sexta-feira, 6 de março de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Estopins implantados

Aparecido Raimundo de Souza

HAVIA NELE, um quase imperceptível defeito nos olhos esverdeados. Desanimado pelo ar frio e impassível da manhã, continuou firme no seu trajeto, espremendo os passos até desaparecer numa via pouco movimentada àquela hora e mal disfarçada no sem-cor-da paisagem dúbia. De ambos os lados dessa ruela, edifícios os mais diversos brotaram subitamente de uma lacuna qualquer em direção ao infinito que se descortinava. Não obstante ao belo espetáculo de fototropismo, continuou julgando o ambiente como enfadonho, mesmo depois de ter entrado numa torre suntuosa de sessenta andares logo à frente e tomado um dos elevadores. Apertou o cinquenta e um. Lá em cima, na ampla sala do seu belo e confortável apartamento, com janelas amplas do teto ao chão, a cidade, lá embaixo, entremeada pela alvura das nuvens ralas, descortinava uma visualidade quase tridimensional. Estancou os passos e olhou demoradamente para a antena com uma luz vermelha no terraço de outra torre em frente, essa mais baixa e àquela hora, em estado de desaparecimento em vista da bruma que a encobria num abraço surreal.  Ficou a olhar para a metrópole por uns cinco a dez minutos. Entediado, caminhou até um bar que mandara construir ao lado do aparelho de TV e se serviu de uma cerveja gelada. Finda essa bebida, arrancou com força brutal o fio da tomada de um velho e arcaico toca-discos oriundo de uma coleção de muitas peças que compunham seu mobiliário adquirido em um espaço que comercializava itens do tempo do ronca. Ato contínuo, sem pensar em mais nada, se enforcou com o cordel dessa velha e surrada radiola.  A música silenciosa que a tudo assistia, continuou emudecida, no ar, abobada com a agulha parada sob o disco preto de vinil arranhado.

O sol fugiu por uma fresta do horizonte e incendiou os cabelos da linda e esfuziante jovem recém chegada à casa dos vinte e dois anos. Diante da indecisão resolveu ficar mais um pouco ali no hall que dava acesso à suíte.  Pensou mil vezes antes de tomar a coragem definitiva e correr para a cama e se deitar ao lado do seu amante. O seu parceiro acabara de sair do banho enrolado numa toalha, passou por ela sem deixar no ar, ao menos uma esperança de possibilidade ainda que tardia ou que pudesse ser aproveitada, a depois, como benfazeja aos prazeres do sexo.  Nessa passagem, ela o seguiu com o olhar desejoso e ainda prenhe de más intenções. Todavia, ambos não se tocaram, sequer disseram palavras de amor. Minutos depois, ela tomou a decisão. Correu pressurosa e convulsa. Pulou na cama redonda e espaçosa daquele hotelzinho barato de beira de estrada, implantado dentro de uma periferia tão ordinária que nem os pernilongos ousavam pousar para se banquetearem com os sangues daqueles corpos recém acomodados. No ato do minuto seguinte, aconteceu o imprevisto. Ele deu um salto, pegou uma faca que escondera debaixo do travesseiro e a matou. Em contínuo, a violentou. Uma, duas vozes. No piscar da desgraça seguinte, limpou a consciência na toalha imunda com a qual viera envolto do banheiro. Sem pressa, pegou o telefone, pediu a conta. Tudo acertado, meia hora depois trancou a suíte, entrou no carro e nunca mais foi visto.

A lágrima surgiu espessa, junto com a claridade matutina. A noite havia sido de ouvir estrelas distantes com olhos de astrônomo e de tentar contato com seres extra-humanos. Uma quase fuga desenfreada de fugir do agora impreciso. Fracassara de novo, por isso, frustrado, devolveu a imaginação ao seu lugar no bolso do pijama, dando término ao cansaço que o atormentava. No banheiro, mijou toda a bexiga cheia com a sua ruína no interior da pia. Foi quando a moça que o acompanhava e dormia inteiramente nua, logrou se libertar de seu sono milenar e lhe perguntar as horas, com voz e gestos de múmia. Ele respondeu qualquer coisa intangível, saltou da cama como um gato assustado e se dirigiu ao banheiro.  Enfiou a cara na privada e vomitou.  Em seguida, se levantou com o estômago na boca. Antes de voltar para o lado da jovem mulher, implorou ao espelho que o recompusesse para mais um dia em começo de gestação. Nunca soube explicar a si mesmo, tampouco à polícia porque barbaramente assassinou a sua linda acompanhante. O crime foi sem motivo, sem declaração plausível. Ele a deixou caída no tapete, as partes pudentes expostas numa roda enorme de sangue. Regressou ao banheiro e tornou a regurgitar.  Entrementes, interrompeu de novo essa via crucis, deu uma nova espiada para o espelho e, dessa vez, aproveitou o momento do seu rosto refletido nele e limpou a boca com a calcinha que despira dela.
Etc.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro. 6-3-2020        

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