sexta-feira, 19 de maio de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Vício frenético

Aparecido Raimundo de Souza

1
O TELEFONE toca e a velhinha leva uma eternidade enorme para se levantar do sofá e caminhar até o aparelho que se esgoela ao lado da cristaleira. Finalmente consegue atender.
- Alô, quem é? Quer falar com quem?
- Boa noite, minha senhora. Por favor, é da residência do seu Noronha?
- Aqui não tem ninguém com esse nome. O senhor ligou para a residência errada.
- Quem mora aí, senhora?
- Orfeu.

- Morfeu?
- Orfeu, senhor, Orfeu. Mas ele não está.

- Estranho! Me falaram que nesse número eu falaria com o Noronha...
- Quem lhe passou essa informação?
- Um tal de Bigorna.

- Bigorna? Não conheço. Ele é seu amigo?
- Quem, o Noronha?
- Não, moço, o Bigorna.
- Nem sei quem é.

2
- Como esse Bigorna lhe passou então o número do Orfeu?
- Foi assim, madame. Eu liguei para um número e atendeu uma menina. Procurei pelo Noronha e ela me passou para o pai. O sujeito, por sua vez veio ao aparelho. Foi até um tanto indelicado comigo e depois de um curto diálogo que tivemos me informou que aquele número já havia sido do Noronha e agora não mais. Nessa confusão, me passou o seu telefone. Por essa razão estou ligando.

- O senhor ligou os números corretamente?
- Por certo, senão não estaria falando com a senhora.

- Vai ver o senhor discou algum algarismo errado. No lugar de discar um, discou oito, ou no lugar do três riscou cinco. Às vezes, na pressa, a gente acaba fazendo isso... eu mesma passei por esse incômodo por diversas vezes.
- Não acredito nessa possibilidade madame.
- E por que não?

- Seu número de telefone não tem os algarismos oito e cinco.
- Falei aleatoriamente. Não especifiquei nenhum número em particular. Como mencionei esses, poderia ter dito zero, quatro ou dois...

- Ainda que desta forma seu telefone não possui nenhum desses números.
- Então, meu amigo. Não vamos bater em ferro frio, nem gastar vela com defunto ruim. Como lhe falei, e agora repito, aqui não tem nenhum Maconha. Passe bem. Boa...

3
- Espere, espere. Por favor, senhora. Não é Maconha, é Noronha. Olha só. Eu não sou criança. A madame menos ainda. Claro, não fosse tão urgente não estaria importunando. Mas veja só. O seu Bigorna me garantiu que esse número seria do Noronha. Assim, eu insisto...
- Senhor, como é a sua graça?
- Sham Chum Chimchim madame.
- O senhor é japonês?
- Chinês.

- Entendo. Veja bem, seu Sam. Esse número está aqui em casa há exatamente vinte e cinco anos. O senhor não acha que é um tempo mais que suficiente para alguém garantir, com exatidão, ao prezado, que esse terminal é ou deixa de ser do tal do... Harmonia?

- Noronha, madame. O nome da pessoa é Noronha. E o meu, Sham. A senhora pronunciou meu nome de forma errada. Me chamou de Sam.
- Não é Sam?
- Não, senhora. É Cham.

- Desculpe, eu lhe chamei de Sam? Que loucura...
- Chamou. Tudo bem. Deixa pra lá. Voltando ao Noronha. Puxe pela memória... de repente...
- Noronha, Noronha...
- Isso. Noronha. Talvez por lapso tenha se esquecido. Pode ser que ela faça parte do seu círculo de amizades, ou do seu relacionamento familiar, uma...

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- O senhor me ofende falando assim. Está me chamando de velha gagá?
- Em absoluto. De onde a madame tirou essa ideia absurda?
- O senhor acabou de frisar: “por um lapso”. Não tenho lapso, senhor Sam. Estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais. Imagine se iria esquecer o nome de alguém, ou de uma pessoa que faz ou fez parte do meu círculo de amizades? Se ainda fosse um nome difícil, como o seu, vá lá, mas Colônia...?

- Madame, Noronha. Noronha. Lembra do Fernando?
- Fernando? Que Fernando?
- De Noronha.
- Não conheço nenhum Fernando de Pamonha.
- Meu Deus do céu madame. Tem alguém em casa junto com a senhora?

5
- Sim!
- Quem?
- Para que o senhor quer saber?
- De repente, se a senhora chamasse...
- Outra vez me taxando de maluca? Escuta aqui seu Sam...

- Sham, senhora. Sham... por tudo quanto é mais sagrado. É a terceira ou a quarta, vez, sei lá, que a madame esquece meu nome.
- Pois então, seu... seu...
- Está vendo? Na mosca!

- Calma. Não precisa repetir. Concordo que seu patronímico seja um pouco fora do comum, mas... como lhe falei e volto a repetir, pela quinquagésima vez, seu Vam. Aqui não tem nenhum Bolonha. O senhor, efetivamente ligou para o lugar errado.

- Dona... perdão... madame... meu nome e Sham, Sham, Sham. E o cidadão que procuro não se chama Bolonha e sim Noronha.
- Então, isso mesmo: aqui não tem nenhuma pessoa com esse nome. Passe bem, seu Pam.
Inopinadamente a velhinha desliga na cara do cidadão.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Aparecida do Norte - São Paulo.  19-5-2017

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