terça-feira, 17 de março de 2020

A bandeira de Bolsonaro

Fábio Gonçalves

Pelo menos uma vez na sua história, o Brasil exige ser governado de baixo para cima, das famílias para Brasília — e não o contrário, como de hábito. É um ultimato aos políticos. E não há nada mais democrático que isso

Era um domingo normal no Palácio. No derredor, céu careca de nuvens, o sol do Cerrado envergando a vegetação, as cotovias chilreando gostoso no jardim presidencial. No quintal, em torno da piscina e em companhia dum vira-lata miúdo, cor caramelo, Laurinha, assumindo a sério o papel de guerreira, simulando galope num alazão branco, batalhava com o irmão Carlos, que, em regata e bermuda, se fartava de rir, ora fugindo da pequena, ora fazendo-lhe cócegas. A este tempo, o presidente e a primeira-dama dejejuavam:

— Ô Michele, no tocante ao recheio do pão, me passa aí o leite condensado, tá ok?

Lançando um olhar duro de reprovação, Michelle advertiu:

— Olha a dieta, Jair. O médico já reclamou. Você vai me pegar uma diabetes, homem!

Deu a bronca mais por protocolo, por desencargo, pois, muito consciente do gênio teimoso do marido, sabia que era esforço vão.

— Pô, Michelle — reiniciou Bolsonaro, assumindo tom e gestos de bonachão, de piadista. — Eu já não fumo, não bebo, malemá posso andar de motoca, muito a custo vou ao estádio. Se eu tiver que largar também meu leite condensado, aí eu morro infeliz. Dá o leite moça aí, mulher. Hahaha.

Fez-se assim, como de costume.

Eis que vibra o smartphone do presidente. É o 03, o Dudu, conforme registrado nos contatos. O filho mandou-lhe uma imagem pelo WhatsApp. Jair puxou os óculos do Bolso e meteu-os na cara, meio tortos.

— Jair, meu amor, larga um pouco desse celular — ralha a mulher. — Relaxa, Jair, é domingo.

— Só um minutinho, Mi, é o Eduardo. Pode ser coisa importante, cuestão aí de Estado.

A mulher acede, a contragosto.

“Pai, tá acontecendo. Por incrível que pareça tá acontecendo. Saca só as fotos que o pessoal tá mandando no meu Twitter.”

Rio de Janeiro, 15-3-2020, foto: José Raphael Berredo/O Globo
Jair ficou bobo, pasmado. Tirando e colocando os óculos reiteradamente, o presidente foi se deliciando com as muitas fotografias e os vídeos.  Via-se ali multidões de manifestantes, trajados com as cores da bandeira, sacudindo faixas e cartazes, berrando palavras de ordem. Havia povo de tudo que é parte: do Belém e Santarém do Pará, de Parnaíba do Piauí, de Uberlândia e Belo Horizonte, do Rio de Janeiro, de Salvador, de Gaspar, em Santa Catarina, de Maceió, das paulistanas Campinas, Mogi Mirim e Ribeirão Preto, de Francisco Beltrão, no Paraná.

Boquiaberto, o presidente tirou os óculos, deixou à mostra os olhos azuis lacrimejados, fitou com profundidade a primeira-dama, e disse-lhe, tremendo a voz:

— Michelle, o povo está nas ruas.

Era como apostar num título mundial do Palmeiras. Estando o país ameaçado pela praga chinesa, metade dos patrícios em quarentena, todas as vozes do rádio e da TV recomendando isolamento, políticos ameaçando remir o chicote no lombo de quem fosse tagarelar nas praças, num cenário assim, ninguém podia crer que o protesto vingaria. Mesmo o presidente, grande beneficiário deste ato, ato cujo mote era a defesa do seu governo, mesmo ele, na semana anterior, havia sugerido que a aglomeração fosse adiada — e os principais organizadores, fiéis aos seu comando, acataram o dito. Era certo e líquido que as manifestações minguariam.

Pois, vendo aquele milagre, como se mordido por um bicho, Jair levantou de um salto, correu ao quarto para se vestir adequadamente — quer dizer, meter uma camiseta da CBF e um jeans qualquer — gritou para que Carlos tomasse as rédeas do Twitter — “Compartilhe todas essas fotos, meu filho” —, desceu desabalado as escadas, e deu um beijo na testa da Laurinha.

Brasília, 15-3-2020, foto: TV Globo/Reprodução
Quando, desenhando um rigoroso sinal da cruz, ele já ia saindo, Michelle, fazendo as vezes de Calpúrnia, mulher de César que advertira o general quanto a conspiração dos Senadores, lançou-se ante a porta e clamou, amedrontada:

— Jair, cuidado com os idos de março. Eles estão doidos para te derrubar. Você sabe. Não facilite, pelo amor de Deus. E mais: você pode estar doente. Pode ter gente adoentada na turba. E, mesmo que não tenha, caso amanhã surja alguém com a pestilência, dirão que a culpa foi sua. Como diz a religião, sê prudente. Cuidado com os idos de março.

Essas palavras fizeram doer o coração do mandatário. A esposa tinha razão. Qualquer deslize e ele estaria na berlinda. Os conspiradores estão por todos os lados, e cada vez mais indiscretos, mais assanhados. Jair, trajado à militante, achou-se irresoluto.

Nesse instante tocou mais uma vez o celular. Novamente era o Dudu. Uma massa estava descendo para a Esplanada, avisava o filho.

Ao fundo, Jair ouviu um marchar, uns coros, um bulício de multidão. Alguma coisa se podia discernir. As pessoas bradavam “Mito, mito, mito”.

De si para si, como para dissolver a dúvida, ele disse as palavras de César: “O covarde morre duas vezes”. Enfim, comovido com o aproximar-se dos populares, saltou para a mulher, deu-lhe um beijo na testa, saiu acompanhado de um séquito de seguranças e, maravilhado, topou com uma maré auriverde correndo em sua direção.

