domingo, 19 de janeiro de 2020

Joacine, fazes-nos falta

Rui Rio, António Costa, Mamadou Ba, o jornalista-ativista, as personalidades, Ferro Rodrigues… todos escreveram a Joacine. Todos precisam de Joacine. Só Jerónimo de Sousa escreveu a Rui Tavares.

Rui Ravares e Joacine Katar Moreira, foto: Miguel A. Lopes/Agência Lusa
Helena Matos

Carta de Rui Rio. 
Joacine, desculpe não a tratar por deputada. Mas na verdade não é essa sua qualidade que me leva a dirigir-lhe estas palavras mal acabo de ser reeleito presidente do PSD, mas sim a consciência daquilo que nos une na forma de fazer política. Nós os dois, quando entramos num partido é para dar cabo dele, reduzi-lo a quase nada. Com alguma sorte e depois de uma sucessão de combates ficamos só nós dois, cada um no seu partido obviamente. Joacine, vejo em si a minha alma gémea e acredito que na política portuguesa nada será igual após a nossa passagem.
Assinado: Rui Rio, homem que tem uma estratégia de oposição única no mundo



Carta de António Costa.
Cara deputada Joacine, venho manifestar o meu apreço pela sua postura republicana e, sem querer de modo algum pressioná-la, condicioná-la ou fazer qualquer coisa que possa irritá-la, encarecidamente lhe agradeço a articulação que se tem estabelecido entre as nossas duas agendas: desde que a senhora deputada apareça – não se canse a falar, basta aparecer – não há espaço para outras polémicas. Por exemplo, os meus assessores estavam preocupadíssimos com a confusão que se ia armar em torno das recomendações do Secretário de Estado da Saúde sobre o combate às agressões aos médicos e enfermeiros através da colocação de revistas e bolinhos nas salas de espera dos hospitais e, graças a si, aos seus gritos e zangas, o assunto morreu.

Também lhe devo o poupar-me a debates: conhecida que é a minha dificuldade em debater com mulheres, com a senhora não tenho esse problema, não por a senhora ser gaga, longe disso, mas sim porque de antemão lhe digo que sim ou que não, que no caso vai dar ao mesmo, pois nem eu estou para a entender nem a senhora para me ouvir.

Sempre que quiser pode mandar aquele rapaz que às vezes usa saias (acha que me ficavam bem?) pedir a papelada sobre o que estamos a decidir (os dias que vão marcados a vermelho são aqueles em que uma das suas performances dava jeito). De qualquer modo a senhora deputada por nós não se prenda que nós temos isto tudo bem preso.
Assinado: António Costa, primeiro-ministro, em paz e sossego também graças a si

Carta de Mamadou Ba. 
Joacine, despacha-te por favor: vais apresentar queixa por racismo ou não? Quem disse “Elegeram uma mulher negra que gagueja e deu jeito para a subvenção” foste tu. Isto é exploração da mulher negra!

Como te disse estou com pressa. Não sei se viste mas declarei ao Expresso que recebi ameaças de morte nomeadamente de polícias, comandos e GNR e agora há uns jornalistas de uns pasquins que querem saber como é que eu sei que as ameaças são “nomeadamente de polícias, comandos e GNR”. O nomeadamente é que lixou isto tudo!

Temos de clarificar (já viste como a língua portuguesa é uma língua do poder branco?) este assunto: as mesmas fontes que afiançam que “nomeadamente de polícias, comandos e GNR” me ameaçam matar garantem-me que está a ser constituída uma liga de transgéneros brancos tartamudos. Temos de marcar o terreno da gaguez antes que tal aconteça.
Assinado: Mamadou Ba pessoa que fala nomeadamente pelo SOS Racismo

Carta de Ferro Rodrigues. 
Exma. sra. deputada Joacine, na qualidade de presidente da AR venho manifestar o meu total apoio à sua decisão de não renunciar ao cargo. Sem a senhora como posso eu dar largas ao meu espírito progressista? De cada vez que lhe dou mais uns minutos para acabar as suas intervenções, de cada vez que abro uma excepção para que os seus projetos entregues fora do prazo sejam discutidos, como aconteceu com a Lei da Nacionalidade, sinto-me a travar a direita. Senhora deputada, o parlamento é o seu lugar e acredite que outros bem menos merecedores lá têm feito a sua carreira.
Assinado: Ferro Rodrigues (não escrevo saudações revolucionárias, mas acredite que gostava)

Carta de personalidades, ativistas e jornalistas-ativistas. 
Joacine, a malta apoiou-te como sempre apoiamos quem nos parece capaz de fazer alarido contra esta sociedade capitalista que tanto odiamos, mas donde não saímos de modo algum. Fizemos textos aparentemente informativos sobre a mulher que gaguejava a falar, mas não a pensar. Cantámos inebriados canções em que Joacine iria ser “a vanguarda na nossa casa-grande”. Tinhas o Polígrafo todos os dias a poligrafar o que sobre ti se dizia. Redigimos manifestos para te apoiar.

