Mário Cordeiro
Acusar as pessoas que gostam
de cães de estarem a menorizar os humanos é não entender nada do que é o mundo,
a natureza e a capacidade de, exatamente, prover melhor aos direitos de uns e
de outros. Como se uns e outros fossem mutuamente exclusivos, e não complementares…
“Pai, eu queria tanto ter um
cão!” – e por mais que se tente explicar que é complicado, que o apartamento
não dá, que alguém teria de tratar do animal e outras tantas razões, as
crianças mais pequenas não entendem e colocam tudo no mesmo saco: o da cruel
recusa dos pais em satisfazerem a sua vontade.
Depois de meia hora de listas
de justificações para não adotar ou comprar um cão, mesmo que os pais até
gostassem de ter um, a frase que dizem, quando voltam as costas e desistem, é:
“Eu queria ter um cão, mas o pai não quer!... É só para me chatear...”
Há muitos animais em nossa
casa, desde os ácaros às moscas e formigas, mas no que toca aos chamados
animais de companhia, ter um é um hábito para muita gente e, felizmente, há
cada vez mais casas onde o canídeo faz parte integrante da família. Ainda bem,
repito. Salvaguardando a liberdade de não ter um cão, há que respeitar a
mesmíssima liberdade de o ter e, tendo-o (e, no meu caso, passeando-o todos os
dias, bem como aqui no i às terças-feiras…), vejo mais críticas das pessoas que
acusam quem tem um cão de não saber distinguir os animais irracionais dos
humanos do que juízos de valor das pessoas que têm “patudos” relativamente a
quem não quer ou não pode ter.
Uma coisa é certa: ao
adotar/comprar um cão tem de se pensar muito bem, porque quando se arranja “é
para a vida”. Felizmente, hoje, o abandono de animais de companhia,
designadamente dos cães, é criminalizado.
Muitos escritores têm-se
debruçado e escrito sobre a relação com os seus cães, de Virginia Wolf a Thomas
Mann, de Arturo Pérez-Reverte a José Jorge Letria, Manuel Alegre, Raul Brandão
ou Ruy de Carvalho. Livros excecionais, de uma enorme sensibilidade e que
mostram a transcendência da relação entre um cão e o seu dono.
Muitas vezes vem a acusação
velada: porquê “perder” tempo com cães quando há humanos a necessitar de mais
legislação protetora (e há! – afirmo-o com toda a convicção), como por exemplo
as crianças e os idosos, os desempregados ou os migrantes. Há que fazer por
eles, claro. Muito! Todavia, a mensagem muitas vezes veiculada de que “estamos
a pôr os cães à frente das pessoas” ou que “quem gosta de animais não gosta
assim tanto de pessoas” é errada, falsa, fundamentalista e manipuladora. Além
de demagógica. Faz-me lembrar uma empregada dos meus pais, quando eu era
pequeno, que dizia que se eu não comesse o arroz todo “morria um pretinho em
África”… e eu lá comia o arroz, mesmo estando enfartado, para não me sentir
culpado da morte de um outro menino.
Gostar de animais é um primeiro
passo para a nossa própria humanização e para um relacionamento melhor – que se
quer e se exige, com urgência – do homem com a natureza e com a sua própria
condição. Pode gostar-se de animais e de pessoas e uma coisa, repito e insisto,
não exclui a outra – sei-o por experiência própria.
Por outro lado, voltando à
história com que comecei esta crónica, há pessoas que gostariam de ter animais
e não têm condições de vida ou ritmos para tal. Poderão sempre, de qualquer
modo, tentar que as crianças tenham um relacionamento estreito, por exemplo,
com cães, em quintas pedagógicas, em espaços públicos, com os cuidados que
implica a relação de um humano com um cão que não conhece, e por isso, antes de
permitir que as crianças façam festinhas a um cão, é sempre conveniente
perguntar aos donos se o cão não fica “zangado” ou reage de uma forma que possa
assustar a criança ou mesmo ser perigosa para ela.
É bom ter cães em casa, mesmo
que cada caso seja um caso, ou cada casa uma casa... – contudo, há vários
aspetos a ter em conta na decisão de “ter ou não ter cão”, como sejam as
condições de habitação (casas sem jardim, com poucos quartos e de reduzidas
dimensões aumentam a dificuldade de definição de espaço entre o cão e os
humanos) ou o tempo e as pessoas disponíveis para tratar dele. Os animais,
especialmente os cães, sentem a solidão e têm requisitos que têm de ser
respeitados, como sair, passear, poder fazer as suas necessidades fisiológicas
livremente, correr, saltar… e, no caso dos cachorros, aprender comportamentos
“sociais”. Por outro lado, sabe-se que os animais domésticos podem ser agentes
e veículos de parasitoses ou proporcionar alergias, além do eventual cheiro a
pelo molhado, de poderem sujar a casa antes de estarem treinados, largarem pelo
ou outras situações similares – a escolha da raça de cão é essencial e,
sinceramente, advogo a adoção de um cão e não a compra, dado que, para lá de se
aliviar as associações e canis, são geralmente animais com um percurso de vida
complicado e que serão extremamente gratos para com os seus novos donos, para
lá de toda a lealdade e fidelidade que um cão demonstra no quotidiano.
Assim, será bom ponderar se o
cão se vai dar bem com o ambiente de nossa casa, com as nossas exigências (por
exemplo de limpeza) e a personalidade dos vários habitantes, entre os quais as
crianças, se está bem de saúde e foi visto recentemente por um veterinário (o
que é garantido quando se adota), se temos uma ideia clara e realista do que
vai ser necessário em termos de cuidados, desde a higiene à alimentação,
passando pelo apoio veterinário, passeios, mimo, brincadeira, etc., o que é
muito variável conforme as raças e a personalidade do próprio cão, e também se
já elencámos (com uma lista escrita) tudo o que será preciso, desde a higiene
aos espaços para o cão, a compra de alimentos, cama, cuidados de saúde (e a
despesa acrescida que representa) e outros dados semelhantes. Outro aspeto
essencial é ter bem definido o que vai fazer no caso de doença, não apenas do
cão, mas das pessoas – ou seja, quem vai tomar conta dele incluindo nos fins de
semana e feriados, ou nas férias, para que não se assista ao abandono
sistemático de animais nas estradas portuguesas.
Ter um cão é – digo-o como
declaração de interesses – uma alegria, uma oportunidade de retomar ritmos
humanos, de conhecer novos horizontes, de nos divertirmos com a “psicologia
canina”, de ter uma companhia e de entender o que significa a palavra lealdade
e as palavras reciprocidade e amizade.
Quando o vosso filho pedir um
cão, tenham já pensados estes e outros aspetos, porque a pior coisa que pode
haver é desiludir uma criança, por motivos que ela não compreenderá, arranjando
um “patudo” com o entusiasmo do momento e, depois, descobrir que é uma maçada,
que “só dá trabalho” e descartá-lo na primeira ocasião. A resposta à frase “Ó
pai, compre-me um cão!”, seja ela sim ou não, tem, portanto, de ser muito
ponderada. Como defensor intransigente dos direitos das pessoas e dos cães,
espero sinceramente que, na maioria dos casos, possa ser o sim…
Título e Texto: Mário Cordeiro, Pediatra, jornal “i”, 21-9-2016
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