quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Hillary. Porque sim

Maria João Marques
A maioria das críticas a Hillary ganham tração por ser mulher. Dizem-na, por exemplo, muito apegada ao dinheiro. As fasquias diferentes que colocam aos homens e às mulheres são muito pouco século XXI.

Há oito anos, quando Obama ganhou pela primeira vez as presidenciais americanas, Tara Wall – mulher, negra e republicana (donde, votante em McCain) – disse na cobertura da noite eleitoral na CNN ‘today you can’t be black in America and not be proud of what Barack Obama has achieved’ (estou a citar de memória – que costuma ser fiável).

Eu não fiz parte da corte de enamorados do discurso, tão evidentemente vazio que até doía, ‘esperança e mudança’ de Obama. Gozei com fartura nos blogues com a semelhança dos discursos de Obama e as tiradas do presidente Bartlett na série televisiva West Wing e não me surpreendi por ver que o supostamente pacifista presidente tornar o mundo mais perigoso (sim, o querido ISIS) retirando a correr do Iraque. (Se lá deviam ter ido ou não depois do 11 de setembro é outra questão.) A melhor parte (para mim) da presidência de Obama foi a espécie de redenção de um país com uma história de escravatura, de segregação racial, da luta pelos direitos civis e de racismo tão entranhado ao eleger para seu representante cimeiro um negro.

As eleições de novembro também vão ter a sua novidade. Pela primeira vez poderão eleger para a presidência uma mulher (Hillary Clinton), um judeu (Bernie Sanders) ou um latino (Marco Rubio ou Ted Cruz).

Destes todos prefiro a Hillary e não escondo que o sexo da candidata é o fator decisivo. E não, por favor não me macem com a conversa ‘não se deve votar num candidato por ser mulher’. Ser mulher é um fator da identidade do candidato como qualquer outro – na verdade mais marcante do que muitos outros – pelo que o argumento de não se valorizar o sexo tem tanto sentido como não valorizar se tem um doutoramento ou se nem sequer frequentou a universidade, se foi Secretária de Estado ou se foi presidente da associação de pais, se era advogada na vida antes de Washington ou se escrevia livros de poesia experimental.

Claro que se as posições políticas de Hillary fossem terríveis, à Catarina Martins ou à Pablo Iglesias ou à Marine Le Pen, nem o sexo a salvaria. Depois das defesas absurdas que Manuela Ferreira Leite fez e faz do status quo e da espoliação crescente aos contribuintes, não votaria na senhora nem para a administração do condomínio. Mas Hillary, em boa verdade, deve ser consideravelmente menos socialista e socializante do que o candidato médio do PSD. Nada que provoque achaques à minha alma liberal. Nunca a vi a fazer as defesas tristes do socialismo que Marcelo Rebelo de Sousa fez na sua campanha, e tive muitos amigos de direita (que tremem com a possibilidade Hillary) a convencerem-me a votar no candidato apaixonadamente estatista. (Não votei; votaria só numa segunda volta.)

Se, como disse aqui, foi de uma tremenda importância crescer com Margaret Thatcher como primeira-ministra britânica, e como isso introduziu uma normalidade na participação política feminina que não havia até aí, ter uma mulher como presidente dos Estados Unidos seria, de facto, partir o último telhado de vidro para as mulheres. E isto, meus amigos, é um objetivo político em si mesmo e tem tanto valor como saber quais os planos para conter o ISIS ou se pretende ser mais diplomata ou mais beligerante com a China (desde o apoio às intenções independentistas de Taiwan até às negociações das tarifas do comércio mundial).

Não é nada perfeita, a candidata Clinton. Mas também é tempo de parar com a mania – nada inocente – de exigir perfeição às mulheres políticas, enquanto a mediania satisfaz nos políticos masculinos. A mim, irrita-me que Hillary tenha defendido em tribunal um violador de uma menina de 12 anos. É intragável. Mas que candidato com décadas de vida não tem os seus inconfessáveis na consciência?

Também preferia que Hillary não fosse a herdeira do marido. A minha candidata ideal seria uma republicana moderada com carreira política e profissional que só devesse ao marido a ajuda com a ginástica doméstica e familiar que lhe permitisse o tempo para seguir os seus sonhos e talentos. Uma espécie de Assunção Cristas, mas que tivesse como credenciais efetivamente de direita algo mais do que ser católica.

Em todo o caso os Estados Unidos adoram dinastias. Lembremos os Kennedy todos que se dedicaram à política ou os Bush. E há precedentes honrosos. Toda a gente conhece Catarina, a Grande, da Rússia. Se calhar também conhece o nome do seu amante mais famoso, Potemkin. Mas quem se recorda do nome do marido czar que a transformou de princesa alemã em imperatriz russa? O nome do marido de Maria Teresa de Áustria (cujo sacrifício de Lorena permitiu à sua mulher receber enormes territórios como herança do seu pai), anyone?

Fora isto, a maioria das críticas a Hillary ganham tração por ser mulher. Por estes dias, por exemplo, dizem-na demasiado apegada ao dinheiro. Uma mulher decente, como se sabe, é um ser etéreo que só quer fazer os seus felizes e de modo nenhum tem ambições materiais. (Suspiro.) O que é mais um motivo de apoio a Hillary (sobretudo com a derrota no New Hampshire). As fasquias diferentes que se colocam aos homens e às mulheres são muito pouco século XXI.
Título e Texto: Maria João Marques, Observador, 10-2-2016

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