segunda-feira, 16 de março de 2020

A demissão de Marcelo

Domingo o político mais popular do país não teve nem política, nem popularidade, nem país. Marcelo, que construiu a estrada para Belém nos pequenos ecrãs, abandonou a presidência no mesmo formato.

Sebastião Bugalho

As demissões, por norma e protocolo, concretizam-se por escrito. Ontem, no horário nobre das televisões, assistimos a uma em formato multimídia. A mensagem que Marcelo Rebelo de Sousa deixou na presidência da República – desfocada em imagem e matéria – representou uma autêntica renúncia às suas funções enquanto chefe de Estado.


Marcelo, em quarentena, anunciou a decisão de convocar o Conselho de Estado para daí a três dias “para que se debruce sobre a eventual decisão de decretar o estado de emergência”, cuja porta o primeiro-ministro já havia aberto em conferência de imprensa.

Se escutarmos atentamente, toda a mensagem de Marcelo está recheada de referências temporais a um futuro próximo: “a eventual decisão”; “para a próxima quarta-feira”; “será decidido”. Ora, ouvindo os relatos dos médicos e responsáveis políticos de Itália e Espanha, reconhecemos uma urgência que contrasta com a ausência de pressa de Marcelo, ainda por cima quando o Conselho de Estado reunirá numa videoconferência que poderia acontecer agora, neste segundo.

No combate a uma pandemia, tempo gasto são vidas perdidas. Marcelo assegura que “o que tem de ser decidido será decidido”, o que quase me fez agarrar a televisão pelas pontas e responder: “então decida, sr. Presidente, decida!”. Não farei juízos de valor acerca da quarentena do professor ou da pertinência do seu teste ao coronavírus e respectivo resultado, mas uma coisa parece-me óbvia: os portugueses precisavam de Marcelo Rebelo de Sousa e não tiveram Marcelo Rebelo de Sousa; tiveram alguém que na véspera de ir para quarentena estava num teatro a gracejar sobre uma pandemia.

Não entendo, com sinceridade, o paralelo que estabelece entre o vírus que enfrentamos e a “pneumônica que vencemos há cem anos” – sendo que a vencemos depois de morrerem 60 mil portugueses –, como também não compreendo a comparação com as “crises econômicas e financeiras”, que ao que tudo indica terão sido menos violentas do que aquilo que aí vem. E “vamos vencer!” não chegará para o ultrapassar.

O que verdadeiramente chocou, todavia, foi a sua conclusão. Marcelo despediu-se de nós, despedindo-se do cargo. Disse-nos que esta não havia sido “uma comunicação formal” – essa fará “no fim da reunião do Conselho de Estado”, 72 horas depois –, mas antes “uma comunicação pessoal do cidadão Marcelo Rebelo de Sousa” feita, como se viu, numa modesta webcam. A afirmação levanta uma série de questões. Se estávamos a ouvir o cidadão-Marcelo, onde estava o Presidente-Marcelo? Só aparecerá na quarta-feira? Portugal esteve sem Presidente e não soube? O Presidente-Marcelo pretende regressar à sua condição de cidadão-Marcelo? Quando?

Ontem à noite, o político mais popular do país não teve nem política, nem popularidade, nem país. Marcelo, que construiu a estrada para Belém nos pequenos ecrãs de domingo à noite, abandonou a presidência no mesmo formato. O país não esperava essa irresponsabilidade e André Ventura não imaginava essa sorte. Com isto tudo, ainda vão os dois a segunda volta. E nós às voltas com eles.
Título e Texto: Sebastião Bugalho, Observador, 16-3-2020, 8h49

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