quinta-feira, 9 de abril de 2020

Uma falência ideológica

Mais preocupadas com a preservação do seu software ideológico do que com a proteção dos povos contra o coronavírus, as elites globalistas e diversitárias tiveram má vontade em tomar a única medida que se impunha: o fechamento das fronteiras.

Mathieu Bock-Coté

Não basta dizer que a crise do coronavírus fragiliza as nossas sociedades. Na verdade, elas já estão derrubadas, e as especulações sobre um eventual colapso, que, ainda ontem, provocavam o sorriso até mesmo nos mais pessimistas, doravante são encaradas com seriedade.

As sociedades já atingidas por grandes tensões arriscam de ver as violências se multiplicar no exterior das zonas onde estavam relativamente contidas, ainda. Talvez não seja mais possível afastá-las da margem simbólica da ordem social.

Se a crise evoluir, a desintegração simbólica das sociedades ocidentais constatada há algumas décadas, se concretizará brutalmente numa decomposição mórbida onde os instintos de sobrevivência comandarão os comportamentos sociais.


O individualismo como o tribalismo farão desaparecer o senso comum. A diversidade dos costumes num mesmo país onde coabitam fragilmente tornar-se-á abertamente conflituosa. Os políticos de tempo de paz serão desconcertados por uma tempestade que os transforma em tristes crianças, como gestores amadores de calças curtas.

O imprevisível e o indomável podem surgir em todas épocas. A burrice dos modernos foi a de acreditar que o trágico pertencia à pré-história da humanidade, como se a força da ciência lhes desse uma ascendência total sobre a existência. Eles se imaginaram no papel de divindade.

O homem que acreditou tomar o primeiro lugar na criação e até confessava um fantasma de imortalidade alimentado pela tecnociência se descobre desarmado perante a figura da epidemia que reanima os medos arcaicos da humanidade.

A experiência do confinamento generalizado que se impunha como uma medida de urgência necessária ao tamanho do hemisfério Norte tornar-se-á logo insuportável.

O confinamento em casa não significa a mesma coisa para quem está numa bucólica casa, com amplo jardim, na província, e para quem está num apertado apartamento.

As provocações inconscientes (ou atos falhos) dos mundanos mostrando seus luxuosos confinamentos quando um terço das populações se expõe quotidianamente à possibilidade de contaminação radicalizarão, como nunca, a agressividade social. A luta de classes tem futuro.

Não é possível reprovar os dirigentes ocidentais por não terem antecipado esta crise, que surpreende todo o mundo. Mas é impossível lhes desculpar por terem agido tão tarde, uma vez que se tornava evidente que ela exigia um reforço da segurança sanitária.

As elites globalistas tardaram em tomar a primeira medida que se impunha: o fechamento das fronteiras. Assombradas pelo medo do nacionalismo, elas continuavam a recitar as fantasias mundialistas e a não acreditar na volta do quadro político que elas, ainda ontem, decretavam o declínio: o Estado nação.

Leitoras de Habermas ou de seus epígonos, elas se imaginavam a vanguarda de uma nova época na qual os eleitos de uma mundialização irreversível e salvadora circulariam sobre o planeta lamentando a existência de povos retardatários hesitantes em se entusiasmar pela promessa do desenraizamento. O pós-nacionalismo era o futuro do homem.


A intelligentsia progressista aproveita-se de uma forma de impunidade ideológica navegando de um erro a outro, ao longo das épocas, sem nunca pagar o preço.

No melhor dos mundos, a gente perceberá uma preguiça intelectual com consequências catastróficas. No pior, percebemos que se trata de uma obstinação em salvar, a qualquer preço, um sistema ideológico esgotado desde há um bom tempo. Era necessário chegar a crise para se ter a confirmação? Na escala da história saberemos que foi uma negligência grave.

É um sistema que desaba e que arrasta as sociedades que ele subjugou. Uma elite que faliu. No entanto, aqueles que tudo fizeram para desconstruir a nação ou esvaziá-la da sua substância, pontificam hoje a sua volta. Não fazem a mínima autocrítica. Eles continuam mesmo a fustigar aqueles que nunca deixaram de defendê-la e que foram acusados de reacionários e populistas. A intelligentsia progressista aproveita-se de uma forma de impunidade ideológica navegando de um erro a outro, ao longo das épocas, sem nunca pagar o preço.

E, no entanto, quando sairmos desta crise, nós deveremos repensar as bases de uma civilização que se tornou inóspita ao ser humano e às suas elementares aspirações. Será necessário escutar aqueles que ainda ontem eram amaldiçoados, e se perguntar se alguns párias não assumiram, de fato, a função profética gritando no deserto que o mundo que aí vinha mutilava a humanidade privando-a dos seus bens essenciais.

O homem tem necessidade de uma morada, não se pode tratá-lo como uma cobaia. Não é possível transformar uma sociedade em laboratório a céu aberto de experimentos aleatórios e arriscados. Estas verdades esquecidas reencontrarão o seu lugar na cidadania.
Título e Texto: Mathieu Bock-Coté, Valeurs Actuelles, nº 4348, de 26 de março a 1º de abril 2020
Mathieu Bock-Coté é sociólogo e autor de “L’Empire du politiquement correct” (O império do politicamente correto) – Edições Le Cerf, 2009.
Tradução: JP, 9-4-2020

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