terça-feira, 2 de maio de 2017

Os estrangeiros, as eleições e a educação dos angolanos

Rafael Marques de Morais



A 24 de Abril passado, José Eduardo dos Santos exarou o Decreto Presidencial nº 78/17, que permite aos trabalhadores estrangeiros não-residentes serem remunerados em moeda estrangeira. No dia seguinte, teve início a greve geral dos professores do ensino primário e secundário. Ao terceiro dia, 26 de abril, o presidente anunciou a realização das eleições a 23 de agosto de 2017.

Temos aqui três questões interligadas, em termos de prioridades do regime e de valorização dos angolanos.

Em março passado, José Eduardo dos Santos – qual patriota – exarou o Decreto Presidencial nº 43/17, que anulava os pagamentos em moeda estrangeira para os estrangeiros não-residentes, de modo a garantir “um tratamento mais equilibrado” entre estes e a população nacional.

Passado apenas um mês, deu-se conta de que não há qualquer necessidade de equilíbrio entre nacionais e estrangeiros. A prioridade são os estrangeiros.

Por sua vez, o Sindicato dos Professores (Sinprof) entregou um caderno reivindicativo ao executivo de José Eduardo dos Santos, em agosto de 2013, com cinco pontos básicos. A poucos meses das eleições, os professores observaram duas greves gerais intercaladas, para que o governo se disponha a responder apenas, e à sua maneira, a duas dessas cinco reivindicações. Os professores exigem a actualização das categorias profissionais; o pagamento de subsídios; o reajuste salarial face à depreciação do Kwanza; a transição do regime probatório a efetivo, nos termos da lei; e, finalmente, a melhoria de condições de docência.

Aquando do anúncio da primeira greve dos professores (agendada para 5 a 7 de Abril), o regime reagiu com brutalidade e aparato através de uma federação sindical ligada ao MPLA. Os órgãos da comunicação social do Estado publicaram então as seguintes declarações: “Tal comportamento só revela o comprometimento desse sindicato com forças ocultas, que pretendem criar um clima de perturbação do processo democrático e de paz que o país conhece.” A reivindicação do Sinprof foi catalogada como “execrável”.

Portanto, para o MPLA, a exigência de dignificação dos professores é produto de forças ocultas, um atentado à democracia e à paz. É um ato execrável.

Para o governo angolano, manter a paz e a democracia significa aceitar a subjugação, a inferiorização e a humilhação da maioria dos angolanos. É o neocolonialismo sem máscaras.

Qual é a ligação entre a reposição dos “direitos” dos estrangeiros não-residentes e os professores? Sem professores satisfeitos não há educação, e sem educação não há progresso, mantendo-se a dependência em relação aos estrangeiros. Esta tem sido a principal estratégia do MPLA para manter o poder sobre todos os angolanos: roubar-lhes sempre a soberania e a dignidade.

Um dos líderes do Sinprof, João Francisco, argumenta que “Angola tem bons quadros. O problema maior é a sua valorização pelo governo. O Ministério da Educação nunca se preocupou com a valorização dos professores”.

Estamos perante um círculo vicioso que tem de ser quebrado. Por isso, para garantir o desenvolvimento sustentável de Angola, é muito mais importante pagar aos professores do que aos estrangeiros. Qualquer outra opção política é pura falácia.

A coragem do Sinprof ao relevar as ameaças do regime e prosseguir com a sua demanda obrigou o governo do MPLA a entrar em diálogo. A sua contraproposta cinge-se apenas à promoção dos professores, contrariamente à exigência do Sinprof sobre a actualização de carreiras. João Francisco dá um exemplo sobre o que está em jogo nesta questão: “Há professores licenciados, com 25 a 30 anos de carreira e outros à beira da reforma, que ganham como professores auxiliares (no escalão seis, o mais baixo da categoria)”. Num caso deste tipo, segundo a contraproposta do governo, a promoção do professor faria com que subisse apenas um escalão e não a assumir a categoria/escalão compatível com a sua experiência e os seus anos de serviço.

Sobre a exigência de pagamento de subsídios, o Ministério da Educação reconhece que o Decreto Executivo Conjunto nº12/96 prevê o pagamento aos professores de subsídios de atavio (3%), risco (4%), transporte (5%), alimentação (5%), exposição indireta a agentes biológicos, químicos e físicos (5%) dedicação exclusiva (7%) e docência (8%).

“Todavia, pelo histórico de processamento de salários na função pública, não foram implementados os subsídios de atavio, transporte e docência”, justifica o Ministério das Finanças no seu relatório sobre as exigências dos grevistas, aprovado pelo presidente.

