sábado, 25 de abril de 2020

A régua flexível da imprensa

Para os aliados políticos, um viés sempre favorável. Para os demais, a condenação imediata

Ana Paula Henkel

O Massacre de Boston, o conflito histórico na América colonial que energizou o sentimento antibritânico e abriu caminho para a Revolução Americana, começou com uma briga de rua e transformou-se num massacre.

Na noite de 5 de março de 1770, numa Boston coberta de neve, oito soldados britânicos, liderados pelo capitão Thomas Preston, confrontaram uma multidão de colonos que se reuniram para protestar do lado de fora de um dos prédios da Coroa britânica. Ignorando o comando de Preston de dispersar, a multidão enfurecida se aproximou, jogando bolas de neve, pedaços de pau e conchas nos militares.

Quando um dos objetos atingiu o soldado Montgomery, ele disparou sua arma depois de ter gritado aos compatriotas: “Maldito seja, fogo!”. Os testemunhos variam quanto ao que aconteceu a seguir, mas todos terminam com a tropa disparando contra a multidão. Quando a fumaça se dissipou, três pessoas tinham morrido e várias outras ficado feridas, duas das quais morreram mais tarde.

Após os acontecimentos do evento que se tornou um dos mais importantes da história americana, a indignação dos colonos obrigou o governo a prender Preston e seus homens. Eles foram acusados de assassinato e de “ser movidos e seduzidos pela instigação do diabo e de seus próprios corações perversos”.

Nos meses que antecederam o julgamento dos soldados britânicos, uma batalha na mídia foi travada entre legalistas e patriotas quanto a quem era o culpado pelo incidente.

Um lado, sem atentar aos importantes detalhes do mortal evento, tentava incansavelmente incendiar a opinião pública e o júri contra os soldados em manchetes sensacionalistas em que eram caracterizados como “bárbaros ferozes sorrindo para suas presas”.

Duzentos e cinquenta anos depois, ainda é possível ver os frutos obscuros dessa imprensa que, sem se aprofundar nas investigações dos fatos, vilipendia e agride não apenas a verdade, mas a inteligência de cada um de nós. Divisões ideológicas fazem parte do mundo há séculos, mas talvez estejamos testemunhando um dos períodos de maior animosidade no campo político e que anda empurrando o antigo jornalismo investigativo para a rasa militância do proselitismo barato.

Em meio a uma crise pandêmica histórica, não sobra muito espaço para tantas notícias relacionadas à corrida eleitoral presidencial norte-americana como em anos passados. Bem, espaço até há, o que não há é vontade de grande parte da imprensa, ou assessoria do Partido Democrata, como queiram, para questionar, expor e até investigar as últimas graves alegações de Tara Reade, ex-secretária de Joe Biden, de agressão sexual.

As principais publicações da mídia, que deram total cobertura das alegações de Christine Blasey Ford contra Brett Kavanaugh, o então candidato à vaga da Suprema Corte em 2018, até agora “não se interessaram” pela mulher que se apresentou há um mês e acusou o candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, de agressão sexual, no início dos anos 1990, quando ainda era senador.

Quando Christine acusou Kavanaugh em uma reportagem do jornal The Washington Post, em setembro de 2018, os maiores veículos da imprensa norte-americana deram total cobertura em todas as plataformas. A alegação da vítima estampou jornais e revistas nos seis dias seguintes ao do relatório do Washington Post e prosseguiu sendo repetida incansavelmente durante as semanas que antecederam a sabatina do juiz para a cadeira vaga na Suprema Corte. Democratas, celebridades, cantoras, atrizes e fundadoras de movimentos feministas entoavam pelo país o mesmo cântico: “Acreditem na vítima!”, sem o devido processo ou a devida investigação dos fatos.

A cobertura da atual alegação de agressão sexual por Biden mostra em definitivo que a mídia protege aliados políticos acusados desse crime e tenta destruir aqueles que considera oponentes.

