domingo, 5 de novembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] O voo chato de uma não convidada

Aparecido Raimundo de Souza

A MOSCA CHEGOU VINDA DO NADA, sem ser chamada. Pousou tranquila, calma e suave numa cadeira vazia.  Logo em seguida, pulou para a mesa. Num piscar de olhos, alçou uma arriscada em volta. Como se pretendesse desejar boa tarde ao cara que distraidamente tomava uma xícara de café, quadrou certeira na boca do indivíduo. Não outro esse indivíduo, se não Barnabé.

O tal Barnabé usava calça jeans e camisa xadrez.  Trazia, na face, um par de óculos escuros. Esperava por Suzy, que marcara com ele, às três em ponto. Barnabé consultou o relógio. Três e meia. Nem sinal da vagabunda. Não que ela fosse. Pelo contrário. Tentando acertar o inseto que lhe apoquentava, aplicava leves tapinhas em si mesmo, sem mirar um ponto determinado. A bisca se mostrava desconfiada, esquiva, ladinamente arisca. Barnabé não conseguiu. A mosca bateu trégua, em retirada.

Num voo suntuoso e estudado que demostrava destreza e, ao mesmo tempo, conhecimento do terreno, a intrusa e intrometida escapou de levar uns tabefes. Barnabé continuou impassível com seu café bebido aos goles poucos, na xícara branca com uma rosa desenhada do lado direito. Barnabé queria matar o tempo (e agora, não só o tempo, a mosca também) enquanto atormentava o espírito. De Suzy nem poeira. Vaca! Se quisesse, poderia, numa só golada, mandar para dentro a bebida fria, e, depois, pedir uma segunda rodada, caso, realmente, tivesse interesse em permanecer naquele ambiente por mais tempo que o necessário.

Não passou cinco minutos, veio de volta a inoportuna penetra. Teimosa, esvoaçante, zombeteira. Barnabé voltou a abanar a dita, em vão. Desta vez com mais veemência nos gestos. O inseto, contudo, parecia ter voltado mais forte, mais disposto, mais esperto, com seus trejeitos meticulosos e estudados milimetricamente e, pior, com vontade de torrar, de fato, o saco da criatura, até fazer com que perdesse a paciência, que não se constituía muito seu forte.

Nesse voa para lá, voa para cá, Barnabé com sua xícara de café pela metade se enfureceu. Espumou encolerizado. Bosta! Se ao menos tivesse algum objeto nas mãos, um jornal, um livro, um pano, tentaria abater o díptero numa pancada só.  Uma interrogação lhe veio aos chifres da cabeça, num relance. Como faria para saber se aquela droga de mosca era uma mosca fêmea ou um mosco macho? Ou um mosquito ou mosquita?!

Pensando nessas questões de cunho profundamente colossais, tirou os óculos e os recolocou no bolso.  Sorveu mais um gole, deu uma nova abanada na infeliz, consultou o relógio de pulso e espiou comprido, para as bandas da avenida infectada de carros e pessoas que se perdiam ao longe.

Nada do táxi pintar trazendo a garota. Nada das horas correrem. Nada do sol escaldante dar uma trégua e, nada de Suzy dar sinais de vida. Se ao menos a rameira ligasse. Qual o quê! A mosca, por sua vez, não treguava. Ora vinha em suas mãos, ora no copo, na mesa, intercalava as abordadas como se quisesse provar também do precioso líquido preto como a borra de carvão no fundo cheio de pó e açúcar.

Lembrou-se entrementes, o rapaz, de um velho conselho do falecido avô, o cinquentão Mario Antão. O ancião asseverava que pintando uma mosca de branco, as outras amigas morreriam de rir. Evidentemente esse processo não se aplicava à sua história. Pelo menos naquele instante, ou mais precisamente na sua situação atual. Ainda que quisesse pintar a porcaria da mosca, como o faria? Estava numa lanchonete, num bairro perto do centro da cidade, à espera de uma mulher que não dava as caras, não ligava, nem mandava mensagens via WhatsApp, comunicando se estava perto ou não. Se ao menos naquele estabelecimento vendessem tintas e pinceis...

Havia, em paralelo, outro detalhe importante. Aquela lambisgóia de mosca seguia incansável, a dar trabalho, a fazer seus riscos no ar, por vezes baixos e rasantes, por vezes, se chocando com seus cabelos e orelhas, numa espécie de reconhecimento, para ver se, evidentemente reconhecia alguma coisa. Tudo se aglutinava e dava no saco de Barnabé. Será que a merda da mosca estivera ali antes dele, a perturbar a paz e o sossego de outros frequentadores?  Como saber? Se perguntasse à garçonete, com certeza a atendente o taxaria de louco.

