quinta-feira, 11 de maio de 2017

Carta a um jovem esteta

João Pereira Coutinho

Meu caro Amigo,

Obrigado pela sua carta.
Recebia-a hoje de manhã e fui lendo durante o dia. Sou bicho de compreensão lenta, mas de infinita bondade. Vou responder a todas as suas perguntas, uma por uma, e no final V. envia o cheque. Brinco. Não brinco. Quero mesmo esse cheque. Sim, Rilke tinha vícios baratos.

Pergunta-me V., com sereno entusiasmo, se assisti aos Óscares do passado domingo. Entendo. Os Óscares são o acontecimento midiático do ano. Realizador que é realizador teve, ou tem, a estatueta sobre o armário. Como Capra, que ganhou três. Ou John Ford [foto abaixo], de quem ambos gostamos, com quatro. Mas não se esqueça de todos aqueles que morreram sem igual prazer. Citar Fellini ou Bergman seria demasiado fácil: os europeus não entram na contagem, certo?


Mas o que dizer de Chaplin ou Hawks, nomeados uma única vez e ganhadores nenhuma vez? Para não citar Hitchcock (ou King Vidor), que passaram cinco vezes pela passadeira vermelha e voltaram para casa. De mãos vazias.

O problema, porém, é mais fundo. Não vi os Óscares porque, confissão pessoal, nunca fui entusiasta de ‘filmes políticos’. Conhece o gênero: filmes sobre temas ‘importantes’ que conferem um PH.D. instantâneo a qualquer analfabeto que entre na sala de cinema. Só este ano, vários conhecidos meus fizeram doutoramentos em história do Médio-Oriente (depois de Syriana ou Munique) e um deles tirou um mestrado em jornalismo (infelizmente, adormeceu a meio de Capote). Eu entendo: num tempo em que ler é uma perda de tempo, nada melhor do que a ilusão de que um filme confere sabedoria necessária para entender o mundo.

Infelizmente, não confere. Boa Noite e Boa Sorte é filme competente sobre a perseguição aos comunistas na década de 50? Sem dúvida. Mas seria desnecessário que George Clooney apresentasse Annie Moss como faxineira débil e semiletrada perante a inquisição de McCarthy. Annie Moss era membro do PC. Mesmo. Não que isso retire indignidade às perseguições de McCarthy. Mas fatos são fatos.

E, por falar em fatos, entendo a mensagem simpática de Munique: não devemos responder ao terrorismo com as práticas próprias dos terroristas. Mas, pergunto ainda, será legítimo colocar no mesmo plano terroristas que matam civis (como nos Jogos Olímpicos de 1972) e agentes policiais que matam terroristas?

Sobre os caubóis gays, nenhum comentário: só um inocente acredita que uma história entre dois homens continua a ser, hoje, o amor que não ousa dizer o seu nome. Pelo contrário: é um amor que não se cala, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, sete dias por semana. Ah, sobra Crash, denúncia antirracista que ganhou o Óscar da noite. Uma confissão a respeito do tema: eu preferia ser imigrante nos Estados Unidos do que em qualquer parte do mundo. Europa incluída.

Mas a arte ‘política’ não é apenas simplificadora e ignara. Ela acaba por morrer com o seu tempo. Eu acredito que The Best Years of Our Lives, Óscar em 1946, seja um documento tocante e pacifista sobre o regresso dos soldados americanos depois da Segunda Guerra. Mas eu aposto que, todos os Natais, não é o filme de Wyler que V. gosta de rever na televisão. É It’s a Wonderful Life, de Capra, que aliás perdeu o Óscar para Wyler no mesmo ano.

Eu sei que In the Heat of the Night [foto abaixo], vencedor em 1967, é uma denúncia ‘corajosa’ e ‘necessária’ (é assim, não é?) da tensão racial nos Estados Unidos. Mas, aqui entre nós, não é mil vezes preferível rever The Graduate, perdedor no mesmo ano, com uma Anne Bancroft que inicia Dustin Hoffman nos seculares prazeres da cama? Aposto que todas as amigas da sua mãe ganharam aos seus olhos outros contornos. Mais, digamos, humanos. Confesse, confesse.

Sidney Poitier e Rod Steiger

Meu caro amigo: a grande arte não vive de Bush, do petróleo árabe ou da martirologia gay que faz as delícias da brigada. A grande arte não vive do ruído que vem, do ruído que passa. A grande arte vive do que é permanente e, se me permite, só a natureza humana é permanente. É com ela que V. terá de lidar. Para que, daqui a uns anos, eu possa ler e reler a sua prosa pela manhã. Como se fosse a primeira vez.

Um abraço imaginário,
João 
Título e Texto: João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 8-3-2006, in ‘Avenida Paulista’, Edições Quasi, maio de 2008, páginas 77 e 78.
Digitação: JP

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