sábado, 8 de agosto de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Galhos desfolhados

Aparecido Raimundo de Souza

O MARCELO LOROTEIRO FICOU sabendo, no Bar do Zé  do Caneco da Saideira, que o seu vizinho de frente a sua casa, o Belmiro Funga-Funga estava fazendo um curso presencial para Pai de Santo. Belmiro Funga- Funga tinha uma mulher maravilhosa que fechava o comércio, a Aretuza. A Aretuza era linda por demais, e, quando passava na frente do bar do Zé do Caneco da Saideira, toda a galera babava. Alguns, mais afoitos, gritavam vivas, outros apenas levantavam os canecos em respeito ao amigo.

Aretuza fora feita por um escultor caprichoso, que não esquecera de colocar todas as belezas do mundo (na dosagem e na medida certa) ao confeccionar tal fêmea. Aretuza era tão linda e majestosa que às vezes  as pessoas, ao cruzarem com ela, na rua, no supermercado, na padaria, paravam só para se deleitarem com a sua majestade impecável e porque não dizer, inimitável. A filhota dela, a Luanna, na faixa dos dezessete, não lhe ficava a dever favores.

Quando as duas saíam juntas, dificil dizer, com precisão, qual das criaturas se constituía na mais formosa. Apesar de todas essas felicidades ao alcance das mãos e dos olhos, os  amigos, ao serem sabedores do tal curso de pai de santo, ficaram encucados. A curiosidade aflorou com força total. Literalmente, os amigos que se reuniam no bar, todos os finais de tarde (após a chegada do trabalho), para uma descontração básica antes de chegarem em suas casas, estavam, sem tirar nem pôr, com a bisbilhotice coçando, igual sarna braba.

Entretanto, nenhum dos amigos, tinha coragem suficiente para chegar nas barbas do Belmiro Funga-Funga e inquirir sobre o tal curso. Marcelo Loroteiro,  contudo, um dos mais chegados amigos de Belmiro Funga-Funga  e, talvez, o mais impaciente de toda a galera, tinha fama de pegar todas, resolveu que daria um jeito de tirar esse troço em pratos limpos e matar o indiscreto que o incomodava desde que tomara conhecimento do fato.

Teve que esperar quase dois meses. No decorrer desses sessenta dias, as investidas foram muitas, porém, o Belmiro Funga-Funga desconversava, mudava de assunto, falava até de futebol (que odiava) e Marcelo Loroteiro se viu quase na iminência de desistir da empreitada. Dificil, claro, deixar pra lá. No bar do Zé do Caneco da Saideira, uma corrente apostava que diante da seriedade de Belmiro Funga-Funga o Marcelo Loroteiro comeria mosca e não conseguiria seu intento.

Outra banda asseverava que ele levaria à termo a  palavra empenhada, e, em breve, revelaria a todos, o segredo trancafiado a sete chaves do tal curso de pai de santo. E as apostas, de ambas as correntes dentro do estabelelcimento do Zé voavam alto. As disputam giravam em torno de quatro caixas de cerveja para quem apostava que o Marcelo Loroteiro não alcançaria exito, contra seis que batia na tecla que ele teria sucesso pleno em sua jornada.

Pois bem. Quase ao extremo de inteirar três mêses, e já sem respaldo criativo para interpelar o Belmiro Funga-Funga, eis que Marcelo Loroteiro topou com o seu vizinho e amigo de cervejadas fazendo compras no supermercado. Seu rosto se alegrou. Chegou quase a chorar, em face da oportunidade que lhe caíra do ceu. “É hoje que tiro essa história do anonimato – pensou, satisfeito, com seus botões – É hoje o dia ‘d’, ou deixo de me chamar Marcelo Loroteiro’”.

Enrolou daqui, enrolou dali, quando o Belmiro Funga-Funga se dirigiu a um dos caixas, para passar as compras, pulou atrás dele, colando em seu cangote, dado a impressão de um acaso não programado. Ao vê-lo em sua retaguarda, por sinal, acima do normal, Belmiro Funga-Funga se virou e deu-lhe um forte abraço:
- Belmiro, meu chapa – sorriu Marcelo. Que prazer  cruzar com você.
Belmiro Funga-Funga não se fez de rogado:

- O prazer é todo meu, caro amigo. Não o tenho visto no bar do Zé.
- Falta de tempo, meu camarada. Muito serviço. E você, quais as novidades?
- Por enquanto, nenhuma. Tudo velho. Mais novo só nós dois.
- Pensei que tivesse ganho na loteria.
- Nem de jogo eu gosto, você sabe disso melhor que eu.
- Cara, fiquei sabendo, não sei se é verdade, ouvi uma história  que você está fazendo um curso. Procede essa conversa?

- Sim, meu amigo Marcelo. Tem bem uns três para quatro meses.
- E posso saber por quê, ou para quê?
- Claro, meu amigo. Não faço segredo da minha vida pra ningúem...
- Eu sei, eu sei... Afinal conheço você faz bem uns vinte anos...
- Por ai...
- E quanto ao curso?

- É um curso de pai de santo, amigo Marcelo. Dentro de uma semana me formarei e receberei o meu canudo.
- Canudo?
- O diploma.
- Ah, entendi. Diga ai: virou macumbeiro?
- Não.
- Espírita?
- De forma alguma
- Então, qual o objetivo desse  curso de  pai de santo?

- É que o Luiz lá da empresa... O Luiz que trabalha no RH, nosso vizinho... Bebe com a gente...  Mora em frente a sua casa, Marcelo...  Seus filhos jogam bola com os filhos dele, como os meus também... O Luiz me falou, em segredo, que eu preciso tirar um certo caboclo safado e pilantra que vive dando em cima da minha mulher quando estou no trabalho. Me indicou esse curso. Estou quase terminando. Até o final deste mês, eu descobrirei, ou melhor, eu verei, através dos ensinamentos que recebi, quem é o safado sem vergonha... E acredite, meu amigo: o sujeito não gostará nem um pouco do que tenho preparado para ele.

Marcelo Loroteiro quase teve um troço. Em questão de segundos, ficou amarelo, empalideceu, passou de preto a vermelho, de vermelho à cor de rosa. Por pouco, não desmaiou. Finalmente conseguiu balbuciar:
- Da... Da...  A... Are... Are... Tuza?
- Claro, meu chapa. Acaso tenho outra mulher senão a Aretuza? Ei Marcelo, o que houve? Você está passando mal? Fale, meu amigo, está se sentindo bem?

Desde esse dia, o Marcelo Loroteiro nunca mais foi visto no pedaço. Mudou, de repente com toda a sua família, para lugar incerto e não sabido.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo, 7-8-2020

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