terça-feira, 18 de junho de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Carta de adeus à Cleuza

Aparecido Raimundo de Souza

NOSSOS CAMINHOS se desapartaram. De vez se divorciaram, se separaram, se quebraram numa ação irreversível e sem retorno. Sem volta, sem readmissão num mundo a dois, sem rodeios para novas brigas e mágoas. Cada um seguirá seu destino a bel prazer, por trilhas diferentes, sem derredores, sem despedidas, sem nem sequer um adeus ou até breve. O rádio chato de todas as noites ficará calado. A caixinha de leite pela metade, na geladeira, não deixará seu filho com os nervos frangalhados. O ventilador de teto barulhento emudecerá aos ouvidos das paredes, e o computador com as luzinhas vermelhas e azuis se apartará sem o foco inoportuno piscando intermitentemente sobre as suas vistas. Você voltará triunfante à sua cama. Deixará de dormir ao relento da varanda ao frio gélido de uma rede improvisada. Abandonará de vez o “quarto enganoso” e apócrifo às cortinas de tiras, usque uma rede balançando o desconfortável das noites longas, sem o refrigério da maciez para repor as energias de seus dias cansativos e horas entediantes.

Logo você, portadora de sérios problemas de coluna! Um vazio inexorável se fará perpétuo e perplexo, sepultando em cova funda tudo de bom que um dia você tentou construir para nós. Na verdade, seu “eu” interior viveu um sonho etéreo, um deslumbramento próspero, quase inumano. Um devaneio que toda mulher gostaria de viver. E não só de viver, mas pegar nas mãos, apalpar, manipular e sentir. Você ansiou, isolada no volúvel do travesseiro, entre lençóis limpinhos e cheirando a amor sublime, com um príncipe que nunca se fez presente nem lhe deu aqueles pequenos e simples encantamentos bobos, todavia dignos de uma rainha. Debaixo do leito, no vazio do chão, o papagaio doravante será a sua companhia. Logo cedo, a ave acordará de humor irritadiço, contrariada, querendo lhe bicar as gentilezas, empurrando as palavras carinhosas que logo serão trocadas por uma catação de piolhos. “Olha a malcriação!”.

O preço dessa dor que você sente agora certamente compensará com um fubrante e auspicioso ombro amigo ressuscitado de tempos de outrora. Um “namorado do nada” chegará anunciando boas-novas, ofuscando a visão de tudo de ruim que você sofreu. Trará esse alguém, na bagagem, ensaios diferenciados com tentativas para horizontes não percorridos. Quem sabe você volte a ver com ele, estrelas não reparadas, luas não deslumbradas. De roldão, aquele sol gostoso que nunca propus repousar sobre a sua sublimidade. Do “nada”, como num passe de mágica, surgirá igualmente um clarão no escuro dúsdio das suas insônias; porém, o mais importante: ainda que nada disso se torne palpável, o que conta é que você, sobretudo a sua pessoa, se restabeleça, se refaça, se reconstrua, se apronte, se vista de flores  as mais variadas para enfrentar essa nova jornada e, quem sabe, desta feita, com final mais feliz à sua realeza.

Você nunca acreditou no meu amor ou no que eu dizia ser amor. Amei você à minha maneira errada, esquisita, pouco ortodoxa, desfundamentada de uma realidade que você conhecia bem e só eu não enxergava. E quando deparei com ela, nua e crua, crua e nua, percebi que meu entendimento do que era politicamente correto e verdadeiro estava longe demais de um senso que só eu atinava e seguia em sentido inverso, como um louco ao volante, num carro em alta velocidade usando a contramão. Muitas vezes você me disse que só você me amou. “Que eu estava perto, mas o corpo, a mente e os pensamentos aquém da vida abundante que me proporcionava”.  Também reclamou que eu me adulterara em “mera visita, um hóspede que vinha, dormia, comia, bebia, tomava banho, trocava de roupas, e, horas depois, voltava correndo e apressurado para meu conspurcado casulo”.

