sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Petição a Macron: "Só mais um minuto, senhor presidente."

A revista mensal CAUSEUR nº 76, fevereiro 2020, como podem ver na capa, traz um dossiê sobre as turbinas eólicas – que são construídas onde um “ecologista” do governo entende ser o melhor local...


Abaixo segue a tradução da Petição dirigida ao presidente da França, Emmanuel Macron.

No dia 14 de janeiro, participando numa mesa-redonda em Pau, sobre “a ecologia nos nossos territórios”, você (Emmanuel Macron) declarou:

“O consenso sobre a energia eólica está claramente enfraquecendo no nosso país. [...] Mais e mais pessoas [...], que consideram que as suas paisagens estão degradadas, não querem mais ver eólicas perto de suas casas. Não se deve impô-las.”

Qualquer um que atravessa a França pode ser testemunha: por toda a parte erguem-se as eólicas, essas torres com pás gigantescas, barulhentas, piscando noite e dia. As planícies cerealíferas, as colinas provençais, os rios dos oceanos, nenhuma jeira de terra está ao abrigo.

Objetos industriais, fabricadas em série, elas uniformizam um país distinguido entre muitos pela diversidade, variedade, a beleza das suas paisagens. Fora de limites, essas turbinas açambarcam a vista, apagam o que as rodeia.

Turbinas, na verdade, aerogeradores mais explicitamente, as eólicas nada têm de bucólico, nada de campestre.

A nossa vista é ferida, nossa sensibilidade afetada, nosso sentido de beleza ofendido. Entre 7 000 e 8 000 aerogeradores atualmente, 25 000 em 2025. “Daqui a dez ou quinze anos, nosso país mudará de aparência”, previne Alexandre Gady, o presidente da Sociedade para a proteção das paisagens e da estética da França.

Foto: Gilles Bassignac/Divergence
Se preocupar com a cara da França, não é uma das prerrogativas, uma das mais nobres prerrogativas do político?

Tem mais, o senhor concordará, é, no mínimo, paradoxal se comportar como “senhor e dono da natureza” – esse credo da modernidade comprometido pela devastação da terra –, quando ouvimos de vocês, repetidamente, que agem em nome da ecologia.

No quadro da luta contra o aquecimento climático, querem impor na opinião pública a ideia que a salvação do planeta passa pela instalação das eólicas.

Ora, se a causa é justa, premente mesmo, as eólicas nada contribuem para a causa. Por uma razão muito simples: nossa produção de eletricidade é essencialmente de origem nuclear e, mesmo apresentando inconvenientes, o nuclear não produz gás carbónico. “É graças à energia nuclear que a França é um dos países mais descarbonizados do mundo”, lembrando o que o senhor disse ao Le Monde em julho de 2015.

Quanto a substituir a energia nuclear, a hipótese não se coloca, a menos que se queira reabrir as usinas a carvão ou petróleo. A produção de eletricidade das eólicas é tão intermitente, tão aleatória, que nenhum país lhes hipotecaria a sua independência energética – porque até segunda ordem, os homens não comandam os caprichos dos ventos.

Além disso, a realidade é muito menos sorridente e ecológica do que os discursos oficiais querem nos fazer acreditar: concretagem dos solos, materiais de construção dos aerogeradores essencialmente não recicláveis, grande mortalidade de pássaros que se chocam contra as hélices, perturbação dos circuitos de migração, interferências nas ondas que desorientam os morcegos, zumbido permanente, esbanjamento financeiro – as eólicas subsistem quase que exclusivamente de subvenções públicas – tempo de vida muito curto, entre quinze e vinte anos, o desmantelamento é tão caro que elas permanecem no lugar, acabando por constituir verdadeiros cemitérios de torres enferrujadas.

Uma aldeia em Mayenne e a sua eólica, abril 2017, foto: Gile MICHEL/SIPA
Enfim, a implantação da energia eólica se faz contra a vontade das populações. A resistência está bem viva: 70% dos projetos são contestados. Durante muito tempo impaciente com estas resistências, você fez adotar numerosos textos visando a “amaciar os procedimentos”, ou seja, a contornar as oposições. E depois o movimento dos coletes amarelos apareceu. Você nos disse que ele (o movimento) lhe sensibilizou, e você mudou de opinião. Foi o que você afirmou em Pau. Portanto, você tem uma bela oportunidade de demonstrar com fatos que você não governará mais contra a França periférica há muito tempo esquecida. Então, coloque um termo à implantação das eólicas, que entristecem e arreliam esta França rural, com a qual você diz tanto se preocupar.

Bérenice Levet
filósofa

Jean Clair
curador, ex-diretor do museu Picasso, ensaísta

Patrice Gueniffey
historiador

Jean-Pierre Le Goff
sociólogo

Stéphane Bern
animador de televisão e rádio, escritor

Alain Finkielkraut
filósofo

Benoît Duteurtre
musicólogo, escritor, ensaísta

Yves Michaud
filósofo

Pascal Vinardel
pintor

Paul Thibaud
ex-diretor da revista Esprit

Tradução: JP, 28-2-2020

Para assinar o manifesto clique aqui.

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