domingo, 30 de setembro de 2018

A Liga das Senhoras Extraordinárias

Helena Matos

A Liga das Senhoras Extraordinárias diz “machista”, faz uma selfie, coloca tudo no Instagram e espera que o vilão da história desapareça pelos ares. O debate de ideias deu lugar ao fanico.

O grupo de deputadas portuguesas que respondeu positivamente “a um desafio do Bloco” e participou “na fotografia coletiva da campanha internacional #EleNão” (o #EleNão da questão é o candidato Jair Bolsonaro) é uma das manifestações em Portugal desse fenómeno internacional que se pode designar por Liga das Senhoras Extraordinárias.


A Liga das Senhoras Extraordinárias caracteriza-se por manter viva a táctica trotskista da revolução permanente e por simultaneamente ter recuperado das histórias infantis a crença no poder paralisante das palavras mágicas. Só lhes falta a varinha! Ou talvez nem isso porque o que é um “vídeo viral” senão uma varinha mágica?

A Liga das Senhoras Extraordinárias diz “machista”, faz uma selfie, coloca tudo no Instagram e espera que o vilão da história desapareça pelos ares. Todas as semanas as Senhoras Extraordinárias têm uma irritação. Há sempre algo que as enerva muito e as emociona ainda mais. O debate de ideias deu lugar ao fanico.

Os antagonistas das Senhoras Extraordinárias só por serem antagonistas das Senhoras Extraordinárias passam a personificar tudo aquilo que elas dizem combater: logo se elas declaram ser contra o racismo quem não as apoia é automaticamente racista. O mesmo exercício é válido para a misoginia, a homofobia…

Convém não esquecer que o ódio que as Senhoras Extraordinárias votam aos que definem como seus alvos é inversamente proporcional ao servilismo e adoração que mostram perante aqueles que apoiam. Assim por exemplo, as nossas Senhoras Extraordinárias mobilizaram-se contra os riscos de uma vitória de Bolsonaro, mas não se lhe ouve uma palavra sobre o perigo representado pelo candidato Haddad. E o que disseram sobre Lula? E o que calam sobre a Venezuela de Chávez e Maduro? Já agora até podiam aproveitar a mobilização a propósito do assassínio de Marielle Franco para divulgarem os resultados sobre a morte do procurador argentino Alberto Nisman, assassinado na véspera de acusar a então presidente argentina Cristina Kirchner de ter protegido os agentes iranianos responsáveis pelo atentado terrorista a uma organização judaica em Buenos Aires que causou 84 mortos.

Mas as Senhoras Extraordinárias valem pelo que dizem e ainda mais pelo que calam. Aliás é essa combinação de disponibilidade para muito calar enquanto armam uma enorme algazarra que permite às Senhoras Extraordinárias a prática daquele exercício de dizer uma coisa e apoiar o seu contrário com a ligeireza de quem combina um casaco de quadrados com uma saia de bolas: dizem-se feministas mas apoiam uma política de subserviência em relação ao machismo de determinados grupos étnicos e religiosos pois é nesses grupos que acreditam estar os seus futuros eleitores; dizem-se a favor da democracia e da justiça independente mas mal os tribunais não decidem como elas acham que deveriam decidir, lá vêm elas para a rua em manifestações que não hesitariam em classificar como arruaceiras, populistas e justiceiras caso os protagonistas fossem outros…

Claro que também existem Senhores Extraordinários, mas a partir do momento em que na estratégia de agit-prop o ódio de classe deu lugar ao ódio grupal, as mulheres deixaram de ser apresentadas como companheiras ou “feministas burguesas” para se tornarem num coletivo em luta contra o heteropatriarcado branco. Mais um a que se juntam os negros; os homossexuais; os transexuais; os migrantes que também podem ser mulheres e lésbicas; os ciganos que acumulam com o coletivo dos sem casa…

Tudo isto tem momentos ridículos, circunstâncias em que se pensa que o melhor será esperar que passe. O pior é que o palco da luta se deslocou das fábricas para as casas: o simples ato de comer um bife com batatas fritas ou dar alpista ao canário está a caminho de se tornar num dilema político! E obviamente a incapacidade de construir um discurso que não seja uma súmula do que não se quer, produziu esse monstruoso regresso ao passado sob a forma de julgamento.

Não é por acaso que em Espanha o governo de tem como grande meta desenterrar mortos e que nos EUA a escolha de um juiz para o Supremo está transformada numa espécie de inquérito aos tempos da adolescência: o passado tornou-se no tempo em que se faz política. As diversas ligas de Senhoras Extraordinárias por esse mundo foram aplaudem.

PS. Alguém consegue explicar como é possível que as paredes do Tribunal de Vila Franca estejam todas esborratadas com umas alegadas pichações? Durante o caso Maddie tínhamos aquela vergonha diária do edifício da PJ de Portimão a ser mostrado ao mundo. Recordo que a PJ de Portimão funcionava num minúsculo edifício de habitação (a ocupação de andares destinados à habitação por clínicas, centros de saúde, polícias, conservatórias, notários, caixas de previdência… não causou nem um milésimo das preocupações e do alarido gerado pelo alegado excesso de alojamento para turistas!) Agora o caso da morte de Luís Grilo leva-nos àquela espantosa fachada do Tribunal de Vila Franca Xira, coberta de gatafunhos. Os edifícios dos tribunais não têm segurança?
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 30-9-2018

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