Por um tempo, você foi a minha amada, meu porto seguro, meu chão. Cobriu todos os meus espaços vagos com o calor abrasante de uma canção maviosa que suavemente encantava meus ouvidos e embalava a minha estupidez. Mas eu não atentava para esses detalhes. Pode ser que, de fato, creio agora, nunca tenha entrado verdadeiramente de cabeça em sua vida. O conviver soberano de um reino onde só a sua alma se constituía na metade em festa, não se preencheu, não se acurou, não se perpetuou. Por conta desse deslize, o coração que batia, o sangue que corria ligeiro por todo o seu corpo desenhando matizes inverossímeis eu jamais consegui distinguir no brilho certo das cores que só faltaram me atropelar. De repente, num reverso, me vi neófito, atrapalhado e cego. Tranquei dentro de mim mesmo a minha vida de loucuras e abandonei o calor dos seus abraços e afagos. Por causa disso, cessamos de fazer amor por completo abandono da minha insensatez. Que coincidência! Também agi assim com a Marlúcia e uma vez, ela me disse, em prantos: “você não precisa fugir de mim ou dormir comigo e fazer sexo forçado só porque temos duas filhas”.  

Todas as mulheres que você me imputava, que jurava ter fora da “nossa casa” – repare, TODAS, sem exceção, viraram quimeras. Fantasmaram num oco grotesco. Sumiram ao sabor de um labirinto sem volta. Sem medo de errar, diria que se transformaram em gasosos fantasiosos; tão sem sentido esses ventos aeriformes, como as minhas loucuras e viagens vida adentro, mundo afora, sem sair do chão que pisava. Vou sentir, é verdade, a falta dos seus cuidados, o café na cama, o “Moorr” na tela do zap do seu celular, a comida na hora certa, os telefonemas insistentes quando eu não chegava do trabalho no costumeiro das tardes. Vou sentir, igualmente, pela perda da salvação de meus medos e receios mais escabrosos. Ainda que eu semeie jardins em outra casa ou venha a ter outro aconchego, um desarranjo voraz estará sempre me vigiando de frente, me recriminando por não ter dado a você o que tinha gratuitamente ao alcance das mãos e por burrice joguei no ralo dos meus eternos percalços.

Peço, pois, perdão a você, minha Cleuza amada. Escusa, indulto, absolvição por tudo o que eu não fiz. Talvez o meu rogo chegue tarde (aliás, é demasiadamente tarde) e tudo o que escrevo agora se perderá, compreendo, se afundará com meus passos em incertos e acordios porvindouros. Termino aqui lembrando a música (e deixo a sua poesia) que foi tocada e declamada no dia do velório de Elvis Presley. Ela completa o que, em algum ponto da nossa caminhada, eu deixei de dizer.

“Talvez eu não tenha te tratado
Tão bem quanto eu deveria,
Talvez eu não tenha te amado,
Com tanta frequência quanto poderia...
Pequenas coisas que eu deveria ter feito
eu simplesmente nunca tive tempo.

Você sempre esteve em minha mente
Você sempre esteve em minha mente

Talvez eu não tenha te abraçado,
Em todos aqueles solitários,
Solitários momentos,
e eu acho que nunca te disse:
“Estou tão feliz por você ser minha”
Se eu fiz você se sentir em segundo lugar
Garota, eu sinto muito, eu estava cego...
Você sempre esteve em minha mente
Você sempre esteve em minha mente

Diga-me, diga-me que seu doce amor não morreu.
Me dê me dê mais uma chance
Para mantê-la satisfeita, satisfeita,
pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito,
eu simplesmente nunca tive tempo
Você sempre esteve em minha mente
Você sempre esteve em minha mente...”.

VOCÊ SEMPRE ESTARÁ EM MINHA MENTE.



tulo e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha no Espírito Santo. 18-6-2019

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