sábado, 21 de abril de 2018

Humilhadas e ofendidas

Alberto Gonçalves

O problema põe-se ao contrário: a maioria das senhoras (e dos cavalheiros, calculo) é competente o bastante para evitar a política e deixá-la ao cuidado dos que, independentemente do sexo, não são.

“Terão os partidos mulheres suficientes para as listas?”, aflige-se o “Diário de Notícias”. É extraordinário. Por um lado, que, com cerca de 72 leitores (contando comigo), o “Diário de Notícias” continue a existir. Por outro, que a misoginia vigente insista em aumentar por decreto a “participação” feminina na política, agora elevada a 40%.

Não é por acaso que a “participação” leva aspas. A relativa escassez de senhoras nos partidos sempre foi um indício da higiene daquelas e da sujidade destes. Desde tempos imemoriais, é sabido que, com excepções tão raras quanto dignas de estudos científicos, apenas chafurdam nesse meio criaturas rotundamente incapazes de prestar qualquer tarefa válida à humanidade ou sequer ao condomínio lá do prédio. Se alguém demonstra uma absoluta inaptidão para o trabalho e a vergonha na cara, candidata-se a uma repartição das Finanças. Se nem para isso prestar, alista-se num partido, onde poderá exibir a presunção dos simples, traficar “ajudas de custo” e tratar juízes por “pá”. Salvo por um pequeno número de casos perdidos, boa parte das mulheres tem mais o que fazer – sobretudo não fazer figuras tristes. E é triste que, por obra e graça de políticos, uma quantidade crescente de fêmeas da espécie se vejam arrastadas pela e para a lama. Dada a ética do sector, e a necessidade de “preencher” as “quotas”, imagino algumas convertidas sob sequestro e ameaça de navalha.

Não vou questionar o direito de o Estado intervir nestas matérias: a pergunta seria absurda e, em Portugal, a resposta seria ainda pior. O que é interessante – e notável, na perspectiva do marketing – é que tamanho enxovalho seja vendido a título de “promoção” ou, na versão épica, de avanço civilizacional. Os factos mostram exactamente o oposto. Se o verdadeiro objectivo do exercício é a “emancipação” das mulheres, porque é que esta não se aplica a profissões honradas? Porque é que não se impõem “quotas” nos ofícios de carpinteiro (de limpos e de sujos), camionista (longo e médio curso), trolha, canalizador, futebolista, guarda-nocturno, mineiro, pedreiro, sapateiro, palhaço, etc.? Porque é que o reconhecimento da igualdade se restringe a cargos que diminuem os titulares? Porque é a humilhação que se pretende. Chegar a autarca, administradora pública ou ministra é das menores proezas ao alcance do ser humano: com as “ligações” adequadas, uma grafonola desempenharia funções idênticas com mestria e honestidade superiores.

Aliás, a confirmação de que a “lei da paridade” visa achincalhar especificamente as mulheres está na circunstância de não abarcar critérios “identitários” cujo achincalho é desaconselhado pela moral vigente. Só no que respeita ao “género”, a coisa fica-se pelo tradicional binário e esquece-se deliberada e cautelosamente do próspero sector “trans”. Ninguém propõe a reserva de pedacinhos do Parlamento para os/as indivíduos/as agénero (1,5%, digo eu), bigénero (1,2%), intergénero (0,8%, obviamente), pangénero (idem), nanogénero (aqui hesito), demigénero (já me perdi) e travesti não-binária (chiça). A razão? Ninguém ousa ofendê-los/las/lis/los/lus.

O receio de ofensa também explica a ausência de propostas paritárias para os restantes factores de identidade. Para não insultar os gays, o “sistema” não arrisca bulir na representatividade segundo a orientação sexual. Para não caluniar as religiões, não se sugerem proporções de budistas, muçulmanos, animistas ou presbiterianos. Para não difamar as etnias, não se enfiam à força asiáticos, negros, ciganos, ameríndios ou esquimós nas listas das “legislativas”. Ou uma determinada porção de boavisteiros, ceguinhos, circuncisados, flautistas, vegetarianos ou o que quer que seja que torna a pessoa aquilo que é. Não, senhor: o único “grupo” empurrado à força para a política é o das mulheres, um acto machista, ressentido e quase perverso.

Para cúmulo, os adversários das “quotas” reagem a tamanha infâmia com a lengalenga de que a maioria das mulheres é competente o bastante para entrar na política sem ajudas ou favores estatísticos. O problema, meus caros, põe-se ao contrário: a maioria das senhoras (e dos cavalheiros, calculo) é competente o bastante para evitar a política e deixá-la ao cuidado dos que, independentemente do sexo, não são. Antes e depois do reforço percentual, a “lei da paridade” rebaixa as mulheres e exalta os políticos – adivinhem quem a aprovou.

Nota de rodapé:
A tese dominante assegura que os vídeos dos interrogatórios ao “eng.” Sócrates foram divulgados pelo advogado do próprio. Talvez a tese esteja correcta. Mas se a ideia é a de que aquele repositório de prepotência, ridículo e até alguma maluquice redime o sujeito aos olhos dos portugueses, aconselho o “eng.” Sócrates a trocar de advogado. Ou o advogado a trocar de “eng.” Sócrates. Ou Portugal a trocar de portugueses.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 21-4-2018

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