quinta-feira, 27 de setembro de 2018

51 tons de dívidas

Haroldo P. Barboza


No final de 2001, fui convidado (com mais dois moradores) para participar da elaboração do novo texto do regulamento (convenção) do nosso condomínio, para registrá-lo e ganharmos um número no CNPJ. Parecia uma tarefa simples: pegar um texto num prédio próximo, juntar com o nosso antigo texto e apresentar o óbvio aos moradores para aprovação geral. Num primeiro momento imaginei que na Assembleia Constituinte antes de 1990, tal procedimento teria ocorrido. Esperávamos leis bem elaboradas, tal o grande número de personalidades reunidas. Até membros da ABL existiam neste grupo. Deu no que deu. Até "ponto-e-vírgula" prejudicou o necessitado (pobre) no momento de interpretar o texto usado para defendê-lo.

Fizemos o trabalho de editar a espinha dorsal do referido texto. Reunimo-nos a cada duas semanas para efetuar os ajustes, no intuito de evitar dupla interpretação das normas. Juntamos várias sugestões de outros moradores. Não pretendíamos incorrer nos mesmos erros das leis que regem a nação. Apesar de não termos a mesma disciplina das forças armadas pretendíamos definir regras fáceis de serem seguidas por todos. É o que está faltando entre os defensores da libertinagem que rotulam de "democracia" o estado de desrespeito às normas começando pelos que deveriam dar o exemplo, mas usam das imunidades "para lamentares" - perdoe o trocadilho – para burlarem as leis em proveito próprio.

Mas começamos a perceber que cada item mais rígido no sentido de permitir uma convivência equilibrada e respeitosa entre nós, era alterado para conceder abertura de interesses das pessoas que se acham mais espertas que a esperteza e não queriam ser punidas pelas suas atitudes menos ortodoxas. E aqueles que aplaudiam e prometiam comprometer-se com o texto em elaboração eram os primeiros a transgredi-los, explicando que a situação do momento justificava a burla. Então propus que para não gastarmos tempo e papel inutilmente nosso regulamento tivesse apenas uma norma: "fica proibida qualquer ação danosa ao prédio ou aos seus moradores, exceto nos casos em que o praticante tenha uma justificativa plausível para não ter se portado de maneira adequada". Pelo visto tudo seria burlado desde que se apresentasse uma "explicação comovente".

Não aceitaram. Então abandonei o projeto. Se for para não cumprir, qualquer texto serve. O registro é mera formalidade para atender uma exigência do banco para aceitar a conta do condomínio. O resto é hipocrisia.

Juntando este espírito reinante nos condomínios da pátria (o nosso não é o único vilão da história), percebemos porque as leis nacionais são amenas para os grandes facínoras. Normalmente as turmas dos gabinetes dos governos e das empresas patrocinadoras de campanhas eleitorais. E bastante rígidas para os pobres de pele não dourada pelo verão. Estes, por falta de permanência nas escolas e oportunidade de leitura regular, não sabem descrever uma "explicação comovente".

E o pior é que este clima se instala na sociedade lentamente, de forma indolor. De repente nos surpreendemos em não desligarmos a tv quando surgem notícias de chacinas em plena hora do jantar. Não tiramos as crianças da sala no momento em que as novelas ultrapassam os limites da ousadia e exibem cenas que derrubam em minutos, valores que levamos anos para implantar nas cabeças confusas dos jovens. Daí já considerarmos "normal" quando na página policial surge um fato relativo ao jovem que matou a avó com pauladas para obter grana para adquirir as malditas drogas que estão destruindo a sociedade sob o olhar complacente das próprias vítimas que se recusam a reagir de forma dura como a situação exige. Já consideramos “honesto” o dirigente público que só desvia 10% dos impostos para sua conta particular. Mal comparando, quando uma pessoa está se afogando, pode precisar levar um forte sopapo para que tenhamos meios de salva-la. E quando vamos socar estes elementos para evitar que nossa nação afunde?

Não estamos empenhados na prioridade ZERO em salvar nosso navio Brasil já com água nos porões. Estamos desperdiçando nossas energias com projetos de prioridade 8, como: final de novelas, paredões do BBBB e enredos de escolas de samba.

Depois deste comportamento de hipocrisia, que moral nós temos para cobrar de nossos dirigentes uma postura exemplar durante o período em que permanecem no poder pela procuração em branco (voto) que lhes entregamos? Os dirigentes de hoje, foram crianças de ontem, que observaram seus parentes dando “jeitinhos”, “molhando a mão” de garçons para furar filas em restaurantes, pais estacionando em local proibido, enganando o vizinho para chegar primeiro numa loja de promoções, comprando produtos paraguaios e por aí afora.

Agora eles estão nos devolvendo na vida pública, os ensinamentos que lhes passamos na vida em comunidade. Aperfeiçoaram as condutas, criaram “esquemas”, passaram a legalizar desvios através de “licitações” e “laranjas” e aí está o resultado. Um país arrebentado, cofres com pouca verba e uma conta para ser paga (por nós) nos próximos 51 anos.
Título e Texto: Haroldo P. Barboza, Rio de Janeiro, 27-9-2018

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