sexta-feira, 13 de março de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Quando a meada esquece do fio...

Aparecido Raimundo de Souza

O BARBOSINHA MORAVA no oitavo andar com a mulher e dois filhos. Para azar seu, não havia vizinho, do nono para cima, nem para baixo, até o derradeiro, no quinze, que não jogasse lixo com os detritos desviando a rota (sabe-se lá por qual motivo) e vindo desembocar na sua área. Ou melhor, na sua varanda. Um Deus nos acuda. “Via crucis” para Jesus Cristo nenhum botar defeito.

Cafumélia, a sua mulher, se enquadrava numa dessas conformadas que só existem três no mundo, sendo que as outras duas ninguém nunca sequer viu a sombra:
-- Deixa prá lá, Barbosinha, “mais mau” seria se a gente morasse nos fundos dessa pocilga, de nariz para o morro. Pare de se preocupar, assim você acabará batendo as botas, tendo um AVC ou algo mais grave. Isso, logicamente não é nada. O problema que certamente chamará a atenção é que uma das botas está com a sola furada... Não fosse esse pormenor... 

Barbosinha, entretanto, não se controlava. Indignava os pelos, se transformava numa fera enjaulada quando via cair cascas de banana, de laranja, restos de comida e até peças íntimas, justamente no local onde gostava de se debruçar para olhar a rua e capturar as dondocas peladas no condomínio em frente. Em época de melancia, quase pirava o cabeção. Tinha vontade de se mudar. Qualquer lugar que não tivesse inquilino, do nono andar em diante, estava de bom tamanho.

A patroa, ao ouvir essas lamentações, levava na esportiva e obtemperava cheia de carinho para vender e dar, principalmente dar:
-- Tenha calma, Barbosinha, tenha calma. Daqui a pouco as melancias acabam e você esquece... Sequer se lembrará.
Barbosinha, homem vivido, sabia tudo. Até do nada ou do que não devia, ele manjava. Parecia um elefante amuado com a tromba embaixo das axilas da sua linda e pesada aliá. Aliás, não esquecia, nem por reza forte, coisa alguma. Rememorava, com presteza e desenvoltura, os menores detalhes, como ladainha de cantochão em boca de igrejeiro devoto e prestimoso:

-- Acabam as melancias – gritava ele fora de si e enraivecido – aparecem os bagaços de laranjas, os maracujás, e vêm as jacas. Acabam as jacas, surgem os sabugos de milho. Já pensou, Cafumélia? Sabugo de milho macho é fogo!
Belo despontar de uma nova sexta-feira, levantou, foi ao banheiro, fez a barba, tomou banho, penteou os cabelos, passou um perfume barato adquirido na feira de Acari, e, como sempre fazia, chegou no bendito quinhão que tanto apetecia seu ego. Ao olhar para as sujidades atiradas lá dos cafundós da torre, se viu frente a frente com uma lata de abacaxis em calda.

Procurou para ver se tinha alguma fatia. Qual o quê! O recipiente fora raspado com o xarope e tudo. Se queimou. Barbosinha realmente se queimou. Subiu nas tamancas, rodou a baiana. A ponto de ter visões dantescas de Lula correndo atrás de uma reintegração no seu antigo ofício de metalúrgico. Se emputeceu no sentido exato da palavra. Imbuído na quentura do seu martírio, pegou as escadas (odiava elevadores) e varou no quinze. Pelo caminho, deixou a dentadura no treze.

Apesar de banguelado e suando em bicas, não perdeu a pose. Encostou o síndico na parede. O síndico, por sua vez, saiu pela tangente. Foi direto e reto, aliás, bem taxativo. Disse que seria humanamente impossível fiscalizar todos os cento e vinte apartamentos (oito unidades por andar) para ver e descobrir quem é que tinha a estranha e infernal mania de atirar restos de comida e outras bugigangas janelas abaixo.

Semanas atrás, alguém perdeu a vergonha e descabidamente despachou um cachorro morto. Um cachorro morto, como é do saber geral, é um ser humano sem vida. Pois bem! O animal se espatifou acomodado nos azulejos branquinhos do Barbosinha. Não careceria dizer, contudo, depois desse contratempo inopinado, a criatura pensou em fechar a área com vidro à prova de cães e gatos voadores.

Na caça aos orçamentos para essa finalidade, as lojas especializadas pediram um dinheirão. E todas elas, em comum, explicaram o mesmo texto da cartilha. Se não decidisse dentro de sete dias, haveria um aumento de trinta por cento. Barbosinha ficou brabo. Mais que brabo, pê da vida. Mais que pê da vida. Abordido, amotinado e abrupto. Férvido e alcantilado, bateu às portas da delegacia do bairro para dar queixa dos vizinhos entrelaçados acima da cabeça e dos seus ralos cabelos.

O delegado, dr. Antão Antinha, achou muita graça. Riu pra valer. Argumentou que não podia dar educação aos albergados e, se tivesse a mínima chance, o faria, a começar com os seus. O policial morava no térreo e, em seu caso, especificamente em seu caso, a fuzarca da atiração de coisas se fazia mil vezes maior e mais estafante.

Ponto finalizando a conversa, a autoridade esclareceu:
-- Para o senhor ter uma ideia, em dezembro do ano passado, na noite de natal, imagine, na noite de natal, caiu no meu terreiro, derrubando meu varal cheio de roupas, um helicóptero com quatro presuntos. E acredite, seu Barbosinha, não era da Sadia, embora tivessem todos eles com os selos de garantia do Inmetro.
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 13-3-2020

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