E no fim desfizeste-nos o sonho, Joacine. Repara Joacine que já tivemos o sonho do deputado operário, do deputado intelectual, do deputado que ia ser só deputado para aprovar o casamento gay e agora tu a primeira deputada negra, apesar de já terem existido outras deputadas negras, veio desfazer-nos o sonho. É muito sonho desfeito. Quem te vai substituir no espaço dos nossos afetos revolucionários?

Joacine, outras Joacines virão. Quem sabe entre aquelas 40 pessoas que esta noite se envolveram numa rixa na Mouraria por causa da eleição de “um líder religioso do Bangladesh” não está o sucessor de Joacine? Certo é que não lhe faltarão nem a subvenção nem o entusiasmo das personalidades, dos ativistas e dos jornalistas-ativistas.
Assinado: Personalidades, ativistas e jornalistas-ativistas sempre em busca de um líder a que endeusar, de uma causa a que apoiar e de uma subvenção para o contribuinte pagar

Carta de capitalista à procura de sócio. Eu sei que a minha maneira de falar lhe há de parecer muito antiga, quiçá fora da sua área política. Mas, minha cara senhora, eu sou uma pessoa com capitais próprios em busca de um parceiro de negócios e confesso que a genica da senhora a falar da subvenção me cativou. Fazem falta pessoas que defendam com denodo o que é seu! O que ganharam! O que conseguiram! A senhora por agora vai estar no parlamento mas caso pense aderir a uma carreira nos negócios não se esqueça da oferta de sociedade que lhe faço: com uma pessoa assim à frente de uma empresa não há reivindicações de trabalhadores, inspetor do fisco ou bisbilhoteiro da ASAE que se atreva a perturbar-nos o rendimento.
Assinado: capitalista farto de viver envergonhado

Carta de Jerónimo de Sousa. Rui Tavares, não o trato por camarada porque com a sua atitude fraccionista não tem feito outra coisa senão o jogo da reação roubando votos à vanguarda do operariado. Mas nesta hora que, por experiência própria, sabemos dificílima vimos lembrar-lhe que tem muito a aprender com o povo. Como diz o provérbio, homem prevenido vale por dois e no caso desse seu grupelho que só tem um deputado é claro que mandava a prudência revolucionária que a deputada em causa tivesse assinado uma carta de demissão do cargo para o partido usar quando desse jeito. Claro que, como também diz outro provérbio, não há nada como uma mulher para fazer do homem quanto quer, e também nós tivemos os nossos problemas com uma deputada que recusou cumprir o seu compromisso com o partido e lá ficou sentada no parlamento. Mas enfim águas paradas não movem moinhos, o lá vai lá vai, mas cá se fazem, cá se pagam.
Assinado: Jerónimo de Sousa, líder comunista, especialista em marxismo na versão provérbios, que se lhe derem tempo há de levar à falência a empresa de produção de comboios agora anunciada pelo Governo tal como já fez com a Sorefame

Título e Texto: Helena Matos, Observador, 19-1-2020, 1h10

Um comentário:

  1. Sábado, dia de feira livre

    Qualquer pessoa normal, das que bebe água sem ser com a testa, percebeu que a candidata Joacine tinha tanto a ver com o projeto de carreira do Rui Tavares como este tem a ver com astronomia. Rui Tavares é o arquétipo do brutalismo soviético, o indivíduo que para representar Trotsky num filme teria que se limitar a aparecer e repetir o guião. Guarda-roupa? O armário de Rui Tavares.

    Joacine é da nova vaga de comunistas. Sem nada político a dizer, limita-se a repetir que o projeto da sociedade idealizada por estes trogloditas é uma mistela de igualdade marcada pela diferença em melanina, presença de vagina e enormes problemas de articulação. Uns mais iguais que outros.

    Seria de supor que se chateassem. Não tão cedo, mas depois da lua-de-mel. Rui Tavares defende em exclusivo uma ideia: a de que alguém quer saber o que Rui Tavares, o burguês dos clichés que passam por erudição, tem a dizer ao mundo. Já Joacine, que tem tanto interesse no que Rui Tavares tem a dizer ao mundo como o mundo tem interesse em o ouvir, Joacine tem algo a dizer: que é mulher, que é negra, que é gaga, que se dá com indivíduos cuja filosofia política se resume à bainha da saia e que veio para ficar com o voto da juventude “mais bem preparada de sempre”.

    Nós queremos ouvir Joacine. É refrescante ouvir alguém sem discurso próprio e cuja mensagem é a existência da própria. É um símbolo: representa que o vazio intelectual pode ser preenchido visualmente e que, numa era em que ninguém tem nada a dizer, a imagem é a única coisa que conta. Não há diferença entre o parlamento e o Lisboa Fashion.

    Quanto à presença de crianças no congresso da peixeirada, tenho a dizer que não vi nada fora do normal: era capaz de estar um adulto presente, só não apareceu nas fotografias.
    Vitor Cunha

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