quarta-feira, 28 de abril de 2010

Contos moucos dos loucos (VIII)

Ensaio
Chovia lá fora. Sim, lá fora, porque aqui dentro sequer gotejava.
Ele e a sua guitarra berravam She loves you, yé yé yé!...
Eis que falta a luz.
Silenciaram.

O banho
Ainda não era verão. Mas o calor estava insuportável. Despiu-se rapidamente. Entrou no boxe. Queria tomar um demorado banho, refrescante, revigorante...

Abriu a torneira. E eis que desce aquele jato de água, bem misturada, na temperatura ideal, nem quente, nem fria. Deixou-se ficar. Pensava. Pensava em como era possível montar num cavalo selvagem. Era perigoso... só mesmo os "cow-boys"! E ele não era "cow-boy", mas era quase, e isso o consolava: era um requisitado "call-boy"

A lógica
Sentou-se no banco do calçadão, aquele do poeta (ainda mantinha os óculos), e chorou. Chorou as lágrimas de ontem e de hoje.
Era um avião. Então, eles perguntavam-lhe "Aviões também caminham?". E ela não dava ouvidos. Fingia não escutar. Fingia. Fingida. Ah, se soubessem a verdade...

Estava sentado num banco da Praça da República. Olhava para a estátua no centro da praça. Passou um "dimenor" que lhe pediu um trocado... Uma moça de 'vida airada' passou por ele olhando-o fixamente... Ele virou o olhar... Um homem de uns 35 anos sentou-se no mesmo banco... Passou um mendigo que lhe pediu uns trocados... O "dimenor" continuou por perto, agora eram seis "dimenor"... Um segundo homem sentou-se no banco...

Então, o homem que estava sentado num banco da Praça da República levantou-se. E saíu apressadamente da Praça da República. "Ufa!" - exclamou ele quando se sentiu em segurança.
Era um dia de final de semana, sexta-feira, sábado e domingo.
Para ele todos os dias poderiam ser finais, como finais eram todos os dias.
Hoje era um dia de fim-de-semana, sábado. Amanhã, domingo, às 23h 59 acabará o fim-de-semana. E, é claro, será o final da semana.
No dia seguinte, segunda-feira, começará outra semana. Que poderá ser final. Em qualquer dos dias.

Agência Abreu
- Salaam aleikum!
- Aleikum salaam!
- Sou árabe, e você?
- Sou judeu australiano.
- E eu sou árabe muçulmano.
- Xiita?
- Não, sunita. Mas sou austríaco.
- Sou judeu ortodoxo, e este meu amigo é sefardita e a minha amiga é judia messiânica. 
- Prazer!
- Prazer é meu!
- Sim, sou sefardita ocidental, mas 90% dos meus amigos são amish, vivi muitos anos em Shipshewana, no Estado de Indiana, nos EUA... e adoro Salt Lake City!
- Que interessante! Esse melting pot me faz lembrar a minha esposa, brasileira, que conheci numa excursão à Europa da Agência Abreu... Nos falamos pela primeira vez na parada em Fátima...
- Hã?
- Pois é, ela é umbandista, a irmã é espírita, o irmão é da Bola de Neve Church, e os pais, da Igreja Internacional da Graça de Deus, do R.R. Soares...
- Que barato! A minha irmã mora em Beirute, meu irmão mais novo mora em Bagdá, e o mais velho, em Bruxelas, e os meus pais, em Dubai.
- Tenho um tio que viaja pelo mundo. Já foi a Del Castilho, a Lourdes, a Meca e ao Maracanã. Conhece a Agência Abreu?
- Não, nunca excursionei pela Abreu.
- Que pena!

Ansioso...
O telefone tocou. Atendeu. Não era ela. Era ele.

Esquecimento
Estava a dormir quando sonhei. Quando acordei não me lembrei o que sonhei.

O galo
Ele estava olhando para o céu, interrogando-se "será que vai chover?" quando um galo cantou. "Onde está o galo?" procurou descobrir. Nunca soube onde estava o galo. Mesmo assim, foi à "Grande Manifestação Popular Espontânea" pois ouvira dizer que o galo estaria lá...
Estava na fila aguardando o embarque. Brincava no moleskine com o símbolo do euro... € E... C=...
Quando o táxi se aproximou lembrou-se de olhar a carteira. Era o que temia... só tinha moedas! O táxi não aceitaria cartões, cheques, travellers... Pô, e agora?!!
Desanimado saíu da fila. Atravessou a avenida. Foi para a fila. Esperou uns quinze minutos. Pegou o 310, Praça XV - Del Castilho.

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Contos moucos dos loucos (II)
Contos moucos dos loucos

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