sábado, 27 de maio de 2017

O luxo pornográfico dos filhos do presidente

Rui Verde 

A ostentação desavergonhada dos filhos do presidente José Eduardo dos Santos não tem limites. Nem mesmo a gravidade do estado de saúde do pai afeta a vocação perdulária e exibicionista dos filhos. Em Cannes, o caçula Danilo, sem qualquer sentido da realidade ou de decoro, licitou um relógio pelo valor de 500 mil euros (559 mil dólares).


O ator Will Smith, que apresentava a gala, não se conteve, comentando que o rapaz era demasiado novo para ter aquele dinheiro todo. E o mesmo comentamos nós.

Enquanto isso, em Angola a vida continua, mas não para todos. A morte teima em matar cedo e em levar mais crianças do que noutro país qualquer.

De há alguns tempos a esta parte, os sumptuosos desfiles de Cannes têm exibido umas quantas personagens adicionais: os filhos milionários do presidente de Angola. Para o estrangeiro incauto que se deixe maravilhar ante o glamour na passerelle, estes filhos pródigos que se encontram entre as pessoas mais ricas de África pertencem, na realidade, ao país que alberga uma das populações mais pobres do mundo.

No ano passado, Isabel dos Santos passeou-se em Cannes na companhia de estrelas dos reality shows: nessa altura, vimo-la com Kris Jenner, que é mãe de uma pessoa chamada Kim Kardashian, que se bem se percebe é famosa pelo… seu traseiro.

Este ano, a mesma Isabel apresentou-se esplendorosamente grávida numa festa da sua companhia de joias De Grisogono. Longe pareciam estar as agruras geradas pelas “notícias falsas” sobre a morte iminente do pai.

Mas o deslumbramento decadente de Isabel foi superado pelo do seu jovem irmão Danilo, que irrompeu em Cannes à boa maneira do seu compadre Teodorin Obiang, filho do ditador da aliada Guiné Equatorial.

Como é já do conhecimento público, Danilo comprou num leilão de beneficência um relógio por 500 mil euros, valor que alegadamente se destina a uma Fundação chamada amFAR.

Esta Fundação é uma organização não-governamental destinada ao combate à SIDA, foi criada, entre outros, pela atriz norte-americana Elizabeth Taylor e é hoje mundialmente presidida pela famosa Sharon Stone. É uma instituição com a chancela norte-americana e de Hollywood. A sua sede é em Nova Iorque. A fundação afirma que segue rigorosos padrões de governação e responsabilidade financeira exigidos no “Wise Giving Alliance of the Better Business Bureau”, bem como os requisitos fiscais para a participação na “Combined Federal Campaign.” Este rigor explica a “piada” do ator Will Smith, que, enquanto apresentava a Gala em que o jovem Danilo se exibiu, comentou que este era demasiado novo para ter tanto dinheiro.

É forçoso que a Fundação inquira acerca da origem do dinheiro de Danilo, jovem estudante em Inglaterra, sem negócios conhecidos do público. Caso não exerça esse tipo de escrutínio, incorre no risco de tornar-se instrumento de eventuais lavagens de dinheiro.

A mãe de Danilo, Ana Paula dos Santos, criou e preside à Fundação Lwini, destinada a angariar fundos – sobretudo junto de multinacionais estrangeiras – e a empreender ações de apoio às vítimas civis de minas terrestres principalmente mulheres e crianças. É difícil imaginar que Ana Paula dos Santos angarie fundos de um lado e veja o seu filho a esbanjar no outro. Talvez preferisse que os 500 mil tivessem sido gastos com as mulheres e crianças de Angola, e não em farras na Europa.

Ainda agora, a TPA (televisão do regime angolano) noticiou que não existe material descartável no Hospital Pediátrico de Luanda David Bernardino. Faltam seringas, soro, luvas, medicamentos. As crianças esperam quatro dias para ser atendidas. Bem fazia Danilo em doar os 500 mil euros ao hospital.

Danilo demonstra de forma exemplar que a falta de virtude mata qualquer pretensão de seriedade por parte do regime de José Eduardo dos Santos.

A compra de um relógio por 500 mil euros numa festa em Cannes coloca em questão o próprio regime: não consegue tratar das crianças do Hospital Pediátrico de Luanda, mas consegue dar 500 mil euros à criança do Presidente para comprar um relógio azul.

Não falemos sequer de corrupção ou da origem duvidosa do dinheiro de Danilo. Falemos simplesmente da falta de senso, de virtude, de discernimento, da humilhação que este tipo de comportamentos representa para o povo angolano.

Danilo demonstra-o de modo cristalino: os filhos do presidente já não enxergam o mundo em que vivem. Estão envoltos por uma bolha de falsa sofisticação que os faz voar de Londres para Cannes sem perceberem nada.

Já vimos este filme noutras ocasiões. É o filme que teve como atores os filhos de Kadhafi, o filho de Obiang, os filhos do Mubarak, para não recuarmos aos tempos clássicos e aos calígulas que por lá andaram.

Uma só palavra resume o sentimento: Basta! 
Título, Imagem e Texto: Rui Verde, Maka Angola, 26-5-2017

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