sexta-feira, 28 de julho de 2017

Um homem muito perigoso

Paulo Tunhas

É difícil, por estes dias, não pensar o pior de António Costa. A razão do fenómeno está no próprio Costa, nos limites, agora postos à vista de toda a gente, da sua percepção das coisas como estadista.

É difícil, por estes dias, não pensar o pior de António Costa. Era sem dúvida possível, e do meu ponto de vista sensato, pensar mal da sua visão política antes. Mas as razões para isso, por fortes que fossem, encontravam-se ainda ligadas por inteiro justamente à política no sentido banal e corrente da palavra. Podia-se discutir a forma como chegou ao poder, aliando-se a partidos cujo programa político implica a concepção da democracia parlamentar como algo de provisório a ser superado por formas mais elevadas de organização política. Mas a ascensão ao poder deu-se inequivocamente no quadro legal. Podia-se criticar as opções tomadas nos vários sectores da governação e julgá-las ruinosas. Mas tais críticas eram ainda críticas originadas em concepções políticas particulares e dirigidas contra outras concepções políticas. Podia-se julgar que a tão falada “paz social” tinha sido obtida através de negociações com os parceiros políticos, nomeadamente o PCP, em benefício das clientelas políticas destes, e que era inteiramente artificial e, dadas as suas consequências, danosa para o país. Mas, que se saiba, a Constituição não proíbe estes arranjos. Podia-se julgar isto e muito mais. Tudo mudou.

No final dos anos cinquenta, Jack Arnold realizou um dos mais maravilhosos filmes de ficção científica de todos os tempos, The Incredible Shrinking Man. Conta a história de um homem que, num passeio de barco, é envolto por uma estranha nuvem que depois desaparece. A pouco e pouco, Scott (é o nome do homem) começa a minguar a olhos vistos. O filme relata o progresso da diminuição do seu corpo e da mudança de percepção das coisas do mundo que essa diminuição acarreta. Quase no fim, a cena do encontro do seu corpo minúsculo com um gato é particularmente memorável. Em momento algum do filme o cómico, que aparece aqui e ali, silencia o que há de verdadeiramente angustiante no destino do personagem. E essa angústia prende-se em primeiro lugar com a alteração constante da percepção do mundo que o rodeia.

A ouvir Costa por estes dias, lembrei-me do filme de Jack Arnold. Como no filme, Costa tem minguado a olhos vistos. A razão do fenómeno não é qualquer nuvem misteriosa, mas sim os fogos que mataram pelo menos 64 pessoas em Pedrógão Grande e que se arriscam a matar mais, nos tempos que vêm, por esse país fora. Ou melhor: a razão do fenómeno está no próprio Costa, nos limites, subitamente postos à vista de toda a gente, da sua percepção das coisas como estadista. Ou ainda: da absoluta ausência da dimensão de estadista que ele exibiu de forma concludente.

Não me estou a referir ao rol de decisões passadas de Costa, algumas bem recentes, relevantes para o criminoso caos presente. José Manuel Fernandes elencou algumas ontem, num seu artigo neste jornal (“Se isto é um primeiro-ministro”). Aquilo de que falo tem mais a ver com o que, também no Observador, Rui Ramos escreveu terça-feira (“A ignorância de Estado”), e que sugere uma total incapacidade de Costa para assegurar o bem público. Face a uma catástrofe, tudo aquilo de que Costa é capaz é de recorrer a toda a espécie de malabarismos que lhe granjearam a dúbia fama de político excepcionalmente habilidoso. Só que, confrontado com uma realidade não moldável aos exercícios circenses a que nos habituou e que tanta admiração provocam nos aficionados da política, a tal habilidade revelou-se aquilo que na sua essência radicalmente é: um puro jogo destinado a preservar o poder sem qualquer princípio que respeite verdadeiramente ao bem público. Quer dizer: uma coisa oca produzida pelo vazio.