Novo detalhe tomou vida e forma em suas conjecturas. Se ao menos fossem duas moscas, até se poderia valer da experiência do seu parente cinquentão. Ficava, pois, no ar mais uma indagação sem resposta, para ser juntada às outras.  Quem garantias tinha ele de se tratar da mesma mosca amolante e enfadonha? Pelo seu desconhecimento em torno da endiabrada, Barnabé achava que não poderia ser outra. Também, se fosse como distinguiria? Afinal de contas, não era formado em moscalogia. Menos ainda em insetologia, ou dipterologia. Logo essas possibilidades moscais se descartavam de imediato.  

Nesse embaraço de dúvidas, a pirracenta, no fundo, era uma ou outra, outra ou uma? Ambas? As duas?! Um casal? Seria, por acaso, um par de insetos efeminados? Marido e mulher? Amantes? Companheiros de voos? O fato é que embolado nesses pensamentos idiotas, Barnabé notara apenas e tão somente que a tal da mosca que lhe torrava os colhões, se assemelhava, em tudo, com as outras consanguíneas da sua raça. Desde o tempo do avô Antão. Sem tirar, nem por. Até no olhar as vadias se plagiavam.  

Asseverava isso a si mesmo, em decorrência dos modos, nos voos destemidos, medidos, estudados, nas maneiras de pousar, ou de sentar (as moscas sentam, pousam ou se plantam?); de fugir, de driblar os golpes insistentes da sua fúria à beira de um ataque de nervos. Barnabé frangalhado, nervoso, quase a estourar de raiva, bufava pê da vida. Brabo. Irritado, colérico, fora de si. Tanto se encheu da safardana que resolveu levar a coisa a termo. Daria um basta definitivo naquela desgranhenta ou naquelas... caso fossem duas... mas de novo, a mesma tecla do piano grunhiu (grunhiu??!!) desafinada. Como saber? COMO SABER??!!

Com esses pensamentos a lhe cutucarem futicando a cabeça, como um látego martirizante, pagou a conta das bebidas tomadas, e saiu à cata de uma dessas pazinhas para matar a intratável e inútil malcriada. Rodou praticamente todas as lojas existentes pelas redondezas.  Em vão. Prestes a desistir, achou, quase a ponto de mandar tudo à merda, uma espécie de mercadinho e resolveu, por bem, levar consigo um desses inseticidas fortes. Na lata anunciava que matava tudo. Dava até cabo de pulgas, percevejos, ratos e cobras rastejantes. Sim, cobras rastejantes, pois existem cobras que andam.

Lembrou-se de um produto muito usado em sua casa, por sua mãe. Tiro e queda. Uma baforada na “fedaputa” e fim de papo. Comprou o treco e regressou, às carreiras, ao local. Demorou em conseguir o mesmo assento. Precisava ser o mesmo. Talvez a mosca ultrajante que mexera com seus brios e pudores, tivesse filmado a sua cara e, se acaso ele se acomodasse em outra mesa, ela poderia simplesmente dar as costas, ir embora e não voltar para sacanear o idiota. E ele, NÃO ERA UM IDIOTA.

Acomodado, finalmente, no lugar de antes, mesma mesa, mesma cadeira, pediu um novo café. Desta vez, com leite, pão e manteiga. E se pôs a aguardar. Ficou na espreita, observando, olhos e ouvidos atentos, regalados, a espionar.  Os sentidos seguiam ligados. Tomada de duzentos e vinte.  Um minuto na Suzy, outro segundo no inseto. As horas corriam, descambavam. Cinco e meia. Nada, porém, da mosquinha dar sinais de vida. Nem da Suzy. Piranha de uma figa!

Nessa lengalenga, quatro horas se foram e o tresloucado ali, a ver navios, a perscrutar cada canto, em busca de uma mosca, e de uma moça que não germinavam de lugar nenhum. Para aumentar o desassossego, pediu o décimo nono café. Contando a galera que entrava e saia, vigiava a moça. Fiscalizava a mosca, a mosca, a moça, beldades entrando e saindo, e a mosca, a moça, a moça, a mosca, “neca de pitibiriba”. Casais se beijando, olhares sendo trocados. Risos com gosto de fumaça de cigarros baratos. Da mosca, nada. Da moça, idem. O traseiro dolorido se fez presente e o convidou às dez e meia da noite, a ir embora. Barnabé se foi. Partiu sem conseguir evidentemente os seus intentos. Nem mosca, nem moça, nem mosca, nem Suzy.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 3-11-2017

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