terça-feira, 30 de maio de 2017

Nandó, os Lexus e os palhaços da assembleia nacional

Rafael Marques de Morais

Nos últimos tempos, Fernando da Piedade dos Santos “Nandó”, presidente da Assembleia Nacional e membro do Bureau Político do MPLA, tem conseguido manter o seu nome afastado do lamaçal de corrupção que inunda e afoga o regime de José Eduardo dos Santos.

Estranhamente, Nandó sobrevive incólume ao escândalo da aquisição de 250 viaturas de marca Lexus, modelo LX 570, pelo valor total de aproximadamente 78 milhões de dólares. As viaturas destinam-se aos deputados a serem eleitos em agosto próximo. Isto significa que cada Lexus terá custado 312 mil dólares. O presidente da Assembleia Nacional autorizou esta compra quando assinou o Despacho nº 3/17, de 25 de Abril, oficializado pelo Diário da República de 22 de maio. Não se pode, por isso, dizer que Nandó seja isento de responsabilidade em tão arrepiante despesa.

Acontece que o gabinete do presidente da Assembleia Nacional argumenta que os deputados precisam de dignidade. Interessante que essa dignidade não resida no serviço que prestam aos cidadãos, mas sim na vaidade que exibem ao fazerem-se transportar em carros de luxo, adquiridos a um valor de tal forma sobrefacturado, que antes parece um roubo.

Angola atravessa uma grave crise económica que, como é hábito, afeta terrivelmente as franjas mais desprotegidas da sociedade: os hospitais, por exemplo, estão sem seringas e sem medicamentos básicos para os pacientes como comprimidos para a malária. A culpa é a falta de verbas. Mas a falta de verbas não parece impedir a compra de centenas de viaturas que custam muitos milhões de dólares.

Não se trata aqui somente de uma injusta e incompreensível distribuição do dinheiro. Trata-se claramente de um caso de corrupção antecipada, tanto mais grave quanto impede que prevaleça a esperança de que algo vai mudar em Angola com as eleições que se aproximam. O caso da compra destas viaturas exemplifica uma velha história angolana: todos os deputados têm de ser corruptos ou corrompidos à partida, para que a integridade moral, a honestidade e a verticalidade política se mantenham longe da Assembleia Nacional.

É interessante reparar, de resto, que nenhuma bancada parlamentar e nenhum partido político da oposição emitiu um comunicado oficial veemente a denunciar o saque com a sobrefacturação dos Lexus, ou a pouca vergonha de se importarem carros de luxo quando o povo, o eleitor, passa cada vez mais fome.


Nenhum deputado da oposição, nenhuma figura da oposição manifesta publicamente que, caso seja eleito, recusará tal presente da corrupção moral com que o MPLA governa sempre.

A sociedade está chocada com o gesto de Danilo dos Santos, de 25 anos, o filho de José Eduardo dos Santos que gastou 500 mil euros a comprar umas fotografias antigas de estrelas de Hollywood dos anos 30 e 40. Duvidamos que ele tenha sequer visto algum filme dessa época. De qualquer modo, já não se livra da imagem do relógio de luxo, conforme inicialmente reportado.

Qual é então a diferença entre o comportamento de Nandó, enquanto presidente da Assembleia Nacional, na aquisição dos Lexus LX 570, e Danilo dos Santos, enquanto filho de JES sem atividade profissional conhecida, na compra das fotos ou do relógio? A diferença é que Nandó está habituado, de cinco em cinco anos, a repetir procedimentos para benefício de 220 deputados cujo desempenho é melhor enquanto palhaços do que enquanto representantes do povo. Portanto, as ações de Nandó contam simultaneamente com a cumplicidade do MPLA e com a da oposição representada na Assembleia Nacional.

Por sua vez, Danilo dos Santos brinca com o dinheiro roubado pela família aos angolanos para fazer banga pessoal em Cannes. Neste caso, conta somente com a cumplicidade dos pais e dos irmãos.

Ora, o povo não deve encarar de forma diferente a atitude de esbanjamento de Nandó e dos seus cúmplices na Assembleia Nacional e o insulto de Danilo dos Santos. No primeiro caso, há insensibilidade e falta de juízo. No segundo, há imaturidade. Isto para dizer o mínimo. Ambos, no entanto, desgraçam o bom nome de Angola, ambos agem de forma antipatriótica. O pior é que há muitos mais como eles, no seio do MPLA e do regime, que pisoteiam a dignidade de todos os angolanos.

É triste ver a fúria e o gozo com que nas redes sociais se ataca um imberbe, e se deixa passar incólume um profissional do esbanjamento do erário público como o presidente da Assembleia Nacional. Convém não esquecer que Nandó é o terceiro nome na lista de candidatos do MPLA.

Acabemos com a cobardia nacional. Exijamos aos partidos da oposição, nomeadamente a UNITA, CASA-CE e FNLA a recusa oficial antecipada dos Lexus LX 570 para os deputados que venham a eleger, sob pena de serem rotulados como farinha do mesmo saco – o da corrupção.

Vamos ao Nandó!
Título, Imagens e Texto: Rafael Marques de Morais, Maka Angola, 29-5-2017

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