sexta-feira, 21 de junho de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Essa velha teoria dos corpos que se atraem

Aparecido Raimundo de Souza

O JOVEM RAPAZ ENTRA na loja de móveis e equipamentos para escritórios, e, ao se deparar, logo de cara, num grupo de três vendedoras, com uma beldade que lhe chama a atenção, por ser a mais bonita e carismática de todas, apressa os passos para se aproximar dela. Seu faro de homem experiente não se engana. Aquela pérola, na verdade, se constitui na mais formosa como ele, em todas as suas andanças, jamais havia visto ou imaginado existir.
- Oi, boa tarde, senhorita.
- Boa tarde...
Vai direito ao assunto:
- Você tem estantes de aço?
- Temos sim. Por favor, me acompanhe.

A vendedora, realmente não quebra as suas expectativas. Uma princesa, sem tirar nem pôr. Os cabelos longos lhe caem pelas costas, em suave cascata, chegando quase à altura da cintura. Os olhos são verdes e os traços do rosto milimetricamente refinados. Sem falar na boca. Pequena e envolvente, os lábios vermelhos, seguidos de um sorriso mavioso. Outras acuidades se completam entre si, como o corpo magro lhe emprestando aos demais dotes, ares inestimáveis. O aturdido acompanhante, logo atrás, percebe tudo e se perplexa, enquanto a diva, caminha na frente, encimada numa pose de finura incondicionada, sem mencionar o vestido preto, colado ao corpo, bons palmos acima dos joelhos. O percurso é breve e se encerra num cantão nos fundos da loja, onde um número enorme de estantes se perde empilhado. No mesmo convívio, dezenas de peças sobressaem embaladas enquanto outras armadas se prestam a mostruários. Vista agora, assim de frente, logo que ela se vira para o encarar ele captura a marquinha da calcinha minúscula sobressaindo pouco abaixo do umbigo, numa espécie de foto escultural. Lembra, em devaneio, um botão de rosa em sua cama se despetalando lenta por sobre a sua epiderme manchando o lençol branco de um escarlate causticantemente abrasador.

- Pronto, senhor.  Pode escolher. Aqui de duas bandejas, logo ali de três, e lá, de quatro, cinco e seis.
- Perfeita...
- Esta aqui de três prateleiras sai por...
- Calma, senhorita. Não importa o preço. Quero a de seis.
- O senhor pode dividir qualquer valor no cartão em duas vezes...
- A loja dá garantia?
- Nesse caso específico da estante eu precisaria falar com meu gerente. Se me der um minuto...
- Não há necessidade. Você vende muito dessa marca?
- Bastante.  Por sinal, a que acabou de escolher, é a que menos cria limbo aqui. O pessoal procura muito. Vendemos para advogados, engenheiros, jornalistas...
- Entendo!
- Posso lhe garantir que o aço é bom? Forte, resistente, aguenta o tranco. Essa pela qual o senhor fez a escolha, eu boto as mãos no fogo. É sensacional. Não vai se arrepender.

- Por quê?
- Porque é aço especial, com dois esses.
O jovem comprador (nessa altura, os quatro pneus arreados pela balconista e, mais, embasbacado na pegajosa agonia daquela visão monumental) se abre feito mala velha num sorriso de canto a canto da boca:
- Ah... entendi! Dois esses?
- Perfeitamente...
- Como é seu nome?
- Brenda, senhor.
- Você estuda, Brenda?
- Sim. Estou na quarta.
- Legal. Pretende se formar em...?
- Professora de língua...
- Interessante. Tenho em conta será uma excelente profissional. Bem, não quero tomar mais do seu precioso tempo. Vou levar esta mesma. Vocês me entregariam ainda hoje?

