terça-feira, 18 de outubro de 2016

Nossa limitada razão...

Valdemar Habitzreuter
O homem, por natureza, tem avidez por conhecimento, dizia o filósofo Aristóteles. Temos a capacidade de racional e criticamente refletir sobre a realidade, e isto é filosofar, alargar-se intelectualmente e adquirir sabedoria. Foram os gregos de alguns séculos a.C. que cunharam a palavra filosofia (amante da sabedoria) e que se conservou até hoje.

A longa História da Filosofia teve distintas épocas: a antiga, a medieval, a moderna e a contemporânea. Não é intento meu de apontar as respectivas características de cada uma, basta pesquisar na internet; apenas tecer um breve comentário a respeito da filosofia medieval que teve o seu mais longo período, mais ou menos do sec. V ao sec. XV, portanto, um período de mil anos, com grande apelo às questões da Igreja cristã emergente.

Dizem alguns estudiosos que foram séculos obscuros da filosofia em que ela sofreu um grande atraso devido ao cristianismo que começou a despontar com força, fazendo com que a filosofia ficasse engessada e tivesse o status de serva a serviço da teologia cristã.

No entanto, isso não corresponde inteiramente à verdade. Houve, sim, sem dúvida, um direcionamento da filosofia para as questões metafísico-religiosas, como a existência de Deus, a alma, etc..., com que a religião se ocupava para fortalecer suas crenças, mas isso também era notável filosofia; os filósofos gregos antes da era cristã também se envolveram em questões metafísicas dessa ordem (vide Aristóteles com seu primeiro Motor..., Platão com seu mundo das Ideias...), embora num viés puramente racional sem se envolver propriamente em questões religiosas.

Assim, o cristianismo quis também valer-se da filosofia para ter argumentos fortes em sua defesa. Daí toda patrística latina e grega e seus representantes como iniciadores do movimento filosófico em defesa da fé cristã. Nomes como Sto. Agostinho e S. Tomás de Aquino notabilizaram-se como grandes filósofos da Igreja nesse período medieval.

Uma questão muito abordada filosoficamente na Idade Média – a que quero chegar neste texto -, de viés puramente racional, foi a questão da existência de Deus. Nesta empreitada destacou-se brilhantemente Sto. Anselmo com sua prova ontológica (ontologia significa o estudo dos seres; ontos em grego=ser), sem a interferência da fé para se ter a certeza da existência de Deus.

Sto Anselmo afirmava que Deus é “o ser do qual não é possível pensar nada maior”. Mas, acrescentou: “o ser do qual não é possível pensar nada maior não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior. Se, portanto, o ser do qual não se pode pensar nada maior existisse somente na inteligência, esse mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, torar-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que certamente é um absurdo. Logo, o ser do qual não se pode pensar nada maior existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade”. Pensar o ser existindo na realidade é algo maior do que tê-lo somente na ideia.

Este argumento imperou séculos afora sem que ninguém pudesse contestá-lo pelo rigor da lógica. Mesmo Descartes, o pai da filosofia moderna, se valeu desse argumento como sendo um pensamento claro e distinto para fundamentar sua filosofia na admissão da existência de Deus.

Entrementes, Tomás de Aquino teceu críticas a este argumento, dizendo que o conhecimento de Deus se dá antes de tudo pela experiência causal. Tudo o que existe é efeito de uma causa. Você, por exemplo, existe como efeito causal de teus pais, e estes, por sua vez, de seus pais... e assim, por diante; mas racionalmente, somos instados a admitir uma causa que é causa primeira e que não é causada por outra causa – esta causa primeira seria Deus, a causa de todas as causas. As cinco vias de Aquino para provar a existência de Deus se fundamentam nessa perspectiva causal. São provas ‘a posteriori’, isto é, vemos e experimentamos a criação para deduzir as causas e, ipso facto, admitir uma causa primeira incausada.

Santo Anselmo, ao contrário valeu-se do expediente ‘a priori’ para formular seu argumento, isto é, sem passar pelo crivo da experiência dos sentidos. Simplesmente já postulou a existência de Deus e a partir daí teceu seus argumentos racionais para provar sua existência que, por sinal, de lógica impecável e de grande poder de convicção.

E esta questão de provar a existência de Deus também foi objeto da filosofia de Immanuel Kant na era moderna. Ele refuta tanto o argumento ontológico de Sto. Anselmo como as provas de S. Tomás de Aquino.

Kant, ao analisar criticamente a razão humana, chega à conclusão de que há um limite para a razão humana no que tange a conhecer realidades ditas transcendentais, como Deus, a alma..., sem o respaldo da experiência sensível e conceitual. Só podemos pensar Deus, diz ele, e tê-lo como uma ideia, mas não podemos apresentar provas de sua existência.

A existência é um requisito para o ser se apresentar aos nossos sentidos como fenômeno que se nos mostra; a coisa em si do fenômeno – sua essência - que Kant chama de ‘noumeno’, nos é vetado conhecer, limitado que somos pela nossa razão. Como a ideia de Deus é puro ‘noumeno’ que transcende a nossa razão, sem o respectivo fenômeno para que nossos sentidos possam atestar sua presença, não temos provas da sua existência. Temos, portanto, apenas a ideia de Deus. Se existe ou não na realidade não o sabemos.

Bom, isto foi apenas alguma pincelada sobre um vasto e empolgante assunto a que a filosofia se dedicou e ainda se dedica... Filosofar é isto: o desejo de conhecer e saber. Para a filosofia não há a verdade definitiva, mas sempre aberta a novas indagações...
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 18-10-2016

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