quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O PSD

Maria João Avillez

Quem como eu testemunhou “in loco” o melhor do país sentado no hemiciclo de S. Bento em 1975 não pode deixar de tropeçar hoje numa abissal diferença de almas e procedimentos.

1. Conforme me teria competido e manda a deontologia de quem leva este escrevinhar a sério, não havia meio de me interessar. De abrir uma televisão, alinhavar duas ideias, ter uma opinião. Nem ao menos ligar para o telefone certo e informar-me de uma vez por todas sobre como ia a atual corrida à liderança no PSD.



Havia um alheamento, um misto de preguiça e descrença que uma quadra de festas mais agreste que natalícia não chegavam para explicar.

E, no entanto… tratava-se do PSD, o partido de quem sempre estive próxima, fossem altas ou baixas as marés. O partido mais transversal da sociedade portuguesa, que mais reformou o país, que mais maiorias políticas absolutas conquistou sozinho para o seu eleitorado e onde nunca precisei de me filiar (filiação só no Benfica) para o eleger como morada política. Rendendo-me (tardiamente, hélas) a Sá Carneiro, homem de alma, mas hoje deixaram de se fabricar; percebendo logo em 1985 que Cavaco viera para ficar; testemunhando de perto a saga de Passos Coelho a contas com um país esburacado, mas, afinal, contas tão bem-feitas que o conduziram a uma segunda vitória eleitoral.

2. Há mais de 40 anos que o PSD é acusado de não ter uma matriz ideológica clara, definida, uma etiqueta de identidade, como as das malas. Mas como tê-la se o partido começou por ser uma resposta ao país e volto a reutilizar aqui esta expressão: o PSD, em maio de 1974, foi a resposta dos “homens bons da terra”. Existia por essa altura em Portugal um corpo intermédio da sociedade que começara a ganhar consciência cívica e política com a Ala Liberal, a Sedes, a JOC e a JUC, encontrando diversos espaços de intervenção. Não se revia numa solução marxista ou qualquer projeto que tivesse como fim o comunismo ou o socialismo. Sim, já aqui o escrevi, mas repito-o hoje, nunca é demais lembrar como este parto político foi singular, de longe o mais singular da democracia portuguesa. O PPD eram profissionais liberais, médicos, advogados, mas também pequenos proprietários, pequenos comerciantes, uma malha forte de gente que tinha já uma independência material ou profissional, em suma. O partido começou por isto e por se implantar assim, nacionalmente, primeiro no Norte, depois país fora, e só falo do que vi. E quando procedeu à sua própria exteriorização, ela ocorreu ao contrário: não como nos outros partidos que iam nascendo de dentro para fora, mas de fora para dentro e sem uma ideologia pré-existente. Era como que uma impressão digital doutrinária originada pelo cruzamento do que fora o pensamento da Sedes, do que era a doutrina social da Igreja, do que significara a Ala Liberal e não é senão esta mescla que melhor traduzia o pensamento político dos primeiros homens do PSD.

E depois, claro, havia Francisco Sá Carneiro. Ou havia sobretudo Sá Carneiro que interpretou o que de melhor havia no país, amalgamando energias e vontades — também me lembro disso — ao mesmo tempo que tecia o que hoje poderíamos apelidar de socialdemocracia portuguesa, na altura muito marcada pelo humanismo, o personalismo, pelo primado da pessoa. É certo que ainda hoje, quatro décadas e muitas vitórias depois, tudo “isto” é acusado de ser pouco, pobre ou nada, falta a etiqueta. Mas “isto” não é senão o resumo daquilo que era o genuíno pulsar deste vastíssimo quadro de gente que elegeu as cores alaranjadas do partido e se acolhia naquele porto de abrigo político. Os cânones da ideologia eram-lhes relativamente indiferentes.

