sábado, 14 de setembro de 2019

[Livros & Leituras] Você e eu somos simples apenas quando o mundo se comporta

Jordan B. Peterson

Quando as coisas quebram, tudo aquilo que foi ignorado emerge. Quando não são mais especificadas com precisão, as paredes ruem e o caos se faz presente.

Quando agimos de forma imprudente e deixamos que as coisas degringolem, tudo aquilo que nos recusamos a prestar atenção se acumula, adota a forma de uma serpente e ataca – geralmente no pior momento possível. É então que podemos ver do que a intenção focada, a precisão de meta e a atenção cuidadosa nos protegem.

Imagine uma esposa leal e honesta que de repente se vê confrontada com evidências da infidelidade do marido. Ela vive com ele há anos. Ela o via como presumiu que ele fosse: fiel, trabalhador, amoroso e confiável. Ela se apoia em seu casamento como em uma rocha, ou pelo menos é no que acredita.

Mas ele se torna menos atencioso e mais distraído. Ele começa, como dita o clichê, a trabalhar até mais tarde. Pequenas coisas que ela diz o irritam sem justificativa.

Um dia ela o vê em um café no centro da cidade com outra mulher, interagindo de uma maneira difícil de racionalizar e ignorar. As limitações e imprecisões de suas percepções anteriores se tornam imediata e dolorosamente óbvias.

Sua teoria sobre seu marido desmorona. O que acontece em seguida? Primeiro, algo – alguém – emerge em seu lugar: um estranho assustador e complexo. Isso por si só já é ruim o bastante. Mas é apenas metade do problema. Sua teoria sobre si mesma também desmorona, como resultado da traição, então o problema é que não há apenas um estranho: são dois.

Seu marido não é quem ela imaginava – mas ela também não, agora é a esposa traída. Ela não é mais a “esposa segura e bem-amada e a parceira valorosa”. Estranhamente, apesar de nossas crenças na permanente imutabilidade do passado, ela pode jamais ter sido.

O passado não é necessariamente o que era, mesmo que já tenha acontecido. O presente é caótico e indeterminado. O chão continuamente se move sob os pés dela, e sob os nossos.

Igualmente, o futuro, que ainda não chegou, passa a ser o que não deveria. Será que a esposa até então razoavelmente satisfeita passa a ser agora uma “inocente enganada” – ou uma “tola ingênua”? Ela deveria se ver como uma vítima ou como coautora de uma ilusão compartilhada? Seu marido é... o quê?

Um amante insatisfeito? Uma vítima de sedução? Um mentiroso psicopata? O Diabo em pessoa? Como ele pode ser tão cruel? Como alguém é capaz? Que casa é essa na qual ela tem vivido? Como pode ser tão ingênua? Como qualquer um pode ser?

Ela se olha no espelho. Quem é ela? O que está acontecendo? Algum relacionamento dela é real? Algum já foi um dia? O que aconteceu com o futuro? Tudo ainda está por se definir quando as realidades mais profundas do mundo inesperadamente se manifestam.

Tudo está entrelaçado além do que se pode imaginar. Tudo é afetado por todo o resto. Percebemos uma porção muito estreita de uma rede casualmente interconectada, embora lutemos com todas as nossas forças para evitar sermos confrontados pelo conhecimento dessa limitação.

No entanto, o fino verniz da suficiência perceptiva racha quando algo fundamental dá errado. A terrível inadequação de nossos sentidos se revela. Tudo que prezamos vira pó. Ficamos paralisados. Viramos pedra. O que vemos então? Para onde podemos olhar quando o que vemos é exatamente o que tem sido insuficiente?
Título e Texto: Jordan B. Peterson, in “12 regras para a vida – um antídoto para o caos”, páginas 276, 277 e 278. Alta Books Editora, Rio de Janeiro, 2018.
Digitação: JP, setembro de 2919

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