sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

[Aparecido rasga o verbo] A relaxante mania de estourar bolinhas

Aparecido Raimundo de Souza

POR QUE SERÁ QUE AS PESSOAS pegaram o hábito de estourarem as bolinhas dos sacos plásticos que encontram pela frente? Notem que não são só os idosos que se ocupam em fazer uso dessa prática. A coisa se espalhou, se propagou ao convívio dos nossos pais, passou ao dia a dia dos nossos filhos e atingiu em cheio, imaginem só, atingiu em cheio, os adolescentes. Como uma nuvem de bons presságios que tivesse vindo de longe e caído sobre nós, sem nenhuma complacência. Todavia, é bom que deixemos claro, uma complacência, ou uma benevolência obsequiosa e benigna.

Nesse vento soprando ameno, por todos os quadrantes, é comum vermos velhinhos andando pelas ruas, ou notadamente em cidades interioranas, senhores sentados nos bancos das pracinhas, acomodados de frente para os coretos, ou para os portais das igrejas matrizes, ou mesmo em suas casas, diante das televisões que nem de longe lhes chamam a atenção, explodindo bolinhas, como também uma garotinha, entretida com o seu canal de desenhos preferido e as mãos ocupadas em detonar uma centena de bolinhas de acaso do passar das horas. Que tara dócil seria essa, a ponto de fazer as pessoas viajarem no entorpecimento de uma suculenta porção de maionese?

Que espécie de alheamento maluco, doidera branda, ou modorra letárgica que invadiu a cabeça das criaturas a ponto de fazê-las esquecer os seus afazeres, somente para se aterem ao pipocar do ar saído dessas minúsculas bolinhas? Curiosos aos extremos, saímos às ruas indagando aqui, ali, acolá. As respostas recebidas foram as mais variadas possíveis. Algumas sem nexo, outras cabeludas, todas, porém, voltadas para um mesmo ponto de equilíbrio: a mente ativa, alerta e sã.
- Aquieta a tensão.
- Distende os nervos.

-  Qual o quê! Mexe com os músculos.
- Evita o LER.
- Faz esquecer um pouco, os problemas.
- Melhor que uma cerveja bem gelada. 
- Mais barato que uma viagem para o exterior.
- Alivia a pancada de um chute no saco.
- Olvidamos da mulher amada que foi embora. 
- Ajudou a encarar a morte de um parente muito chegado. 

-  Resgata as coisas boas da vida.
- A gente se desprende do corpo e voa alto.
Alguns chegaram ao cúmulo de levarem a mania para o lado médico. E concluíram: funciona como uma terapia relaxante que atinge o seu ápice no exato instante em que o ato de fraturar o solo do plástico se funde com o arrebentar das bolinhas como um todo. O “tac, tac” repetitivo provoca uma sensação suave de alívio imediato. No geral, é um remédio barato sem contra indicação e ao alcance de todos. 

Em contrapartida, estalar bolinhas liberta o estresse. Espanta o cansaço, e faz com que o organismo volte à sua postura normal. Vale, igualmente, para todos, sem a necessidade premente de visitas a um especialista da saúde.  A bem da verdade, essa teima obstinada de fender bolinhas se tornou uma outra birra contumácia, como os refrigerantes, a geladinha entre os amigos, o suco, o sorvete e a pipoca entre as crianças, a pelada nos finais de semana, o futebol do time querido pela televisão...

A cada dia esse empenho aumenta consideravelmente. Em algumas cidades do interior de São Paulo,  cresce o número de escolas não só da rede pública, como as particulares (principalmente as de classe alta, imaginem!) que passaram a adotar, em seus currículos, o hábito de apertar bolinhas como uma intermediação cística (o mesmo que necessária ou viável), para embrandecer ou moderar os alunos mais inacessíveis e de difícil convivência com os demais colegas.

Via paralela, em viagens longas, é comum depararmos com pessoas esmagando bolinhas. E o sestro não ficou só nas classes menos favorecidas. Nas viagens de ônibus interestaduais, nos voos comerciais, notadamente nas pontes-aéreas Rio São Paulo, Vitória Salvador, Campinas Brasília, enfim, em todos os lugares  possíveis e imagináveis  cansamos de topar com criaturas  entrelaçadas entre uma bebida e outra, um cafezinho ou um vinho, retirando de suas  bolsas-bagagens, um discreto saquinho com bolinhas para serem “pocadas”. Cá entre nós... Melhor que o maldito cigarro, sem dúvida alguma. A coisa, caros amigos e leitores, virou de fato, preferência nacio-internacional.      
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Salvador, Bahia. 21-2-2020

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4 comentários:

  1. NUNCA FIZ ISSO PORQUE NÃO TENHO TRANSTORNO OBSSESSIVO CRÔNICO.
    QUEM FAZ TEM QUE PROCURAR TRATAMENTO.
    COLOCO NA CHURRASQUEIRA, ACENDO O CARVÃO E DÁ-LHE FOGO.

