sábado, 17 de setembro de 2016

A apreensão do que é dito pela linguagem...

Valdemar Habitzreuter
Quando falamos ou escrevemos expomos nossos pensamentos. Isto é, fazemos uso da linguagem. Há uma interdependência entre linguagem e pensamento. Sem linguagem não há transmissão de pensamento. É, pois, através da linguagem que transmitimos nossos pensamentos a outrem. E para que compreendamos o que é dito por outrem servimo-nos da arte da interpretação, ou hermenêutica.

E como se exerce esta arte? Antes de tudo é necessário entender a dinâmica da linguagem como uma constante criação e evolução através da História, é um fazer-se. A língua portuguesa falada hoje, por exemplo, é muito diferente da falada em seus primórdios. Tornou-se muito mais rica, e muitos termos falados outrora foram abandonados e outros novos foram incorporados.

Só para ilustrar brevemente, a palavra você é proveniente de ‘vossa mercê’; era, no português antigo, usado para tratamento de pessoas ilustres. O termo sofreu uma corruptela passando para ‘vosmecê’ e hoje temos você. Só que nos tempos atuais não é mais usado como pronome pessoal de tratamento para ilustres; pelo contrário, é usado na terceira pessoa e pode ser usado no lugar de tu; tornou-se até, a meu ver, a ser mais usado que ‘tu’ e mais bonito e suave; a não ser no sul do Brasil, principalmente os gaúchos que preferem o ‘tu’, mas errando, por vezes, a conjugação: em vez de ‘tu vais’ dizem ‘tu vai’...

A hermenêutica, portanto, é a ciência da interpretação. Para podermos apreender os pensamentos do que foi escrito em tempos remotos, por exemplo, devemos ter em mente duas coisas: o sentido e o significado. Sentido e significado têm uma leve distinção. Sentido (de sens) é sempre aquilo que se vivencia, ou sentimos, como agentes que somos no mundo. E para dar significação às nossas vivências temos de usar signos que são a linguagem; através da linguagem o sentido se dá em significação.

Tendo isso em mente, temos de levar em conta a historicidade e o contexto do texto escrito. Qual a vivência que foi experienciada pelo autor; quais os signos e a gramática vigentes na linguagem da época, etc. Temos de considerar, outrossim, a historicidade ou a temporalidade que é criadora, em que nada se repete como sendo o mesmo de épocas anteriores, mas sempre criando fatos novos a partir do que foi estabelecido no passado e com tendência a transformações futuras. Assim a palavra ‘você’ está apoiada em ‘vossa mercê’ com tendência de passar para simplesmente ‘cê’ que tanto já se usa em redes sociais.

Assim, ao lermos um texto antigo e termos a correta compreensão ou apreensão do sentido e significado, temos que revisitar o passado e atentando à evolução que a linguagem sofreu, e interpretar com termos atuais o que se vivenciou no passado, mas que na atualidade não há cabimento tal vivência em que a realidade se apresenta de outro modo, com outras exigências no modo de viver e expressar-se.

Historicamente falando, toda época tem e teve seu máximo de contribuição cultural perfazendo-se num futuro indeterminado. Se Camões foi a expressão literária máxima da língua portuguesa, não há como ter outra 'Lusíadas' na época atual, vivenciamos outros tempos e não aquela de Camões de 1500...

Se fosse possível o Cristo de 2 mil anos atrás aparecer repentinamente em carne e osso entre nós, talvez ele diria: 'não sou cristão à vossa maneira'; a vivência do cristianismo de hoje não é o da época dele, adaptou-se, hoje, às vivências e contingências atuais, com outros enfoques.

E mesmo podemos colocar em dúvida se os termos da linguagem original dos evangelhos correspondem adequadamente aos termos usados nas línguas atuais, como o português, por exemplo, para saber o que foi dito e vivido no contexto da época, já que Cristo, me parece, falava em aramaico e os evangelhos foram escritos em grego a partir de 40 anos depois de sua morte.

Quer dizer, os evangelistas tiveram que achar termos (signos) em grego para traduzir o sentido das palavras aramaicas de Cristo. Usaram os termos certos em grego? Assim também podemos questionar se ao longo dos 2 mil anos não houve desvio de interpretação da linguagem evangelista para outros idiomas.

Assim, pela hermenêutica podemos nos inteirar do que foi vivenciado em épocas anteriores, interpretando com autenticidade os termos da linguagem escrita dessas épocas e tirar proveito dessas vivências enriquecendo as nossas vivências atuais, não as mesmas daquelas do passado remoto, pois nada é repetível no tempo, sempre estamos às voltas com o novo e irrepetível.

Se saudade tivermos do passado é apenas um sentimento gostoso de distanciamento o qual gostaríamos de reviver, mas impossível de se tornar viável porque o tempo é passamento e determina novas vivências, e estas também ficarão no passado das quais também podemos ter saudade.
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 17-9-2016

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