terça-feira, 30 de maio de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Anomalia gravitacional

Aparecido Raimundo de Souza

PERISCLÉCIO ENCONTRA o amigo e compadre Arnóbio Sisudo no bar do Miráculo, onde haviam marcado vinte minutos atrás, por telefone.
Pedem um café, se acomodam numa mesa de fundo e começam a conversar. Perisclécio parece preocupado com o companheiro. Realmente está. Em razão disso, vai direto ao assunto.
Perisclécio - Eu soube, pela Belinha, minha empregada, que é amiga da sua secretária do lar, a Lurdinha que a comadre Isaltina anda conversando com a bacia da privada. Essa história procede Arnóbio?

Arnóbio – Sim, compadre Perisclécio. Infelizmente é verdade.
Perisclécio - Meu Deus, que loucura!
Arnóbio - Pois é amigo. Só me faltava essa. Veja a minha situação. A que ponto chegou. Não sei o que faço... perdi rumo, o prumo, o chão...
Perisclécio - E como soube disso? Colocou câmera no banheiro?

Arnóbio - De forma alguma. Isso seria invasão de privacidade...
Perisclécio – Por um lado ia ser legal. A Lurdinha tem uma bunda...
Arnóbio – Você só pensa em sacanagem, Perisclécio. Te chamo aqui para lhe expor um assunto sério e você vem me falar do traseiro da Lurdinha?

Perisclécio – Perdão, compadre. Não é de hoje e você sabe disso, que sonho com os fundilhos da Lurdinha. Tudo bem. Esquece o que eu disse. Então, voltando ao seu caso. Como soube dos fatos?
Arnóbio - Você não imagina. Comecei a juntar pontos e nós.  Algumas conversas aqui e ali.

Primeiro a Lurdinha conversando com as amigas ao telefone, entre elas, a Belinha. Depois nossa filha com o namorado. Meus netos, com essa história, nem se fala. Estão meio que abobalhados. Concluindo: diante desses fios soltos, passei a observar. Discretamente. A princípio, pensei que a Isaltina falasse ao telefone. Mas ao final de trinta dias, percebi que me enganei...

Perisclécio - Como sabe que se enganou?
Arnóbio – Sua comadre não usa celular no banheiro. Toda vez que entra para as necessidades fisiológicas, ou banho, o aparelho fica na cozinha, sobre aquele armário cheio de mantimentos que você nos deu de presente de casamento. De mais a mais, ela tem ojeriza a esse tipo de modernidade.
Perisclécio - Ojeriza?

Arnóbio – Por certo. Ela fica braba com nossos netos. Eles levantam com o celular, tomam café com celular, almoçam com o celular. Dormem com o celular. Isaltina grita, esbraveja, mas qual o quê!
Perisclécio - Sei como é isso. Meus filhos não ficam atrás. Pois bem, voltando ao nosso papo, como chegou à conclusão que a comadre Isaltina falava com a... com a bacia da privada?
Arnóbio - A própria me contou...
Perisclécio – A comadre abriu o jogo?

Arnóbio - Não, seu burro. Presta atenção. A bacia. Andei dando uns “chega pra lá” nela... por fim confirmou o que todos já sabíamos, mas não queríamos acreditar.

Perisclécio - Espera aí. Deixa ver se entendi. Você deu um chega pra lá na... na bacia da privada?
Arnóbio - Sim.

Perisclécio - E como fez isso? Encostando uma arma na boca da infeliz?

Arnóbio - Você além de não ser nada engraçadinho virou piadista de terceira. Usei de outros métodos.
Perisclécio - Claro. Captei. Você arrancou o acento dela nos tapas, digo, nas bundadas?
Arnóbio – Imbecil paspalho. Vou embora...
Perisclécio - Calma, compadre. Fica frio. Estou tentando tirar a sua preocupação. Sua testa está cheia de rugas. Uma pitada de brincadeira, ajuda a melhorar. Então, me fala: cortou a corda da descarga?

Arnóbio - Você é mesmo um palhaço. Vou mandar você pra pu...
Perisclécio – Pula essa parte. Pula essa parte. De mais a mais, você sabe que não vou pra lugar nenhum que me mandar de cabeça quente. Relaxa. Respira. Toma o café. Vai acabar esfriando.
Arnóbio – Ok.

