sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Agradar ao mesmo tempo à CGTP e ao Financial Times?

Paulo Ferreira
Quanto mais lemos, ouvimos e vemos menos percebemos qual será, afinal, a base da política económica do provável governo do PS apoiado pelo BE e pelo PCP.

A coisa já não estava fácil de entender quando se pegou no programa que os socialistas levaram a eleições e se deitaram fora algumas das suas medidas centrais e se enxertaram outras, por necessidade negocial com os parceiros de “posição conjunta”.

É a vida, dir-se-á. Uma negociação é um jogo de cedências mútuas para se chegar a um entendimento. Certo. Mas é bom nunca perder de vista que o entendimento não é um fim em si mesmo e que, depois de todas essas cedências, o que delas resultar tem que fazer sentido, ser exequível e servir os objectivos, concorde-se com eles ou não.

Mas os últimos dias tornaram tudo ainda mais difícil de entender, com declarações e acções contraditórias.

Um exemplo. O economista de nome Mário Centeno que esta semana falou ao “Financial Times” só pode ser um homónimo do economista Mário Centeno que em Portugal é dado como futuro ministro das Finanças de um governo liderado pelo Partido Socialista que assinou três “posições conjuntas” com outros tantos partidos à sua esquerda.

Ao FT, Mário Centeno disse que “ninguém de bom senso pode pensar em não pagar as dívidas que contraiu”. Mas por cá, o PS assinou uma “posição conjunta” com o Bloco de Esquerda que vai criar, entre vários, um “Grupo de Trabalho para avaliação da sustentabilidade da dívida externa”. Para quê avaliar a sustentabilidade da dívida se o bom senso obriga a que ela seja paga?

Ao FT, Mário Centeno disse que para os socialistas o problema “não é a direcção” da política de redução do défice mas sim a sua “velocidade”. Mas por cá o PS fala em ruptura com a política de direita e apregoa a necessidade de se acabar com a austeridade. Defende, por isso, uma mudança de direcção, senão mesmo uma inversão de marcha na política que chama “de empobrecimento”.

Outro exemplo. Os compromissos assinados pelo PS com os restantes partidos prevêem “a anulação das concessões e privatizações em curso dos transportes públicos de Lisboa e Porto”, entre outras. Está escrito desta forma, sem “ses”. Mas na quarta-feira fontes socialistas já vieram dizer que a anulação de privatizações e concessões só avança se não tiver encargos para o Estado, o que será virtualmente impossível em negócios que já têm contratos assinados e direitos constituídos por parte dos grupos privados envolvidos nessas operações.

São três exemplos daquilo que nos espera mas, sobretudo, da impossibilidade de se fazer uma coisa e o seu contrário e dos riscos de prometer tudo a todos e de escrever os discursos de acordo com o que as plateias querem ouvir.

Há um lado do PS que sabe e sente que a proximidade do partido ao PSD é muito maior do que ao PCP e ao BE. Mas o outro lado teve necessidade de radicalizar o discurso e de alegar fracturas imaginárias para poder justificar perante o eleitorado a impossibilidade de um entendimento à direita para poder fazer a única aliança que lhe daria o poder e que faria do perdedor António Costa primeiro-ministro. E essa era à esquerda.

Há um lado do PS que sabe que as contas têm que estar certas, que o défice tem que ser reduzido e que a austeridade não pode ser desmantelada irresponsavelmente, até porque se recordam bem de como levaram o país à bancarrota. Mas o outro lado, para ser poder, teve que prometer ao PCP e ao BE aquilo que não poderá cumprir. E isso falou mais alto.

Há um lado do PS que está preocupadíssimo com a leitura que, sobretudo lá fora, está a ser feita das mudanças políticas no país e teme que um destes dias os mercados acordem mais mal dispostos, decidam não pagar para ver e não dêem sequer o benefício da dúvida à solução governativa que está a ser construída. Mas o outro lado, para garantir apoio parlamentar que permitam ao governo tomar posse, é tentado a pôr em causa a confiança dos credores.

Há um lado do PS que sabe que não pode afugentar investidores e empresários, reverter unilateralmente negócios feitos pelo Estado há meia dúzia de meses e fazer com que as instituições deixem de ser consideradas “pessoa de bem”. Mas o outro lado prefere satisfazer as clientelas sindicais do PCP nos transportes para conseguir suporte para um governo.

As duas posições são inconciliáveis e não há discurso, por mais habilidoso e criativo que seja, que as possa compatibilizar.

Os discursos são e serão continuamente contraditórios porque a CGTP e a audiência do Financial Times têm visões opostas do mundo e interesses divergentes. Cada um dos lados quer, por isso, que o governo, seja ele qual for, faça coisas radicalmente diferentes.

O PS já percebeu isso e às horas pares assina com o PCP e o BE promessas de estatização crescente da economia e às horas ímpares vai aos mercados fazer o controlo de danos, dizendo que o país continua aberto para fazer negócios, que nada vai mudar e que o peso da despesa pública é para continuar a cair.

É evidente que este equilibrismo não pode durar muito. Quando as medidas importantes forem tomadas alguém vai sentir-se defraudado. Se forem uns, retiram o dinheiro e vão embora. Se forem outros, levam os votos e continuam por cá.
Título e Texto: Paulo Ferreira, Observador, 13-11-2015

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