terça-feira, 7 de abril de 2020

[Aparecido rasga o verbo] A visão inusitada do abjeto odiado

Aparecido Raimundo de Souza

O PROFESSOR MANDETTA FRITADO resolve tomar a tabuada de seus alunos. Começa pelo mais estudioso e atento e pergunta:
  Marquinhos, quantos são três mais um?
— Quatro, professor.
— Luciano, cinco menos dois?
  Três, professor.

  Amanda, sete vezes seis?
  Quarenta e dois, professor.
— Liliane, oito vezes quatro?
— Trinta e dois, professor.
— Narciso, nove dividido por sete?
— Um, professor.

— Abílio, quatro vezes quatro?
— Dezesseis, professor.
— Verinha, cinco mais sete?
— Doze, professor.
— Dudu, dezoito menos quatro?
— Catorze, professor.

— Francisco, sete vezes seis?
— Quarenta e dois, professor.
— Luana, oito vezes nove?
— Setenta e dois, professor.
— Genésio, quatro mais nove?
— Treze, professor.

— Fernando: dez dividido por cinco?
— Dois, professor.
A aula segue normal, sem problemas. O professor Mandetta Fritado  se mostra feliz: Bruno,  vamos nós: duas vezes nove?
  Dezessete, professor.
— Bruno, preste atenção: duas vezes nove?
— Dá uma dica, professor...

  Sem chance.
  Minha mente ficou branca de repente... Eu...
— Dou-lhe uma...
— Calma, professor...!
  Dou-lhe duas...
— Dezoito...

— Tem certeza, Bruno?
— Não, professor.
— Você não estudou. Ficará as proximas duas aulas minhas sem intervalo.
— E qual seria a resposta correta, professor?
— Dezoito.
— Então eu acertei. Não é justa a punição de permanecer trancado aqui dentro, feito um boboca, enquanto todos os demais sairão desembestados para o refeitório.

— Bruno, como você mesmo presenciou, os seus coleguinhas responderam com precisão, sem titubearem. Isso significa que eles levaram a minha matéria a sério, como, acredito, também o façam com às outras cadeiras existentes no currículo. Por que você não agiu de forma idêntica? Você realmente acertou, mas no chute. Não havia convicção. Estude mais, e, da próxima vez, não permaneça estático e em cima do muro.
— Ta legal, professor. Valeu...

Na sequência o mestre sinaliza para Carina que prontamente se põe em pé:
— Ca, minha linda, cinco mais dez? 
— Quinze, professor
— Pode sentar. Tatiana, dez menos quatro?
— Seis, professor.
— Estou gostando de ver.

Chega a vez de Wallace, o garoto mais indisciplinado, rebelde, antipático e criador de caso de toda a escola. O santo do preceptor Mandetta Fritado não bate com o do moleque, porém, não pode deixá-lo fora do certame. Sabe que se o fizer, criará uma amolação férvida, odiosa, desagradável e entediante. Precisa fazer uma pergunta por descargo de consciência. Torce, intimamente, para que o jovem desacerte, falhe, erre, tenha um lapso momentâneo de memória.

Assim aplicará a punição de bom grado, deixando-o de castigo, sozinho, em duas de suas próximas aulas, fundeado entre a tristeza e tutelado pela solidão das carteiras vazias, enquanto os demais se divertirão na movimentada e tão esperada hora do recreio.
— Muito bem Wallace. Estudou a tabuada?
— O que o senhor acha?
— Não acho nada. —  Limitou o matemático a responder com um sorriso de tolerância forçado. —  Você é quem deve saber e me provar que está afiado com as quatro operações elementares.
— Manda a pergunta.

A galera, em peso, mergulha num silêncio de caserna, protegido pelo sabor agonizante e precipitado de não perder a réplica que o guri dará. Será que o jovem aprendiz acertará ao objetar a indagação do malvado e capcioso mentor? Em face disso, não se ouve nem a respiração dos pequerruchos.
— Preparado?
  Sempre...
  Nove vezes cinco?
Para espanto geral, o fedelho responde, de primeira, sem pestanejar.
— Quarenta e cinco.
Tentando chacotear com os cornos do arrogante, o professor Mandetta Fritado insiste, lancinante, pungente, pertinaz. E o faz, na verdade, mais para saborear o desconcerto e a falta de sorte, quando o ladino vencido e humilhado, perderá a pose e a altivez diante dos presentes.

— Ótimo! Show de bola! E cinco vezes nove?
Wallace, contudo, não se deixa ser logrado, nem trapaceado ou sacaneado. Dono de uma memória prodigiosa e raciocínio rápido e seguro, devolve o troco, na lata, na bucha, untando à pergunta uma pitada de destimidez e ousadia:
— Atnerauq e ocnic, professor... 1

Um “meu Deus, o que foi que ele falou?”, em uníssono, se ouve como num motim intimorato, destemido, valente, se espalhando de um canto a outro. Sem graça, baldado, frustrado, debilitado, o educador pega as suas coisas e sai de cena, cinco minutos antes do horário previsto, e o faz, visivelmente irritadiço, exasperado, enfadado, suando tal e qual  uma esponja espremida,  e pior,  como se tivesse (e tinha) o rabo metido entre as pernas bambas.

1 Quarenta e cinco escrito de trás para frente. 
 
Título e Texto (sem revisão): Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha,  Espírito Santo. 7-4-2020

Colunas anteriores:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-