3. E hoje? Hoje, duas coisas: houve uma brutal deterioração da classe política, que não é de agora, mas vem tombando em plano inclinado, um “deslasssamento” e sabe Deus como não alinho na permanente desclassificação dos políticos. Quem como eu testemunhou “in loco” o melhor do país sentado com empenho e brio no hemiciclo de S. Bento em 1975 não pode deixar de tropeçar numa abissal diferença de almas e procedimentos. Além disto, que é imenso, a volatilidade — do tempo, das coisas, da política – é sulfúrica. Políticos e partidos surgem, mas também se somem. Grandes formações partidárias já se sumiram dos mapas políticos europeus (quem sabe até das nossas aflitas memórias). E outros, vindos do breu do desconhecimento, conquistam países e poder. Não será exatamente o caso de Macron, que fora ministro de Hollande, tinha sólida formação económica e currículo intelectual, mas o seu feito é apesar de tudo extraordinário: em menos de um ano ergueu um movimento do vazio absoluto o qual, como num passeio sem arestas nem escolhos, o levou direto ao Eliseu. Ambos – o movimento e ele — tornaram-se donos da França e apreciariam ser donos de mais.

Não sei o que ocorrerá no PSD, ninguém arrisca um vaticínio nem sequer sobre quem ganha ou perde daqui a dias. O PSD é forte demais para desaparecer, mas outros partidos também ditos “indispensáveis” à própria respiração política dos seus respectivos países estão hoje no cemitério.

Pequena nota a propósito, mas não despicienda: se já repararam como Marcelo “bebe” Macron, se inspira em Macron e gostaria de ser “um” Macron — e isto faz algum sentido — podemos comprar já um bilhete na primeira fila.

4. Isto dito, faço parte de um grupo, não sei se grande se pequeno, que teria gostado de ver a geração dos 40 anos saltar para a cabeça do PSD. Constato, porém, que de cada vez que alguém propõe — ou defende — o mesmo, logo o coro dos Velhos do Restelo começa a cantar: “Jovem? Quem, se não há ninguém? “

Nunca há ninguém até haver alguém, mas a permanente reedição desta (desculpabilizante) dúvida atirada como uma certeza tolhe escolhas, inquina a política, atrapalha o futuro. De facto nenhum quarentão recomendável — e há uma boa meia dúzia deles — se chegou à frente. Estão à espera? Se estão, ao menos que saibam que se cada um não cria as suas próprias circunstâncias e se bate por elas, não há política para ninguém e, no caso, olhem para Santana ou Rio que em tempo as criaram. Não tenho por onde excluir que não possa haver boas iniciativas na próxima liderança do PSD (e admiro sempre quem se desinstala ao ponto de galopar uma campanha eleitoral, entalado entre a temível — e ambígua — oligarquia que lá sobrevive e um aparelho que apesar de porventura menos mal que a oligarquia deveria trocar a sua manifesta fome de lugares pelo apetite de servir a política e através dela, o país).

O que sei é que o momento talvez pedisse um voo de águia de outra geração, mas, garantem-me – surpresa – que boa parte dela se transferiu para a campanha de Santana Lopes. Com a independência de quem tem uma vida bem-sucedida fora da política ativa; o mérito pessoal e a utilidade de um bom currículo na investigação, empreendorismo, ciência, Universidade, profissões liberais, start-ups ou autarcas com lideranças já notadas e bem cotadas. Será assim? Se for, a livre escolha agora feita por estes trintões ou quarentões não deixa de ser um sinal. Ter a qualidade no topo da escala das prioridades na prática da cidadania não pode obviamente deixar de contaminar a atividade política se esse vier depois a ser o caminho.

5. Tem-se ouvido reclamar das “trapalhadas” de Santana. É natural: primeiro porque existiram e não há tanto tempo; segundo porque a esquerda prefere-lhe Rui Rio e ela lá sabe com o que conta. Acrescento, porém, uma nota não anódina sobre trapalhadas, casos, chatices: são sempre alvo de acusação, publicitação e ampliação se a sua autoria couber à direita. Exagero? Então que dizer das trapalhadas de Sócrates e das de Costa (não vale a pena enumerá-las, pois não?)

PS: Pode discordar-se, concordar-se, aplaudir-se ou vituperar o verbo e a atitude de José António Saraiva (com quem durante anos trabalhei no Expresso e conheço bem). Já com o inconcebível arrazoado de uma organização chamada CIG que me pareceu assaz desorganizada mentalmente dado o lamentável currículo público já exibido, só se pode discordar. O desequilíbrio entre uma “atuação” e outra não me parece de somenos (mas é para o que os tempos estão).
Título e Texto: Maria João Avillez, Observador, 9-1-2018

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