António Costa minguou aos olhos de todos – e minguou também aos seus próprios olhos, por mais que tente disfarçar este aspecto das coisas. A sua percepção da realidade tenta adaptar-se em vão àquilo para o qual se encontra radicalmente impreparado, já que a situação exige uma concepção da política muito diferente daquela que é a sua, restrita à sabedoria mundana de todos os truques e truquezinhos conducentes à ascensão ao poder e à sua manutenção.

E ele percebeu patentemente isso. A inacreditável brutalidade que, depois das piedades da praxe, mostrou na reação à catástrofe, como se tudo não passasse de um detalhe burocrático, é sinal disso, sinal só aparentemente paradoxal dessa debilidade descoberta. O repetido “já está tudo esclarecido”. O rocambolesco episódio do “segredo de justiça” relativamente ao número e à identidade dos mortos. A denúncia de um aproveitamento político “absolutamente lamentável” por parte da oposição, que (a linguagem, logo retomada por Pedro Nuno Santos, é eminentemente significativa) faz “acusações parvas”. “Parvas” (Pedro Nuno Santos acrescentou “tontas”)? É linguagem que, no contexto, se use? E a oposição não está ali para, bem ou mal, criticar o governo quando julga que este merece críticas? Não era isso que o PS (e o Bloco e o PC) dantes fazia? “Parvas”? Vejam o nível da coisa e o que revela sobre aquelas cabeças.

A criação da “lei da rolha”, em que, a partir de Carnaxide, a comandante Patrícia Gaspar, da Autoridade Nacional da Proteção Civil, se especializou a, com o beneplácito de Costa, transmitir informações desmentidas por aquilo que se passa no terreno. Tudo isso são maneiras desesperadas de lidar com a situação que visam trazer os problemas para o reino das aparências, o único que ele conhece e em que se sente bem. Mas ele sabe que já não é possível, que a coisa passou para uma escala onde esses artifícios são vãos.

A incapacidade de adaptar os seus hábitos de percepção à realidade leva Costa a produzir declarações espantosas e, no limite, obscenas. No outro dia, facto não suficientemente notado, afirmou que (cito de cor, mas não falho a ideia) a dimensão da tragédia não se mede pelo número de vítimas. Como? A dimensão da tragédia não se mede pelo número de vítimas? Percebe-se bem, é verdade, onde queria chegar. Em pânico pela discussão criada pela descoberta de uma 65ª vítima revelada pelo Expresso (há quem diga que haverá mais), Costa decidiu proclamar o seu grande humanismo: a perda de uma só vítima é já uma tragédia inteira.

É muito bonito falar assim, mas é voluntariamente esquecer, ou pretender ocultar, que o número de vítimas tende com quase certeza inteira a acentuar a responsabilidade humana (e a responsabilidade política de Costa) em toda esta história e que a totalidade do número de vítimas acrescenta, se possível, uma dimensão ainda mais grave a cada tragédia individual. Não dou exemplos da falácia do argumento de Costa porque o seu número é legião.

Não tenho a mínima dúvida que Costa tem plena consciência que a sua reação a toda a catástrofe dos fogos provou a sua incapacidade como homem de Estado para defender o bem público. E não serão a presumível escalada da sua agressividade verbal ou o aumento das sortidas tentativas de criar uma aparência incoincidente com a realidade que me farão pensar o contrário. Ele sabe. Sabe que minguou. O cinto protetor do PS e do PC e do Bloco (Catarina Martins não resistiu a invocar o “aquecimento global”, um argumento espúrio e estapafúrdio) não lhe vão adormecer a consciência. Ele sabe. Tirará daí alguma consequência? Perceberá que a sua minguada percepção da realidade o torna inconveniente para o cargo que ocupa? Claro que não.

António Costa é um homem perigoso. Mesmo muito perigoso.
Título e Texto: Paulo Tunhas, Observador, 27-7-2017

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