No caso Kavanaugh, Christine Ford não conseguia se lembrar quando ou onde seu suposto ataque sexual tinha acontecido, sua família não a apoiou e não há provas sequer de que ela tenha conhecido Kavanaugh. Por outro lado, Tara Reade alega e relata com detalhes quando a suposta agressão sexual de que foi vítima ocorreu, o irmão diz que ela lhe contou na época, quando trabalhava para Biden em seu gabinete.

Até agora, pouquíssimas linhas foram dedicadas ao caso pelos principais veículos de comunicação, no Brasil ou nos Estados Unidos — nada comparável ao espaço dedicado à investigação que envolvia Kavanaugh. Curiosamente, o canto “Acreditem na vítima!” não vale mais, não para o caso de Joe Biden. Na verdade, atrizes como Alyssa Milano, que publicamente defendeu a acusadora de Kavanaugh (“Acreditem sempre na vítima!”), já endossaram Biden na atual campanha e declararam que o democrata merece o devido processo contra as sérias acusações porque Joe Biden é um homem bom.

Mas não é preciso ir até a América para encontrar o duplo padrão de jornalismo da atual imprensa.

Durante a CPMI das Fake News em Brasília, um depoente fez graves e abjetas acusações de assédio sexual contra uma jornalista. Em poucas horas, jornalistas, celebridades e políticos estavam na internet e em todas as plataformas repudiando a declaração e defendendo a honra da jornalista. Justo.

Mas o mesmo não se viu quando o ator José de Abreu proferiu palavras horríveis contra a atual secretária de Cultura, Regina Duarte. Não lembram? Vamos lá: “Fascista a gente trata no cuspe, vagina não transforma mulher em ser humano”. E quando uma jornalista fez piada pedindo um “sambinha, o Bicho da Goiaba” em um programa de rádio depois de rir da experiência na infância da ministra Damares Alves? A ministra havia relatado que, quando criança, subiu em um pé de goiaba para tirar a própria vida, mas que teve um “encontro” com Jesus e isso a teria feito desistir da ideia absurda.

Damares virou chacota em grande parte da imprensa limpinha, que, na verdade, só protege os que se sentam à mesma mesa político-ideológica.

Não é difícil perceber as razões pelas quais a imprensa mainstream vem perdendo, vertiginosamente, terreno e credibilidade aos olhos de leitores e telespectadores. Além das teorias estapafúrdias sobre eleições vencidas com fake news no WhatsApp ou por “interferência russa”, agora ela insiste em mostrar (em muitos casos, esconder) a adaptável régua moral de suas publicações, que, com vasta e conivente elasticidade, molda os fatos, “fa-tos”, de acordo com seus interesses.

Em 1770, a animosidade apontada contra os soldados britânicos no Massacre de Boston fez com que nenhum advogado tenha se apresentado para defendê-los. Por ideologia, ninguém se interessou em investigar os fatos e o que realmente poderia ter acontecido. Por fim, a ajuda veio de maneira surpreendente na figura improvável de John Adams, um patriota e um dos advogados mais respeitados de Boston. Adams não tinha simpatia pelo governo britânico. Mas, depois de algumas investigações, passou a acreditar que os soldados ​​eram inocentes da acusação de assassinato e que mereciam um julgamento justo.

Adams garantiu a absolvição do capitão Preston, alegando que os homens sob seu comando haviam disparado sem ordem. Os argumentos de um dos futuros Pais Fundadores da América e daquele que se tornaria o segundo presidente do país também levaram seis soldados a ser considerados inocentes, e outros dois a receber um veredito menor de homicídio culposo.

Embora difamado na época, Adams depois refletiu que sua defesa dos soldados britânicos fora uma das melhores peças de serviço que havia prestado ao país. Ele confirmou os princípios da Justiça e o direito a um julgamento justo, independentemente de qualquer predileção ou afinidade ideológica. Como Adams disse em sua declaração final no julgamento: “Fatos são coisas teimosas; e, quaisquer que sejam nossos desejos, nossas inclinações ou os ditames de nossas paixões, eles não podem alterar o estado dos fatos e evidências”.

Querida imprensa, fatos são coisas danadas e teimosas.
Título e Texto: Ana Paula Henkel, Revista Oeste, 24-4-2020, 15h35

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