Perisclécio - Muito bem. Fala logo de uma vez, compadre. Afinal de contas não sou adivinho. Como deu um chega pra lá na... na bacia da privada?
Arnóbio - Inicialmente tivemos uma longa conversa...

Perisclécio - Uma longa conversa?
Arnóbio - Sim. Amistosamente. Fiz perguntas. Ela nada. Não quis abrir o jogo. Insisti.
Perisclécio – E...?

Arnóbio - Como continuasse intransigente, argumentei que aceitaria uma delação premiada. Todavia, não revelaria a fonte. Ficaria só entre nós.
Perisclécio - Aí ela entrou na sua.

Arnóbio - Qual o quê! Continuo de guarda fechada. Aí me bateu uma ideia. Fui objetivo. Ameacei deixá-la cheia de merda, por uma semana: “se você não me contar a verdade, se não colaborar, deixarei você entupida de merda, até o pescoço”.
Perisclécio - Kikikikikikikiki... bacia de privada tem pescoço? Não sabia! Deve ser engraçado. Acaso quando ela sai pra passear mais o bidê, o lavabo, ou a banheira, usa alguma gargantilha, cordão de ouro, perfume...?

Arnóbio – Vá te catar, seu inconveniente. O caso é sério. Se a bacia tem ou não pescoço, se usa missanga, nada disso vem ao caso.
Perisclécio – Tá, perdão. Você não sabe brincar. Bom e daí...?

Arnóbio - Dai ela pensou, pensou, ficou um tempo calada... por fim, abriu o bico.
Perisclécio - O bico?
Arnóbio - Isso mesmo. Contou tudo.
Perisclécio - Uauuu! E o que ela contou?

Arnóbio - Que Isaltina, realmente, conversava. As duas têm tido longos papos. Viraram amigas. Chegaram a trocar confidências. Sabia que até um diário está sendo escrito?
Perisclécio – A bacia da privada está escrevendo um diário?
Arnóbio – Deixa de bancar o idiota, Perisclécio. Bacia lá sabe escrever?

Perisclécio – Sei lá.  Nessa altura do campeonato e em face do que está me revelando, tudo é possível. Esquece. Viajei na maionese. Continue...
Arnóbio – Diante dessas revelações, eu seria excessivamente boçal se não levasse esses fatos ao conhecimento de um especialista.
Perisclécio - Especialista?

Arnóbio - Perfeitamente. Procurei um médico de cabeça.
Perisclécio - Sei, um cabeçudo?
Arnóbio - Mais uma brincadeira sua, vou me levantar daqui e deixar você falando sozinho.  Fui a um psiquiatra.
Perisclécio – Fez bem, compadre.  E ele?
Arnóbio - Tomou a decisão que eu imaginava que um doutor conhecedor dessas causas fora do comum faria.
Perisclécio - Não enrola. Qual a atitude do médico?

Arnóbio – Essa é a melhor parte, Perisclécio. Pelo amor de eus, não ria. Sou capaz de jogar esse café nos seus cornos.
Perisclécio – Fala de uma vez. Não enrola.
Arnóbio – O doutor pediu, compadre Perisclécio, pediu que eu levasse a bacia da privada no consultório dele para uma conversa de pé de ouvido com ela.

Perisclécio cobriu o rosto com as mãos. Abriu a boca, espantado. Estava, realmente espantado. Na verdade, queria cair na gargalhada. Rir até dizer chega. Entretanto, ponderou a tempo de evitar uma tragédia. Não seria legal, evidentemente, tendo em vista a situação caótica do pobre do compadre. Sem contar que tal atitude poria fim à longa amizade existente entre ambos. Indicar um médico, então, seria o cúmulo. Será que ele estivera mesmo em um psiquiatra?  Pelo sim, pelo não, melhor seria deixar aquele assunto delicado, aliás, delicadíssimo, de lado. No esquecimento.

Disfarçando o quanto lhe foi possível, para não cair em riso incontrolável, alegou precisar chegar até o banheiro. Antes de sair de cena, virou para o balcão e pediu à Miráculo que trouxesse mais dois cafezinhos. Dessa vez, com leite, acompanhado de dois pães com manteiga, no capricho.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Brasília, Distrito Federal. 30-5-2017

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