quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Jornais com causas mais altas do que a prosaica notícia

José Mendonça da Cruz

Dois pequenos episódios para o debate sobre se o Diário é realmente de Notícias e se a opinião Público-ada tem a ver com os factos:

Por razões misteriosas DN e Público decidiram combater o presidente eleito de um país democrático estrangeiro. Assim, todos os dias apresentam historinhas sobre Donald Trump com que pensam demonstrar o bom fundamento da sua irritação e nojo. Ontem e hoje foram mais duas.

A primeira história tem a ver com «dois oleodutos controversos» cuja construção Trump autorizou, os quais, segundo os dois jornais, Obama vetara, e que agora vão prejudicar populações e ambiente. Esta é a história.

Agora, a realidade que DN e Público ignoram ou que, caso não ignorem, omitem deliberadamente: os dois oleodutos foram, de facto, chumbados por Obama, mas foram-no contra a opinião do seu próprio departamento de Estado e do estudo científico mandado fazer por este, segundo o qual a construção das condutas teria impacto desprezível sobre solo, áreas pantanosas, recursos aquíferos, vegetação, peixes, vida selvagem, e efeito de gases de estufa. A construção dos oleodutos tinha ainda o apoio de sindicatos e da maioria dos americanos (em sondagem), embora não de Obama e da militância ambientalista. O primeiro ministro da Energia de Obama, Steven Chu, explicou mesmo que «a decisão sobre a construção foi política e não científica». Os dois oleodutos transportariam (transportarão) 1,4 milhões de barris diariamente, de forma muito mais segura do que por camião ou comboio, como atualmente.

Mas, claro, Obama é santo e os nossos media seus profetas, pelo que contrariar a ciência, os sindicatos, o próprio governo e a maioria da população só revela sabedoria e visão.

A segunda história é sobre o muro entre EUA e México. A julgar pelos media portugueses não existe qualquer muro ao longo da fronteira entre México e EUA, é apenas a perfídia trumpiana que pretende erigi-lo. Esta é a história.

Em Campo, Califórnia, EUA. Um 'vigilante' civil, das brigadas noturnas, procura pela presença de imigrantes ilegais. Foto: Getty Images

A parte do muro que separa Sonora, no México, de Nogales, Arizona, EUA. Imagem: Getty Images

Nogales, separada pelo muro. Imagem: Getty Images
Agora a realidade: a fronteiro méxico-norte-americana tem 3094 km de comprimento. O muro completo separaria (separará) o México dos estados americanos da Califórnia, Arizona, Novo México e Texas. A extensão da fronteira com a Califórnia é de 220 km; a vedação estende-se, hoje, ao longo de 185 km. A extensão da fronteira com o Arizona é de 597 km; estão construídos 490 km de vedação ou muro. A fronteira com o estado do Novo México tem 290 km; estão construídos 186 km; é no estado do Texas que há menos muro construído (e mais policiamento): a fronteira estende-se ao longo de 1980 km, estando construídos 184 km de muro.

Assim, e segundo os nossos media, as centenas de quilómetros de muro construídos ou não existem apesar de se verem, ou, caso existam, são de geração espontânea. É isto que dizem aos seus leitores.

Eis, pois, em duas pequenas historinhas, dois pequenos instantâneos sobre preguiça ou desinformação (escolha que deixo ao gosto de cada um).

Eis, ainda, uma terceira historinha: já sabemos que segundo os nossos media a oposição ao governo não deve fazer oposição, e se os partidos apoiantes do governo não o apoiam a culpa é da oposição. Na esteira deste credo, a Sic contou e mostrou-nos que, hoje, na AR, PS, PCP, Bloco e Verdes zurziram o PSD devido às «contradições» sobre a TSU. A Sic deixou-nos ouvir e ver governantes e deputados do PS, do PCP, do Bloco e dos Verdes. Do PAN e do PSD é que não.

Donde, a crer na Sic, o PSD entrou mudo e saiu calado. A menos que não tenha sido assim, e, então, deve-se a «erro técnico» ou a critério editorial (de novo, escolha cada um).
Título e Texto: Jorge Mendonça da Cruz, Corta-fitas, 25-1-2017

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