pilar, uma belíssima jovem de uns 20 anos sempre se referira àquele ajeitamento das calças como ridículo. E era.


Ela ficava impressionada com Jacques de Ponteville, a quem secretamente admirava pela sua integridade, por ter a nobreza e as virtudes que carecia, e não suportava entrever a sua imagem no límpido espelho dos olhos nobres de JP. Não sossegaria enquanto não o visse arder na fogueira.

Desde março
Chovia muito naquela tarde de abril. Desde março que ele se quedava no mesmo banco da praça. (Havia trabalhado durante muitos anos numa empresa que falira e que não pagava, nem repassava, ao instituto de previdência privada ao qual ele aderira. Ela, a caloteira, falira e levara junto o instituto.) Olhava para tudo e todos, nada via. Perdera o pouco que ainda tinha. Não faltaram aves de rapina, de várias envergaduras. Ele fugiu. Logo mais iria escurecer e ele se deitaria ali mesmo. Como fazia desde março.

Há muito tempo que surpreendia olhares de reprovação, até de desdém. Tornara-se um fora-da-lei. Tardou em compreender as razões. Era uma aposentado no Brasil.

Na areia da praia
O homem hesitou um momento e depois sentou-se na areia. Contemplou a placidez das ondas. Ali perto, um casal namorava. Um cão se aproximava. Passou por eles.
- Estaria abandonado?, - pensou.
Chamou-o com uma onomatopéia. O cão seguiu o seu caminho.
Olhou para a lua. O luar convidava à reflexão. E ao namoro. Outro casal se deitara na areia. Ele sentiu a mesma vontade. Mas não tinha mulher, namorada, amante...
Um avião sobrevoava a praia. Foi se afastando. E levou os pensamentos dele.
O que lhe desceu pela face não era uma gota de chuva.

Acordou assustado. Levantou-se ansioso. Olhou para o relógio: 7h 20m. "PQP!..."
Escovou os dentes. Entrou no box. "Vou chegar atrasado!"


Atrasado
Vestiu-se apressadamente. Saíu.
O carro, a álcool, demorou a pegar. Sentia calor.
Trânsito parado. Vans e combis também paradas.
Mais calor. O ar refrigerado do carro não lhe bastava. "PQP!..."
Demorou mais de uma hora a chegar. Eram 9h 15m. Sentou-se na portaria do grande prédio da NSN. A reunião começaria às 14h.

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