Brenda dá uma rápida espiada no relógio:
- Não senhor. Se fosse um pouco mais cedo... a esta hora o caminhão que faz as entregas, está longe. Só amanhã, pela manhã... 
- Não tem como dar um jeitinho?
- Para hoje impossível. Mas prometo que estará no local que o senhor indicar amanhã sem falta, antes das oito. Está bom para o senhor?
- Com certeza.
- Combinado. Dou a minha palavra. Pode crer. Com essa o senhor ficará bem servido.
- Entendi perfeitamente. Aço dos bons. Com dois esses. É isso?
Risos.
- Com dois esses, senhor. Alguma dúvida?
- Em absoluto. Estou aqui pensando: uma vez que é assim, Brenda, como você colocou aço resistente, e, como igualmente deixou claro, com dois esses, mande me entregar seis. Aqui está meu cartão. Nele tem meu nome, telefone e endereço. Esse aí é o de minha residência. Ah, por favor, não me chame de senhor...
- Costume, senhor.
- Prefiro você. Onde pago?
- No caixa. Logo ali.

- Posso fazer uma perguntinha?
- À vontade, senhor...  - diz Brenda num gritinho gutural consultando o cartão de visita. – Desculpe, à vontade, Eduardo. - Qual pergunta?
- Não vai me levar a mal. – Vocêzinha... vai junto?
- Não entendi...
- Quero saber se você vai junto com as estantes? Desculpe, eu usei o pronome você no diminutivo, e como deve saber esse “você” não tem a forma paralela no tamanho físico, como por exemplo, livrinho, rapazinho, mãezita, etc. Vocêzinha foi mais uma expressão carinhosa. 
- Como assim?
- Vou ser mais claro. Vocêzinha vai de brinde, é como se eu tivesse dito: essa pessoinha maravilhosa que me atendeu de uma forma tão fofa, acompanha o pacote com a entrega das estantes, tipo um presente, um regalo, ou uma oferta especial da casa?

Brenda ilumina seu rosto com o rejubilo mais lindo que consegue arrancar do fundo de sua emoção. É tão visível essa espontaneidade que o ato deixa Eduardo, por uma fração de segundos, mais desnorteado do que se encontrava. Contemplada assim de perto, quase a roçar sua pele à dela, os olhos da deidade, como pontas de facas, ferem a sua alma, fazendo-a em tiras. Eduardo repete a indagação de forma compassada:
- Então, me responda: você vai... de brinde?
A linda se achega de seu cliente e sussurra quase a lhe morder o ouvido:
- Por trezentos reais, a gente pode conversar...
O coração de Eduardo salta de dentro do peito como um leão de zoológico furioso de encontro a uma grade tentando estraçalhar uma preza:
- O quê? Como disse? Trezentos reais?
- Achou muito?
- Fechado!
- Fala sério, Eduardo? Dará os trezentos reais?
Eduardo encara a estonteante mulher a sua aba como se visse diante de si uma rainha de traços inimagináveis. Se fosse poeta, recitaria um verso de improviso em homenagem à sua performance. Antes de dar a palavra final, absolve aquele breve colapso interno. É agora ou nunca:
- Se você for boazinha, poderá ter até mais que isso. Deixo com você a minha palavra de escoteiro.

Brenda, trêmula, demora um pouco a se refazer. Tem a ligeira impressão que toda a sua alma, por dentro, arderá numa ânsia incontrolável. Sabe, de antemão, que atingiu o ponto fraco do cliente, e que, de contrapeso, comanda sobre a sua oratória de venda, uma autoridade seviciante e totalitária. Compreende mais.  Se der o sinal verde, toda a sua emoção reconditada explodirá em chamas. Escolhe as palavras certas:    
- Algum compromisso para hoje à noite?
- Ainda que tivesse um encontro com o papa, desmarcaria...
Na mosca.
- Eu saio daqui uma hora. As dezoito em ponto. O senhor, digo, você está de carro?
- Sim.
- Qual é?
- Uma BMW da cor do seu vestido. Está logo aqui na rua ao lado.
Brenda pega, entre as suas, as mãos trêmulas do espantado rapaz:
- Não sei se percebeu. Tem uma padaria logo na esquina. Pode me esperar lá?
- Com todo prazer...
- Não esqueça. Às seis em ponto...
- Às seis em ponto! - Não vai me dar furo?
- Por esse valor vou lhe dar... vou lhe dar todos os meus furos...
Eduardo ao ouvir essa declaração inopinada, tropeça numa mesinha de computador não vista à frente e quase vai com tudo, de cara ao chão. A menina do caixa, que em seguida o atende, igualmente solícita, por pouco, não sofre um acesso e se extasia literalmente em sonora gargalhada.  
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 21-6-2019

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