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  2. Meu caro amigo Roccha. Bom dia. Lendo o texto do Aparecido, não levei a coisa para o lado do TOC, ou Transtorno Obsessivo Crônico. Ele apenas escreveu um texto simples, sem se importar em saber se quem faz esse tipo de coisa, estourar bolinhas, possa ser definido como TOC. Ou sofrer de. Falar mal de Lula, do papa, das nossas autoridades, mostrar os erros alheios, por exemplo, de maneira constante, poderia ser considerado um TOC? O que seria, na sua visão crítica definido como TOC nos dias atuais?! Ouvir uma música que nos encanta duzentas vezes? Ler o mesmo romance todo mês? No meu caso, especificamente, eu escrevo todo santo dia, três crônicas, chova ou faça sol. Aparecido idem. Tomar de dois a seis banhos por dia, em horários iguais, sem um minuto sequer de atraso? Fazer churrasco também pode ser uma obsessão compulsiva, senão crônica, mas quase. O que às vezes atrapalha é o "quase". O "quase", em certas ocasiões, se assemelha a uma pedrinha no meio do caminho. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, odiava pedras. E ele teve várias em seus caminhos como poeta. Enfim, amigo Roccha, meu bom ledor (ou ouvinte. Lembrando que ler é também uma maneira de ouvir com os olhos) os textos de Aparecido passam longe dos TOCs. Pelo menos, até onde sei, "Alterum non laedere". Tenha um excelente final de semana. Ah, antes que me esqueça: "cogitationis poenam nemo patitur".
    Carina Bratt, de Salvador, na Bahia.

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    1. Vocês precisam praticar mais o "ESTOICISMO":
      - Para o Estoicismo, a virtude está acima de tudo e é imposta por todo o universo, visto que a natureza é dominada pela razão e esta regula a natureza humana.
      NÃO DEVEMOS NOS OFENDER MUTUAMENTE."Alterum non laedere"
      Tais são os preceitos do direito: viver honestamente, não ofender ninguém, dar a cada um o que lhe pertence“
      Nem você, nem Aparecido são "ULPIANO".
      SOU EPICURISTA.
      (Epicurismo), “Este considerava o direito o resultado de um compromisso de utilidade, com o escopo de os homens não se prejudicarem uns aos outros.”
      O preceito nos lembra, ainda, a filosofia epicurista que propõe a felicidade como bem estar individual e social, no sentido de não causar sofrimento, reciprocamente, nas relações sociais.
      "cogitationis poenam nemo patitur" NINGUÉM PODE SER PUNIDO POR PENSAR, MAS PODE SER PUNIDO PELO QUE ESCREVE.
      Infelizmente com 4 anos num colégio Lassalista aprendi "LATIM".
      Eu uso o princípio "neminem laedere".
      Si membrum rupsit, ni cum eo pacit, talio esto.
      Se por acaso cometo um erro de grafia é porque sou "DEDÓGRAFO"(Neologismo meu)
      Adoro minha língua "mater" não gosto de vê-la deturpada.
      Finalizando com uma frase de NAPOLEÃO:
      A verdadeira glória não é a de ter ganho 40 batalhas, NEM CONTAR VANTAGENS.
      O que ninguém destruirá, o que viverá eternamente, é o meu Código”.

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  3. P.S.
    Eis que aqui há muitos que foram "tripudiadoslantes" da VARIG, que vão corroborar minha opinião.
    Os noticiários americanos eram ou são as melhores maneira de aprender-se inglês.
    Ora, ora por que?
    Apesar dos regionalismos locais todos eles fazem os noticiários em inglês sem os regionalismos locais.
    Esdrúxulos jornalistas brasileiros fazem nos coloquiais locais.
    Assim jornalistas gaúchos abusam do "gauchês", cariocas do "carioquês", paulistas do "paulistês" e os nordestinos com seus famosos linguodentais "Tes" que é uma consoante palatolingual.
    Claro que existem regionalismos incidentais, com costumes até de países vizinhos mas não se deve dissonar o alfabeto.
    O "xuxês" virou moda carioca.
    Não culpo-os por isso, mas seus aprendizados na infância foram deturpados.
    Aqui nos sul plural é só no 10; dez ovos de resto é sempre "ovo".
    O contrário de destro é sinistro. A famosa mão dos demônios da inquisição.
    Levei muitos castigo no colégio porque não gostava de escrever contíguo ou letras interligadas.
    Até hoje escrevo em "script" e produzi meu alfabeto próprio que por vezes nem eu mesmo entendo.
    Por vezes lembro minha traquinas da juventude e tenho crises de riso.
    Peidar (se fosse Aparecido escreveria "flatular") no elevador vazio e descer quando entrava pessoas era a minha preferida.
    As vezes passo dos limites, porque na velhice ficamos menos tolerantes.
    Quanto ao TOC, sou casado com uma campeã.
    Quando discutimos, basta desarrumar alguns bibelôs e trocar os sapatos na sapateira, a discussão acaba.
    O TOC é uma preferência, quando desaparece alguma coisa aqui em casa, sempre sabemos quem trocou o seu lugar.
    Agora com a utilização do smartphones praticamente o TOC trocou de ambiente.
    São dedos para cima, para baixo, para esquerda ou direita e o famoso barulho do teclado virtual.
    Criou-se a nova doença de TOC, OS ZUMBIS.
    Antes que me esculachem, sou "old school", não tenho celular.
    fui...



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