domingo, 30 de outubro de 2016

O pensamento de Roger Scruton

João Pereira Coutinho

O filósofo britânico conservador Roger Scruton, que agora tem seus livros lançados no país, contrapõe-se a algumas das linhas mestras do pensamento progressista pós-Maio de 68. O pensador critica a "cultura do repúdio", que nega as bases da modernidade, e o relativismo ocidental que tudo compreende e perdoa.


Roger Scruton fala sobre seu livro "Filosofia Verde" em 2012

Anos atrás, recebi o telefonema de um amigo com uma pergunta inusitada: "Você vai assistir ao Scruton?". Estranhei. Assistir? Scruton?

Ele explicou: Roger Scruton, um dos mais importantes filósofos conservadores vivos, estava em Portugal para uma palestra. A dita cuja seria na Universidade Nova de Lisboa, a dois passos do meu apartamento. Faltavam dez minutos para o início.

Saí de casa, caminhei até a universidade e encontrei uma sala pequena que me pareceu gigante: estavam seis pessoas e o próprio Scruton. Sentei-me, o autor começou a sua dissertação (sobre a "common law" inglesa, creio), e a estranheza instalou-se nos meus neurônios: como explicar a desolação do cenário?

Se Scruton fosse um perigoso revolucionário (ou reacionário) e se Portugal vivesse sob uma ditadura de direita (ou de esquerda), a deserção seria compreensível. Mas clandestinidade em democracia é uma contradição nos termos.

Acontece que Scruton é um perigo, sim, por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar, porque o pensador britânico é um brilhante escritor. As ciências humanas estão colonizadas por criaturas pedantes e vácuas que fizeram da opacidade uma ilusão de respeitabilidade.

Scruton, que se considera herdeiro estilístico de T.S. Eliot, escreve com uma elegância a que a filosofia acadêmica já não está habituada. Nesse quesito, convém recordar as palavras de Nassim Nicholas Taleb sobre a condenação à morte de Sócrates em Atenas: "Existe algo de terrivelmente desagradável, alienante e sobre-humano em pensar com demasiada clareza".

Mas o verdadeiro perigo de Scruton estava no fato paradoxal de ele ser um conservador que defende princípios quase iluministas no meio do caos pós-iluminista. A afirmação pode soar herética para quem vê iluminismo e conservadorismo como inimigos genéticos.

Um erro. Se descontarmos a evidência de que muitos autores conservadores (Hume, Burke etc.) são tributários do iluminismo britânico, é importante lembrar que o conservadorismo é uma ideologia reativa (ou "situacional", como diria Samuel P. Huntington) que defende valores ou princípios ameaçados em determinados momentos históricos.

Para Scruton, esses valores ou princípios se traduzem, hoje, na busca incessante da verdade (contra o relativismo epistemológico que deixou um rastro de destruição nas "humanidades") ou na defesa da natureza humana e de valores morais objetivos, e não contingentes (contra o relativismo ético que tudo compreende e tudo perdoa). No século 18, a "cultura de repúdio" (expressão do autor) estava nos revolucionários que pretendiam destruir as tradições ou instituições que fizeram a grandeza da Europa. No nosso tempo, a "cultura de repúdio" está nos intelectuais que pretendem reverter o "adquirido civilizacional" da própria modernidade.
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Título, Imagem e Texto: João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 30-10-2016

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