quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cesar Maia sobre a prefeitura do Rio

Cesar Maia

Qual a sua avaliação sobre o prefeito Crivella?
Cesar Maia: Prefiro aguardar 2018, especialmente após as "águas (janelas) de março". Não acredito na decantada penúria financeira da Prefeitura. Apresentar a situação do Rio como terrível e responsabilizar o prefeito anterior é uma tradição na política brasileira. Os dados que vão sendo publicados no Diário Oficial, especialmente de execução orçamentária, não indicam isso. Pode ser a tradicional “fazer caixa no primeiro ano e governar a partir do segundo ano”.

O que você quer dizer com "após as águas de março”?
CM: Em março abrem-se as janelas para os políticos trocarem de partidos. E termina o prazo de desincompatibilização de secretários e ministros. É uma boa hora de fazer uma reforma do secretariado. E de alavancar ainda mais o caixa, com a antecipação do IPTU. As receitas em 2018 deverão crescer com as leis do IPTU e do ISS e o crescimento da economia.

A sensação que muitos têm é que a Prefeitura vai muito mal e as Secretarias descoordenadas. É assim?
CM: Em 2017 é assim. Mas essa realidade é funcional, na hipótese de se fazer caixa no primeiro ano e reestruturar o secretariado.

E a crise que se noticia na saúde pública?
CM: A desmontagem das OSs, pela prefeitura atual, que eram o eixo da gestão da saúde pública herdado do prefeito anterior, teria que produzir essas consequências. Isso é ruim? Talvez não. Havia tantos funcionários nas OSs quanto concursados na Secretaria. As despesas com as OSs haviam se igualado ao IPTU. E os desvios de conduta, inclusive prisões e investigações, sublinharam um caminho para o caos. Uma caixa preta que até agora não foi totalmente aberta.

E o sistema de transportes públicos? Para onde caminha?
CM: Esse do ponto de vista de futuro é o mais grave de todos. As empresas de ônibus, a partir de 2009, estavam se desinteressando pelo mercado do Rio. Aquela prefeitura entendeu isso como modernização e qualificação. Os BRTs, o desmonte do transporte alternativo e em menor escala o VLT inicialmente no Centro, aumentaram de forma significativa o IPK - índice de passageiros por quilômetro. Com isso, o número de ônibus foi reduzido; e seria muito mais e progressivamente se fosse dada sequência a essa política.

Estação Vaz Lobo

Mas por que essa política?
CM: Uma hipótese é que o sistema de ônibus do Rio já não interessava mais as empresas como antes e que minimizar esse sistema seria a verdadeira política.

E os atos de vandalismo contra os BRTs na alta Zona Oeste?
CM: O que dizem é que a empresa que faz a segurança dos BRTs não agradou aos traficantes e que no fundo é uma guerra entre traficantes e essa empresa.

Homem quebra catracas em estação (Foto: Reprodução / Globo)
A situação da Educação é curiosa, pois não se percebe os conflitos que existiam antes. Por quê?
CM: Talvez pela origem política do secretário, suas nomeações e medidas internas, que devem – digamos - acalmar os sindicatos, ONGs e associações e partidos mais à esquerda. Mas quando entrar em votação o plano municipal de educação exigido pelo MEC e que no Rio está parado há anos, veremos os conflitos, especialmente entre os valores cristãos e conservadores de um lado e a esquerda na Câmara e fora dela. Os focos serão coisas como ideologia de gênero e escola sem partido.

A oposição de esquerda ao prefeito insiste que a prefeitura está quebrada. As críticas ao orçamento apresentado são muito grandes e crescentes. Por quê?
CM: Realmente isso tem ocorrido. Em geral, os números não são o forte da esquerda. Vide o PT, no Governo Federal. O sistema previdenciário municipal, que teria um déficit de 2 bilhões, "agora tem" um déficit de 200 milhões. O presidente da CPI, do partido do prefeito, elaborou um relatório para respaldar medidas duras que seriam adotadas, como aumento da contribuição, etc. Mas esse truque ficou claro e a CPI não terá um relatório, mas três. E essas críticas da dita esquerda convergem com o que o prefeito propaga e ajudam a explicar os seus problemas. Esperto o prefeito.
Texto: Cesar Maia, 22-11-2017

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