terça-feira, 14 de novembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] A outra metade sem mim...

Aparecido Raimundo de Souza

Meus ideais (quase sempre) possuem a aparência de pássaros noturnos, habitando as ruínas das minhas frustrações”.
Humberto Del Maestro

ESCREVO MEU NOME (e isso já virou mania) em todos os vidros dos carros estacionados que encontro pelas ruas e vielas, igualmente nas casas com janelas e venezianas baixas. É como se fosse deixando uma pista visível, declarada, palpável e patente para que alguém, solitário igual a mim, viesse seguindo meus passos a distância prudente e, num ponto qualquer desta cidade grande, nossas almas se encontrassem, uma com a outra e, num enorme e apaixonado amplexo, trocassem juras de amor eterno.

Não sei por qual motivo vivo sonhando com esse alguém inexistente, e pior, com esse instante que tento fazer imorredouro. Achar, de qualquer jeito, a minha metade faltosa. A outra parte escondida, a alma gêmea, talvez, perdida, solitária, num canto desta metrópole sem medida, imensa como a infelicidade que me desgasta, que me corrói que me enfraquece e me debilita.

Bom seria topar com a fatia da maçã, não só dessa fruta, mas da pera, da melancia, da laranja. Lado outro, a tampa da panela, a meia faltosa, o recheio para o pastel feito na hora. Melhor ainda, o amâncio do chinelo para o pé descalço... a consorte da escova de dente, a companheira da parte desocupada na cama, a felicidade agregada a minha solidão solitária.
 
A procura tem sido longa e em vão. A espera, lenta e cansativa. Até hoje, por mais pistas que tenha deixado ao longo das calçadas e avenidas percorridas, dos carros com meu nome e telefone, e-mail e WhatsApp, toda a jornada se fez estafante, cansativa, esgotante, sumariamente fatigante como os esforços empregados nessa luta desigual, significaram fracasso, baque, despenhadeiro total.

As tentativas de meu coração, na ânsia ardente de se entregar de corpo e alma a alguém que realmente o queira, e o aceite como ele é, com todos os defeitos e manias, carências e angústias, até o presente momento, resultaram num verdadeiro e repugnante fiasco.

Meu sonho não passou, realmente, de uma quimera mal sonhada. Na verdade, um pesadelo imperfeito. Uma esperança cortada pela metade, sem fantasias, destituída de qualquer vínculo com a realidade. Por assim, apesar disso, dos percalços e contratempos, amolações e embaraços, sigo em frente. Cabeça erguida, olhos abertos. E persisto claro, escrevendo meu nome aqui e ali, e-mail e site do Facebook, acolá. Contudo, nada.

Ninguém segue a pista. Ninguém espera por mim no final dessa caminhada incerta. Em vista disto, me sinto como um desses proscritos, abolido, extinto, esquecido. Um coitado, pobre e infeliz, desgraçado e incompleto, que o destino, por algum motivo que nunca me foi revelado, enjeitou, como se desampara uma coisa velha, como se desarrima algo que não mais tem valor. 

Fera magoada, pássaro ferido, longe de casa, sem amigos, sem uma mão a distribuir carícias, sem um porto onde atracar. Solidão, agonia, desesperança, vazio, tristeza, dor, e pior, com a sensação, na boca do estômago, de que na próxima esquina, encontrarei um abismo imensurável, uma lacuna muito disforme que, certamente, estancará meus passos na partida para o agasalho de um novo amanhã.

Todo esse quadro mudaria, se ela, a minha amada, estivesse aqui. E não só estivesse aqui, se fizesse presente, sobretudo, que me quisesse. Se ao menos soubesse que eu existo. Se seguisse as pistas que deixei por todos os lugares que passei. Ah a minha linda e encantada mulher invisível. Nossa! Se ela chegasse de mansinho e entrasse na minha vida, se saísse detrás de um carro, ou me abrisse uma janela, uma porta, e me abrasasse com a ternura que vejo em suas mãos e a felicidade plena que de seus olhos resplandecem...

Mas essa cara metade é utópica. Só existe na minha louca imaginação. E se acaso, fosse real, de carne e osso, eu seria o último da lista. O afastado, o longínquo, o alheado extremo. Eu sei! Tenho consciência que, por ser o derradeiro, não há uma esperança, uma luz no fim do túnel. Sequer um talvez.

Em sumário, em síntese, me resumo um zero à esquerda. Um Zé Ninguém ao acaso da vida, resfolegando meus fracassos e derrotas, infortúnios e desventuras, como um náufrago em mar proceloso.

Sou, em verdade, aquele que ela não espera. Meu Deus, ela quem?! A figura que ela não quer ver, tampouco saber que existe. Se é que existe. Talvez, um dia, eu desperte de mim e ela acorde (ela acorde?) da sua insensatez. Talvez, quem sabe, nunca se sabe, ela saia do seu obscurantismo. Dê adeus definitivo ao seu ostracismo, e se livre, de vez, da sua cegueira... 

Enfim, pode ser que um dia (sonho com esse um dia), ela me veja, me enxergue, me sinta me descortine, me descubra, me aviste, como um homem... melhor explicado, como o cara que poderia mudar... que definitivamente não só mudará, lhe ofertará, se ela vier a existir, de fato, de contrapeso, uma nova vida. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 14-11-2017
      
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