quinta-feira, 26 de julho de 2018

“Quanto mais lhes bates, menos voto em ti”

Sérgio Barreto Costa

Não sei ao certo qual é o tamanho da ambição política de Nuno Melo [foto]. Contudo, ao escutar os seus críticos na semana passada, estou certo de que poderá chegar, caso tenha vontade, aos mais altos cargos do país. Poucos minutos depois das primeiras notícias sobre o lançamento da campanha do CDS às eleições europeias, já a esquerda aguerrida tratava o eurodeputado centrista como um perigoso nacionalista, racista e xenófobo. É certo que o embaixador Francisco Seixas da Costa, mais moderado, se limitou a caracterizá-lo como populista e anti-imigrantes; e que o deputado João Galamba, mais espirituoso, apenas lhe chamou, com sotaque italiano, Nuno Melvini. No entanto, salvo honrosas excepções, o tom andou à volta do “Viktor Orbán minhoto”, o que constitui, além de uma boa base de trabalho para uma eventual geminação entre o goulash húngaro e as papas de sarrabulho, um excelente prognóstico eleitoral para Nuno Melo.

A primeira coisa que salta à vista nestes exageros retóricos é a típica modéstia portuguesa. “Trump de Famalicão”, por exemplo, é uma expressão que menoriza o político luso e a terra que Camilo Castelo Branco escolheu para enfiar uma bala na cabeça. Uma esquerda com autoestima patriótica diria que Donald Trump é o Nuno Melo da Quinta Avenida; como diz o inverso, colocando o presidente dos EUA no distrito de Braga e não o vice-presidente do CDS em Nova Iorque, continuamos a alimentar hipérboles com a síndrome da pequenez, o que representa a desajustada intromissão do oximoro num contexto em que uma figura de estilo seria suficiente.

Mas o que disse, afinal, Nuno Melo para ser presenteado com tais considerações? Apenas isto: “o espaço europeu pode ser um destino de acolhimento para outros povos, mas estes devem respeitar as nossas leis, valores e costumes, de forma a não nos sentirmos sequestrados na nossa casa”. Ou seja, parece que Nuno Melo não defende a atribuição automática da cidadania europeia a todos os seres humanos que habitam a superfície terrestre. É, de facto, um horror. Qualquer dia, se lhe derem poder, ainda o vamos ver a sugerir a criação de passaportes e de um Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

E esse dia talvez esteja próximo. Agora que aqueles que se dedicaram até há bem pouco tempo a comparar Angela Merkel com Adolf Hitler se viraram para o candidato do CDS, este pode sentir-se abençoado pelo quase infalível toque de Midas eleitoral. Para já, que ainda vamos no aquecimento do absurdo, nada está garantido, mas assim que Salazar for chamado ao barulho, Nuno Melo pode tratar de encomendar os foguetes.
Título e Texto: Sérgio Barreto Costa, Blasfémias, 25-7-2018

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