*****

Deve ter sido assim a manhã do presidente. E, como dizem os italianos: se non è vero, è ben trovato.

Como seja, o fundo de verdade está nesta tensão, nessas duas forças que ombreiam, decerto, na alma do Capitão: de um lado, alguma coisa que se pode chamar de “dever de Estado”, “liturgia do cargo”; do outro, os ímpetos dos tempos de campanha, de governante popular, governante cuja força se assenta menos nas instituições — nada raro usadas para lhe atrapalhar — que no povo que lhe conferiu o voto, a confiança.

Estivéssemos na Roma dos senadores, de Brutos, Cícero e Pompeu, a multidão proclamaria Bolsonaro imperador. Aliás, tradicionalmente era assim que os líderes eram escolhidos, por aclamação. E chegar ao poder desta maneira não é sinal de populismo, como se diz pejorativamente, na verdade denota popularidade, no sentido de afinidade de anseios entre o governante e o povo. E aqui há como que a perfeição do sistema representativo.

Não que Bolsonaro seja unanimidade. Ora, ninguém jamais foi. Entretanto, é inegável que há uma fatia do eleitorado nacional, da mais ativa nas discussões públicas, que deposita no Capitão talvez a última esperança de que as coisas possam mudar pela via política. Acreditou-se nisto no pleito de 2018. Essa fatia de cidadãos politicamente ativos, os mesmos que afluíram às ruas em 2015, 2016, 2018 e 2019, meteu na cabeça que não vai sossegar enquanto os poderosos não entrarem na linha, enquanto não largarem os conchavos, as articulações, as chantagens, e, de uma vez por todas, aprenderem que o Brasil, pelo menos uma vez na sua história, precisa ser governado de baixo para cima, das famílias para Brasília — e não o contrário, como de hábito. Ou seja, é um ultimato, mesmo. E não há nada mais democrático que isso.

Jair, pois, foi receber o povaréu na Esplanada. E cumprimentou os circunstantes, fez coro aos seus clamores, chutou o Pixuleco, desfraldou a bandeira nacional e fê-la tremeluzir, correndo de um lado a outro como um menino. Em resumo, foi o Jair eleito, foi aquele homem em quem o povo se reconheceu.

Brasília, 15 de março 2020, foto: José Cruz/Agência Brasil
Mais tarde, ainda correu à TV para servir de megafone aos seus apoiadores. Intimou Maia e Alcolumbre a também ouvirem o cântico das ruas, a se juntarem a ele numa empreitada pelo sucesso do país, para além de interesses comezinhos, baratos. Chamou-os para firmar um acordo, acordo seguindo os ditames do povo. Povo que tem pressa de ver assentadas as reformas, que carece de mais segurança, que votou pela liberdade de possuir armas de fogo, que quer refrear a agenda progressista em assuntos sensíveis como aborto, drogas e gênero, que não aceita mais juízes que se acham semidivinos metendo o bedelho no que não lhes compete. São estas as cartas entregues pelo povo ao seu comissário. São estas as cartas que Jair apresentou aos caciques da política.

Pois tudo isso magoou profundamente os jornalistas da oposição – quer dizer: todos os jornalistas dos grandes canais, Globo, Estadão, Folha, Veja, TV Cultura, Band, a caçula CNN.

Tome-se a Vera Magalhães como símbolo do grupo. A âncora do Roda Viva, inimiga mordaz do presidente, tuitou uma dezena de mensagens implorando que os líderes do Parlamento e do Supremo dessem um golpe de Estado e tirassem Jair do seu cargo. Para ela — corroborando a tese de um colega —, o mandatário incorrera em irresponsabilidade sanitária, coisa de que ninguém jamais ouviu falar, mas que seria motivo para o mais célere dos impeachments, para ontem. Na visão da Magalhães, toda a nação será dizimada pela peste porque alguns milhares de pessoas foram se manifestar em favor do presidente. Bolsonaro, o irresponsável, teria selado o destino da pátria.

Ademais, segundo o entender da colunista do Estadão, o ato mesmo, no que cobrava juízo dos congressistas e togados, era um golpe, um atentado à Constituição, a prostituição da República.

Tudo isto no mais plastificado tom de jornalista profissional, isento, científico.

Quer dizer, uma massa considerável sai às ruas colocando a própria saúde em risco, mesmo desobedecendo os conselhos do presidente, e, ao invés de enxergar nisso mais um passo rumo ao amadurecimento da nossa democracia, os medalhões — e medalhinhas — da imprensa, num coro ensaiadíssimo, preferiram bradar que é um abuso, tirania, início do totalitarismo nazista — que, vale dizer, eles vêm anunciando desde 2017.

 ****

No fim do dia, passado todo o furdunço, quando as últimas luzes da capital se já apagavam — a não ser na mansão do Maia, que, regado à vinho caro e ao som de jazz e bossa nova, deve ter convidado toda a malta para debater a nova “crise” — no jardim do Palácio, sob uma lua branca como leite, o presidente, de chinelo e camiseta de time, sentado no chão, ao lado do filho Eduardo, sendo lambido pelo vira-lata da família, conferia, pelo celular, o esperneio dos adversários. E ria, gargalhava.

Dali um pouco eles foram para cama, cada qual para o seu quarto. Bolsonaro passou no de Laurinha, para conferir se a menina estava coberta. E estava. Depois, foi para o seu aposento. Encontrou a mulher ainda acordada, à sua espera:

— Michelle, descul...

— Não precisa dizer nada. Você é o nosso herói.  
Título e Texto: Fábio Gonçalves, Brasil Sem Medo, 16-3-2020, 17h29

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