terça-feira, 18 de junho de 2019

Portugal, país-slime

Helena Matos

Estão a ver aquela massa viscosa com que as crianças se entretêm? O slime, claro. Portugal está a tornar-se num país-slime, onde os valores são moldados a gosto e a responsabilidade não existe.


Sou filha, neta, bisneta, sobrinha… dessa gente a quem as elites lisboetas chamavam ratinhos, depois patos bravos, depois empresários de vão de escada, depois os patrões mais estúpidos do mundo ou, vá lá, menos cultos da Europa.

É verdade que não tinham estudado. Alguns, aliás, só fizeram a quarta classe quando precisaram de tirar a carta de condução. Toda esta gente nasceu pobre, num interior longe de tudo mas com uma determinação de viver melhor que chocava com as teses que os cultos, os que sabiam fazer empresas embora não as fizessem, tinham para os libertar, para os fazer evoluir e, diziam, para lhes dar consciência de classe.

Indiferentes a tanto propósito de libertação e de consciencialização, eles fizeram-se à vida. Muitos criaram as tais empresas de vão de escada. Nada disto hoje seria possível. E não porque as empresas de vão de escada tenham dado lugar a grandes empresas, mas tão só porque as empresas para sobreviver precisam agora que os seus proprietários frequentem os gabinetes dos diretores de serviço, dos presidentes das comissões e das autarquias, dos ministros… Que conheçam A e B. Não por acaso nesse mesmo país donde vieram os antigos empresários de vão de escada tornar-se funcionário da autarquia é agora a saída profissional mais ambicionada.

A dependência do poder político, a par da crescente burocracia assemelham-se ao slime, aquela massa viscosa e peganhenta que se tornou um dos brinquedos preferidos das crianças: qual slime, a dependência do poder político e a burocracia entram por todos os poros e imiscuem-se em todos os processos. Por todo o país geram corrupção. Mas fora das áreas metropolitanas à corrupção há a acrescentar um ambiente de bloqueio.

O João Miguel Tavares no seu discurso do 10 de Junho pedia “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Percebo, mas não concordo. Na verdade, aquilo que temos de exigir aos políticos antes de tudo é que nos deixem voltar a acreditar em nós mesmos.

A vida de cada um de nós não pode transformar-se, como está a acontecer, no palco das libertações, ativismos e regulações produzidas, a cada dia, por criaturas que perceberam como a burocracia e o fisco podem impor a um povo aquilo que ele nunca pensou vir a aceitar. E sobretudo roubar-lhe a confiança em si mesmo.

Um funcionário público, um voto. 
No PS, claro. Esta é a estratégia de António Costa para as próximas eleições. A um ritmo diário vão sendo anunciadas as propostas do PS para conseguir mais votos: para já propõe-se acabar com a regra “saem dois funcionários, entra um”. Em cima da mesa estão também aumentos salariais para a função pública. Nos próximos meses a parada continuará a subir. Portugal está transformado num país dividido entre público e privado, com os socialistas claramente a alavancarem o seu eleitorado entre os funcionários públicos. E já nem se esforçam por disfarçar a sua sanha contra os privados como se viu recentemente no processo de não renovação da PPP do Hospital de Vila Franca.

A reserva de índios. 
Na cidade o PEV e o PAN são a favor dos automóveis eléctricos, mas no campo não querem minas para a exploração de lítio. Ora sem lítio não há baterias e sem baterias os automóveis elétricos não andam.  Na cidade todas as almas sensíveis são agora contra o plástico e substituem os sacos de plástico pelos de papel. No campo as mesmas almas sensíveis são contra o plantio de eucaliptos. Ora sem eucaliptos não há pasta para fazer papel. Na cidade eles adoram a dieta mediterrânica, fazem do azeite uma espécie de elixir mas o campo partiram agora em cruzada contra o olival intensivo mas sem olival intensivo não há azeite que chegue para tanta dieta mediterrânica. O país fora as áreas metropolitanas é cada vez mais encarado como uma espécie de reserva etnográfica, onde toda e qualquer atividade que gera riqueza e emprego é vista como descaracterizadora.

A banhada. 
Quando os olhos me caíram naquela imagem de António Guterres, de ar desconsolado e água pelos joelhos, pretendendo com tão insólita figura não estar a fazer publicidade aos serviços de alguma lavandaria, mas sim a combater as alterações climáticas, tive uma espécie de epifania: há um padrão subjacente à relação destas figuras contemporâneas da lusa pátria com a água, seja ela do mar ou dos rios. Senão vejamos. Ou melhor recuemos no tempo. Comecemos por regressar àquele inenarrável Verão de 2018 em que o Governo aprovava as 35 horas na função pública e Marcelo declarava, entre dois mergulhos, que não se podia pronunciar sobre o impacto dessa medida no SNS porque era preciso esperar para ver. Em seguida mudava de calções e de opinião sobre a recondução de Joana Marques Vidal como PGR. Por fim pegava na toalha e desatava a cumprimentar os demais banhistas.

E como esquecer 2017, esse sinistro ano em que António Costa se mantinha em banhos de mar enquanto os sistemas de proteção civil falhavam clamorosamente em Pedrogão, as autoridades davam ordens e contraordens que agravavam ainda mais a tragédia e as vítimas mortais se contavam às dezenas?

… Se repararmos há uma continuidade em tudo isto: depois da era dos Descobrimentos passámos para a fase da banhada.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 16-6-2019

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