O ministro das Finanças, Archer Mangueira, invoca a aprovação do Estatuto Orgânico da Carreira dos Docentes do Ensino Primário e Secundário, Técnicos Pedagógicos e Especialistas de Administração da Educação para concluir que “ocorreu uma revogação tácita do Decreto 12/96, não sendo por isso justificável o pagamento dos subsídios reclamados”.

“É óbvio que não há revogação nenhuma expressa ou tácita na legislação em vigor sobre subsídios. O que a lei determina é que se faça uma lei própria sobre o tema. Enquanto não for feita essa nova legislação, é aplicada a que está em vigor, designadamente o Decreto Executivo Conjunto 12/96 de 8 de março”, nota o analista jurídico Rui Verde.

“Isto quer dizer que o parecer enviado ao presidente da República pelo ministro das Finanças está errado no seu ponto 12 [referente aos subsídios]. O artigo 42.º, ao contrário do que se diz no parecer, salvaguarda a situação jurídica dos subsídios, explicitando que esta terá de ser objeto de legislação futura própria. Não tendo havido essa legislação depois de 4 de março de 2008, é aplicado tudo o que seja anterior e estivesse em vigor”, remata o jurista.

Portanto, há 21 anos que o governo não paga subsídios por si aprovados para os professores. Agora, o mesmo governo diz que os seus decretos estão tacitamente revogados, e o presidente aprova a mentira do ministro das Finanças. O mesmo presidente que, no espaço de um mês, revoga um decreto que afeta trabalhadores estrangeiros.

Como nota o jornalista Manuel Luamba, “a ideia de se pagar ao estrangeiro não-residente em moeda estrangeira é boa. Vai fazer com que os mesmos consigam enviar dinheiro para as suas famílias. Mas, se há dinheiro para pagar aos estrangeiros, porque não pagam também em dólares ou euros aos nacionais que trabalham para as empresas estrangeiras e instituições internacionais?”

A estudante de Direito Samanta Ribeiro refere que o pagamento em moeda estrangeira “é a única forma de governo e empresas manterem em Angola os estrangeiros que asseguram o funcionamento de áreas vitais do país, para as quais os angolanos não têm competência ou são em número insuficiente”.

“Mas só os estrangeiros terão direito aos dólares? E os angolanos não? A medida do presidente é discriminatória”, argumenta.

“Será que não é possível termos um governo que se preocupe de facto com o País e com o povo? A mentalidade da própria sociedade, que não reage, assusta. Ou mudamos de mentalidade ou isto será sempre um círculo vicioso.”

E assim chegamos às eleições, para relegitimar o neocolonialismo. Reclamar a dignidade da maioria dos angolanos, sobretudo dos educadores, é, na óptica do regime, contra a paz que amordaça os angolanos e os despoja das suas riquezas. Afinal, a outra opção, na lógica do MPLA, é a bala.
Título, Imagem e Texto: Rafael Marques de Morais, Maka Angola, 1-5-2017

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Um comentário:


  1. Apesar de ser militantemente anti-MPLA/JES, não me constrange ver este, ou qualquer outro governo do 3º Mundo (é disso que de facto se trata, não obstante a maquilhagem), pagar em moeda forte aos quadros que contrata no estrangeiro porque são indispensáveis ao desenvolvimento.

    Perguntem a um quadro angolano, se quer ir trabalhar para a Guiné-Bissau na condição de receber em Francos (CFA ocidental).

    Obviamente que a resposta será um rotundo não.
    Quem emigra fá-lo para melhorar a sua condição socioeconômica, e não se sujeita a ser compensado com "dinheiro de brincar aos países".

    Fosse o Governo de Angola da CASA CE/BD (oxalá tivessem condições de ganhar as próximas eleições), da UNITA ou doutro qualquer partido, estou certo que também pagariam em dólares aos contratados estrangeiros.

    Misturar as condições de contratação de estrangeiros com o défice de competência em valorizar os quadros nacionais, com base no fator moeda estrangeira, parece-me rebuscado e contraproducente.

    Exija-se que o Governo tenha a competência de impedir que o poder de compra dos professores e doutros quadros nacionais não se desvalorizem, evitando que o fosso salarial entre estrangeiros e locais se cave ainda mais, mas nunca pondo em causa a necessidade de garantir que os quadros "importados" não confinem a obra de reconstrução de Angola aos chineses.

    Agora, se os quadros estrangeiros contratados não fazem jus ao estatuto profissional que gozam em Angola, "são outros quinhentos", e os culpados são aqueles que os "importam", atentando contra a passividade dos bons quadros angolanos mal pagos e subestimados pelo governo MPLA/JES e suas elites (de)formadas pelos mestres brasileiros da Odebrecht.

    O meu herói Rafael Marques que me desculpe, mas desta vez discordo dele.

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